POLÍTICA
05/10/2018 16:13 -03 | Atualizado 05/10/2018 16:17 -03

Henrique Meirelles: Da carreira sólida em banco para campanha sem verve política

Goiano de Anápolis é admirado por seus feitos no setor privado e como ex-presidente do BC, mas enfrenta dificuldades para se soltar como político.

Paulo Whitaker / Reuters
Henrique Meirelles bancou grande parte da própria campanha à Presidência da República.

A candidatura à Presidência do Brasil é um sonho antigo de Henrique de Campos Meirelles. Entre seus feitos como executivo de banco bem-sucedido, consultor financeiro e presidente do Banco Central (BC), o goiano de Anápolis nunca negou seu interesse na política: foi eleito deputado federal pelo PSDB em 2002 e abriu mão do mandato, no ano seguinte, para assumir o BC no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Lá permaneceu por 8 anos, colecionando números que gosta de repetir desde que começou a corrida presidencial: estabilizou a inflação abaixo do centro da meta oficial por 3 anos e sua política ortodoxa elevou as reservas internacionais de US$ 250 bilhões.

O homem bem-visto pelo mercado financeiro, no entanto, exagera ao contabilizar os feitos em seu plano de governo. "O governo Meirelles terá como meta fazer o País voltar a crescer 4% ao ano, como aconteceu quando foi presidente do Banco Central de 2003 a 2010, período no qual foi registrada a criação líquida de 10,2 milhões de empregos com carteira assinada no Brasil", diz o programa. Em outra passagem, Meirelles colhe os louros do governo Lula ao destacar que o investimento público aumentou "de modo expressivo entre 2003 e 2010", quando ele estava à frente do BC. "No período, houve um aumento de 2 pontos percentuais, passando de 2,6% para 4,6% do PIB."

O emedebista também tentou soltar o gogó sobre seus próprios feitos. Apesar da formação de engenheiro civil pela USP, Meirelles traçou uma carreira bem-sucedida no setor privado. Trabalhou por 28 anos no BankBoston. Enquanto estava na instituição, fez um curso de administração em Harvard e chegou à presidência mundial, sendo o primeiro estrangeiro a conquistar a mais alta cadeira de um banco americano de grande porte. Fez fortuna, se aposentou em 1999 e voltou para o Brasil.

Por aqui, utilizou seu histórico no setor privado em um momento crítico da nossa História: ele foi convidado para acalmar os ânimos dos mercados quando Lula assumiu a Presidência. E assim o fez e foi o executivo que ficou por mais tempo à frente do BC.

"No início, o pessoal não gostava dele porque achava que ele não era respeitado pelo mundo acadêmico", disse ao HuffPost Brasil o consultor financeiro Newton Marques, professor da UnB e ex-economista do Banco Central, onde trabalhou de 1976 a 2011. "É como chamar a raposa para tomar conta do galinheiro", diz, sobre o passado do candidato.

Mas a competência de Meirelles, continuou o economista, conquistou a confiança dos funcionários e ele deixou o BC 8 anos depois como "um profissional incriticável".

Adriano Machado / Reuters
Henrique Meirelles conquistou todos os funcionários do Banco Central por sua competência e dedicação.

Isso no universo econômico, é claro. Como político, no entanto, Meirelles anda decepcionando os ex-colegas de banco, mostrando pouca atitude e quase nenhum "rebolado político". "Ele tem que ter personalidade, não basta só ideologia. Para chegar a governar tem que convencer, mas ele não sabe se posicionar", pondera Marques.

O emedebista demorou algum tempo para alardear sua candidatura. Desviou do assunto até mesmo após fincar a pretensão em uma entrevista à revista Veja. O medo era de que o mercado questionasse se o ministro poderia sacrificar os esforços pelas duras reformas almejando conquistar o eleitorado no ano seguinte. "Meirelles recuou de novo e tentou desdizer o que havia dito, mesmo divulgado uma nota que, no final das contas, confirma o que está na entrevista", relata uma reportagem da Piauí no final de 2017.

