ENTRETENIMENTO
05/10/2018 18:54 -03 | Atualizado 06/10/2018 10:07 -03

BoJack Horseman: Criador da série fala sobre glamourização do 'comportamento desprezível'

Descobrir que Harvey Weinstein era fã de seu trabalho obrigou Raphael Bob-Waksberg a se fazer algumas perguntas difíceis. Na 5ª temporada, ele propõe respostas.

Netflix

Raphael Bob-Waksberg descobriu recentemente algo que realmente o incomodou: que Harvey Weinstein está entre os fãs de BoJack Horseman.

"Uma pessoa que trabalha com Will [Arnett] conheceu Harvey Weinstein numa festa um ano atrás e Weinstein lhe disse: 'Sabe de uma coisa, adorei aquele episódio de 'BoJack' debaixo d'água que vocês fizeram'", me disse Bob-Waksberg, criador da série da BoJack Horseman. "Quando ouvi isso, saber que Harvey Weinstein assiste meu programa me deu calafrios. Fiquei pensando: o que ele tira da série? Será que ele assiste e fica pensando 'é isso aí, é assim que a gente tem que ser mesmo. Nós caras de Hollywood somos f*da. O que vocês vão fazer com a gente?'"

A questão de se a sitcom vem ajudando a justificar maus comportantes é algo que Bob-Waksberg e os outros roteiristas de BoJack Horseman cobrem na quinta temporada, disponibilizada recentemente pela Netflix. BoJack, o homem-cavalo animado que é o protagonista da série, uma figura que abusa de substâncias e destrói seus relacionamentos, já se firmou faz tempo como um personagem complexo o suficiente para suscitar tanto o afeto quanto o repúdio dos espectadores. Desta vez, os responsáveis por BoJack olham no espelho e se perguntam o que criaram, por meio da excepcionalmente meta Philbert, uma sitcom dentro da sitcom, cujo "anti-herói sujo" é BoJack, como diz Bob-Waksberg.

Na festa de lançamento de Philbert, BoJack elogia o que considera ser a lição principal a tirar da série, algo que também pode ser visto como a lição dúbia a ser tirada de BoJack Horseman: "Somos todos péssimos, portanto somos todos OK, e acho que essa é uma mensagem realmente poderosa".

Seus comentários chocam sua boa amiga Diane, figura que chega o mais perto de ser um centro moral da sitcom. "O objetivo de Philbert não é que os homens fiquem assistindo e achem que está tudo bem", ela fala a BoJack mais tarde. "Não quero ver você nem mais ninguém usando a série para justificar seu próprio comportamento desprezível."

Se parece um momento de auto-reflexão, é porque é isso mesmo. Entrevistado pelo telefone, Bob-Waksberg falou de como encara o personagem que criou, o efeito não pretendido que BoJack tem sobre seus fãs, o que ele próprio aprendeu neste ano desde a queda de Harvey Weinstein, e muito mais.

Esta entrevista foi editada e condensada para permitir maior clareza.

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HuffPost: Me corrija se estou enganado, mas parece que esta é uma das temporadas de mais auto-reflexão dos criadores de BoJack. A história de Philbert parece uma maneira de os roteiristas se olharem no espelho e perguntarem se BoJack pode na realidade ter levado os fãs da série a encararem mau comportamento como algo normal. Estou interpretando corretamente?

Raphael Bob-Waksberg: Sim, é uma visão justa. Especialmente à medida que a série vem ganhando popularidade, uma das coisas em que pensamos muito é o efeito que este programa tem sobre as pessoas que o assistem. Não sei se existe uma resposta clara e inequívoca, mas isso é algo sobre o qual eu pessoalmente reflito muito, então me pareceu a coisa mais natural do mundo que viesse à tona na própria série.

Me pergunto se a decisão de tratar disso agora foi inspirada por algumas das coisas que vêm acontecendo recentemente no mundo real.

