06/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/10/2018 09:37 -03

Jade Bittencourt, a poeta lésbica que declara seu amor às mulheres

A poeta que descobriu a própria sexualidade através dos versos, vê a poesia como forma de resistência: "Aprendi que a coisa mais valiosa que a gente tem é a palavra", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Jade Bittencourt é a 218ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Jade Bittencourt, de 24 anos, se autodenomina a "poeta dos encontros", porque seus escritos refletem o seu modo de se conectar a outras pessoas e se deixar afetar por elas. Nascida em Salvador, filha de compositor e músico, ela passou a infância rodeada por arte. Ela começa contando as doces memórias que têm dos teatros onde o pai costumava – e costuma – trabalhar, e onde ela própria aprendeu a enxergar a arte como um modo de vida e construção de discurso. "Na minha casa havia boa música e livros; eu via os meus pais lendo, escrevendo, compondo, apreciando arte, e isso, de certa forma, me formou", afirma, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Jade teve uma infância solitária. Passava tardes na Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador, sozinha com uma pilha de livros que praticamente materializavam uma nova realidade diante de seus olhos. Lembra-se bem do momento em que entendeu que a arte era o caminho escolhido por seu coração. Um dia, aos 5 anos de idade, na saída do teatro, disse ao seu pai que queria ser atriz. "Eu não sabia expressar isso, mas eu queria mesmo ser artista, não necessariamente atriz. O que me atraía ali era a palavra falada; foi ali que eu descobri que a palavra era o meu lugar."

Eu via que a arte não precisava ser só entretenimento: era muito mais que isso.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

Na adolescência, enquanto as meninas de sua turma falavam sobre a natural atração que os garotos começavam a lhes despertar ela, estranhamente, se sentia deslocada. Ao perceber o próprio encantamento por meninas, começou a tentar se convencer de que aquilo não passava de amizade – afinal, a heterossexualidade compulsória é algo que norteia a vida sexual de todas as mulheres.

Era escrevendo que ela compreendia os próprios sentimentos. "Eu tinha uma atração especial por uma coleguinha de turma, e escrevia poemas pra ela, mas sempre neutros, para que ninguém nunca tivesse certeza do que eu sentia", lembra. Ninguém tinha certeza, mas seus sentimentos estavam lá. "O eu-lírico sempre deixa uma brecha", ela diz, ao defender que a intenção do autor tem um peso que não pode ser olvidado: "Quando um artista assume um discurso e passa isso para a frente, ele precisa ter consciência da responsabilidade que é. Você é responsável pelo que você diz."

Eu escrevo sobre encontros, sobre almas que conversam.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Ao perceber o próprio encantamento por meninas, começou a tentar se convencer de que aquilo não passava de amizade.

Por meio do "fazer poético", Jade descobriu – e aceitou – a própria sexualidade ao entender-se como mulher e lésbica. A maneira que ela encontrava de reconhecer os próprios sentimentos por outras meninas era escrevendo sobre elas. "Quando eu podia me ler, eu podia entender melhor o que eu sentia", explica.

Em suas empreitadas literárias, que aconteciam diariamente, ela se identificava predominantemente com o gênero lírico. Devorava livros de Drummond, Cecília Meirelles e Manoel de Barros, mas sentia que ali faltava algo: as narrativas lésbicas e bissexuais não lhe chegavam por meio dos versos. "Eu sabia que as mulheres lésbicas, trans e bissexuais existiam, mas onde elas estavam? Por que elas não conseguiam adentrar no mercado editorial?", questiona.

Foi com esses questionamentos na manga que Jade ingressou na Universidade Federal da Bahia para estudar Letras e, com a ajuda de professores e colegas de ofício, compreendeu ser possível viver de poesia, embora não desprezasse os entraves do mercado editorial, sobretudo para não-heterossexuais.

Antes eu disfarçava a minha sexualidade nos meus versos, principalmente quando eu ainda não havia me descoberto completamente.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Escrever é, para Jade, uma maneira de resistir à invisibilização discursiva.

Ao conhecer a Padê Editorial – voltada predominantemente para escritoras negras, lésbicas, bissexuais e transexuais -, seu sonho de publicar seu primeiro livro de poesia tornou-se possível. Através do edital "escrevivências", ela publicará ainda este ano tinkuy (que significa encontro em quéchua, uma família de línguas indígenas da América do Sul, ainda hoje falada por cerca de dez milhões de pessoas de diversos grupos étnicos da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru ao longo dos Andes). A referência linguística denuncia sua escrita latino-americana e decolonial.

Celebrar os encontros não é o único interesse de Jade no que tange à poesia, entretanto. Ela conta que escrever não apenas a ajudou a descobrir e explorar a própria sexualidade, mas a ajuda, até hoje, a afirmá-la. "Antes eu disfarçava a minha sexualidade nos meus versos, principalmente quando eu ainda não havia me descoberto completamente. Agora eu faço questão de deixar óbvia a minha lesbianidade neles, porque eu compreendo que isso é um ato político. É preciso registrar que nós existimos, nós amamos. Todo amor entre mulheres é um poema."

Escrever é, para Jade, uma maneira de resistir à invisibilização discursiva com a qual sempre fora obrigada a conviver em razão de sua sexualidade. A poeta acredita em representatividade como direito, e na palavra matéria-prima da emancipação. "Quando eu lia Cecília Meirelles e ela falava de amor, por exemplo, ela estava falando de amor a um homem. Eu amo mulheres. Eu queria ler e escrever sobre isso."

Eu amo mulheres. Eu queria ler e escrever sobre isso.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, às vésperas da publicação de seu primeiro livro, que já está pronto, sua preocupação é a democratização deste tipo de literatura.

A partir deste desejo, ela e outras poetas lésbicas, bissexuais e transexuais de Salvador criaram seu próprio espaço em um mercado que parecia não lhes caber. Ajudando umas às outras, elas usavam a internet e meios alternativos para fazer com que sua arte chegasse a outras pessoas.

Hoje, às vésperas da publicação de seu primeiro livro, que já está pronto, sua preocupação é a democratização deste tipo de literatura. "Todos os livros publicados pelo escrevivências serão disponibilizados em versão digital, e todas nós concordamos com isso, para que todos possam ter acesso, mesmo aqueles que não podem comprar um livro físico. É preciso fazer com que a literatura chegue a todas as pessoas". E ela é parte disso.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.