Outra impressão é a tentativa (falha) de descolar sua candidatura de Michel Temer, o presidente mais impopular da História do Brasil. Desde que o MDB oficializou sua candidatura, a cúpula do partido bem que tentou aumentar a popularidade de Meirelles, mas nunca sem passar dos 3% nas pesquisas de intenção de voto.

"Vamos mostrar que Meirelles não é o resultado do governo Temer. Quem inventou o Meirelles na área econômica não foi o Temer. Foi o Lula", afirmou Jucá, líder do governo no Senado. Neste cenário ideal de Jucá, Meirelles é "um outsider na política, um radical de centro".

Esses momentos pouco provaram as habilidades políticas herdadas por uma família de políticos. Seu avô foi prefeito de Anápolis (GO) 3 vezes, seu pai ocupou cargos na Secretaria do Estado de Goiás duas vezes e teve um tio governador. "Querendo ou não, foi ele quem esteve ao lado de Temer quando assumiu a Presidência", disse Marques, ex-BC. "Ele não é picolé de chuchu, mas também não é mais nada do que isso."

Como um bom virginiano (nasceu em 31 de agosto de 1945), Henrique Meirelles fez e administrou bem sua fortuna. Em agosto, ele declarou patrimônio de R$ 377 milhões ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) — o segundo mais rico entre os presidenciáveis, ficando atrás apenas de João Amoêdo, com R$ 425 milhões.

Adriano Machado / Reuters
Meirelles tentou se descolar de Temer e se associar a Lula nesta campanha eleitoral.

Meirelles: Antipático, eu?

Conhecido por seu jeito inquieto e workaholic, o candidato é incansável nas tentativas de conquistar diferentes públicos do Brasil. Em agosto, a campanha digital do candidato tentou lançá-lo como o candidato Geek, como uma tentativa de aproximação ao público jovem.

A postagem pouco informativa também não soou nada moderna: "estou antenado com a tecnologia para modernizar o Brasil", escreveu o candidato na era do wi-fi. O tiro saiu pela culatra e viralizou apenas sua pronúncia nada "cool": "jique". Resultado foi uma vergonha alheia geral na internet.

Se tais estratégias não colavam, o jeito foi apelar para seu lado pessoal. Casado há 18 anos com Eva Missine, Meirelles não tem filhos, mas cuida muito bem de seus 5 cachorros adoráveis da raça Cavalier King Charles Spaniel, cães com linhagem ligada à monarquia inglesa. "Cachorro faz muito bem a todos, eu aconselho", disse o presidenciável no Twitter após posar com a Trica no colo.

Com a Trica. #cavalierkingcharlesspaniel

Uma publicação compartilhada por Henrique Meirelles (@henriquemeirelles.real) em

A imagem de um homem impopular e pouco simpático está mais ligada ao seu sisudo trabalho do que pela sua vida pessoal, regada a festas glamurosas. Segundo a revista Piauí, o candidato costuma fazer duas grandes festas por ano: a de seu aniversário, que quase sempre é temática, e no Réveillon, em sua luxuosa cobertura na orla de Ipanema.

A passagem de 2005 para 2006, em particular, parou em uma coluna assinada por Diogo Mainardi na Veja. O jornalista era vizinho do então presidente do Banco Central e se irritava com a festa embalada por músicas dos anos 80.

"Muita gente reclama dos juros praticados por Meirelles no Banco Central. Eu reclamo apenas porque ele, que é meu vizinho, me impediu de dormir na passagem do ano, atordoando-me com o estribilho: 'it's raining men. Hallelujah! It's raining men. Amen!'", escreveu na época.

Mais de 10 anos depois, Meirelles não negou o 'climão' à Piauí: "Você sabe que, no ano seguinte, pedi ao diretor da revista que perguntasse ao Diogo se ele me dava autorização para o Réveillon", brincou. Emendou sério, no jeitão Meirelles do mercado: "Mas o Diogo foi unfair. Porque naquela noite havia diversas festas na praia e nos prédios em volta. Não era só a minha".