POLÍTICA
05/10/2018 18:10 -03 | Atualizado 05/10/2018 18:11 -03

Guilherme Boulos: O psicanalista que virou líder dos sem-teto e remete ao Lula de 89

Candidato do PSol vem com um mantra embutido: "não é possível avançar um metro de conquista de direitos sem enfrentar privilégios”.

Nacho Doce / Reuters
O filósofo e psicanalista Guilherme Boulos é o mais jovem presidenciável deste ano.

"Ele praticamente não fala com a imprensa. Se você der sorte..."

Em 2014, entre os jornalistas, era isso que se falava de Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e hoje candidato à Presidência pelo PSol. Boulos é reservado e coerente com as ideias dele. Nos últimos 4 anos, porém, uma coisa certamente mudou na vida do filósofo e psicanalista de 36 anos. O candidato mais novo na disputa presidencial deste ano teve de se render aos holofotes.

Se era conhecido por ser tímido, também o deixou de ser — ao menos na hora de entoar bordões contra os adversários. "Não vamos chamar o Meirelles, vamos taxar o Meirelles", dispara às câmeras com voz firme e naturalidade. No mesmo tom que o fez líder de um movimentos sociais mais sólidos do País, o único até há pouco capaz de mobilizar milhares.

É dele a principal voz ativa na luta por moradia. "As pessoas não conseguem mais pagar aluguel, estão desempregadas e precisam de moradia", diz, como quem não tem dúvidas sobre o que fala. Para ter toda essa certeza, ele deixou a casa dos pais de classe média alta e foi morar em uma ocupação. Conta que foi lá que aprendeu mais sobre o dia a dia das pessoas.

E esse é um assunto que ele gosta de falar: o sentimento das pessoas. Em uma época marcada pela valorização à saúde mental, ele discorre com gosto sobre experiências coletivas, solidariedade. Diz que viu muita gente que se sentiu humilhada, gente que dizia se sentir "pior do que chinelo de R$ 1", ter de volta o brilho no olhar.

Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto/Getty Images
Boulos e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último discurso do petista antes de ser preso, em abril deste ano.

A psicologia dos brasileiros por Boulos

"Essas pessoas (que se sentiam humilhadas) quando vão viver em conjunto nas ocupações, elas redescobrem seus valores, sua perspectiva. Falo isso porque depressão não é só caso de remédio, é caso de valores. E um governo tem que ter compromisso com valores éticos, com valores coletivos, em uma sociedade que não coloque o consumo acima de todas as coisas e o individualismo acima de todo o resto", analisou, em sabatina ao HuffPost Brasil e ao Yahoo!, em agosto deste ano.

A psicologia também serve para falar do candidato do PSL, Jair Bolsonaro.

"Se você andar na rua, vai ver que as pessoas estão com medo. Com muito medo. Medo da violência, do desemprego, medo do futuro. Uma falta de perspectiva. (...) Quando você está com medo e aparece alguém com discurso de valentão, esse discurso seduz... A tática psicológica de Jair Bolsonaro é explorar o medo. É um populismo em cima de cadáver, um populismo em cima da vida das pessoas."

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Boulos enfrentou Bolsonaro sempre que pode durante a campanha; a começar pelo debate da Band, quando questionou "quem é Val?".

Frases de efeito de Guilherme Boulos

A seriedade e o tom professoral de Boulos, entretanto, desmontam em alguns momentos. Ele quebra o gelo, especialmente quando vai falar da sua vida pessoal. Com um sorriso no rosto e até com tom de piada, ele fala dos seus bens: "meu patrimônio é um Celtinha prata 2010". E diz que mora em uma casa no Campo Limpo, na periferia de São Paulo, comprada com "esforço familiar".

Boulos fala firme, olhando nos olhos do interlocutor, pausa as frases com o nome da pessoa com quem está falando. Não gosta das comparações com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato de raízes de esquerda mais profundas em 1989. Mas não recrimina quem as faz. Se der espaço, ele segue discursando, sempre com frases de impacto:

"O Brasil é uma Disneylândia financeira para o capital especulativo";

"Não sou padre para perdoar ninguém";

"Não sei se a máscara que ele [Jair Bolsonaro] usa dura muito tempo";

"É inadmissível que as eleições sejam definidas no tapetão".

E, se tem uma palavra que ele vai usar, é privilégio.

Para este 2018, Boulos é o candidato que vem com um mantra: "não é possível avançar um metro de conquista de direitos sem enfrentar privilégios".