Várias coisas estão acontecendo. Pareceu narrativamente apropriado porque estamos fazendo uma temporada em que BoJack produz uma série de TV sobre um anti-herói sujo chamado Philbert. Quando falamos sobre programas de TV com homens difíceis e problemáticos, não podemos deixar de fazer um pouco de auto-reflexão, porque afinal é isso mesmo que estamos fazendo com BoJack Horseman.

Há também uma conversa mais ampla que vem tomando forma há algum tempo sobre o que as pessoas tiram das séries de TV que assistem – será que estão recebendo as mensagens corretas? Obviamente penso no artigo de opinião que Anna Gunn escreveu um tempo atrás para o New York Times sobre como as pessoas odeiam Skylar [White, sua personagem em Breaking Bad]. Dan Harmon falou de como os fãs reagiram a Rick de Rick and Monty e de como é estranho perceber: "Estou criando uma coisa e as pessoas estão fazendo a interpretação errada".

Estou realmente interessado nisso. Até que ponto sou responsável se as pessoas fazem a interpretação "errada" de BoJack Horseman? Isto daqui é arte. Pertence ao público. É aberto a interpretação. Quero que a série seja um prisma através do qual as pessoas possam se enxergar, e não quero acusar o público de estar entendendo errado.

Há algumas coisas que fizemos na série do ponto de vista da história quando pensei "estamos contando este tipo de história", mas a coisa foi interpretada por muitos de maneira diferente, então pensei "ok, bem, vai ver então era aquele tipo de história". Quem sou eu para dizer "não, você está errado e eu estou certo"? Mas a questão é, será que isso chega ao ponto de as pessoas – não quero dizer se solidarizarem com o personagem principal, porque eu quero que as pessoas se solidarizem com BoJack, eu quero que as pessoas sintam por ele --, mas será que isso chega ao ponto de as pessoas usarem BoJack como desculpa para fincarem o pé na lama e não mudarem seu modo de ser, como faz o próprio BoJack?

Você acha que algumas pessoas sentem que BoJack pode ter justificado seus próprios erros de comportamento passados?

Acho que sim. Nesta temporada, mais que nunca, acho que a série deixa muito claro que as pessoas não devem tolerar esses comportamentos nelas mesmas. Mas ouvi uma história recentemente. Uma pessoa que trabalha com Will [Arnett] conheceu Harvey Weinstein numa festa um ano atrás, e Weinstein falou "sabe de uma coisa, adorei aquele episódio de BoJack debaixo d'água que vocês fizeram". Quando ouvi isso, a ideia de que Harvey Weinstein assiste à minha série me deu calafrios. Fiquei pensando: o que ele tira da série? Será que ele assiste e fica pensando "é isso aí, é assim que a gente tem que ser mesmo. Nós caras de Hollywood somos f..a. O que vocês vão fazer com a gente?"

Acho que estamos afetando muita gente de maneiras positivas. Uma de minhas interações favoritas com uma fã foi com uma mulher que me disse: "Eu aproveito sua série para explicar ao meu terapeuta como estou me sentindo. Há coisas que vocês articulam na sitcom que eu não consegui articular para mim mesma, e isso tem me ajudado tremendamente." Foi uma honra ouvir isso. Tenho o maior orgulho disso.

Outro dia eu estava num evento com alguns membros do elenco, e uma mulher foi falar comigo e Aaron Paul: "Quero agradecer a vocês porque sou assexual e eu não sabia que isso existia até ver Todd em BoJack descrevendo como ele se sente. Então percebi que ele estava descrevendo o jeito como eu me sinto." Adoro isso, me dá muito orgulho.

Mas seria desonesto dizer "tenho o poder de afetar as pessoas de uma maneira positiva, mas como você ousa me acusar de afetá-las de modo negativo?". É responsabilidade minha encarar isso de frente e refletir sobre as histórias que contamos, sobre quem está assistindo e como elas estão afetando quem as vê. Uma das coisas da qual falamos muito na sala dos roteiristas, e não acho que exista necessariamente uma resposta certa ou errada aqui, mas faz tempo que eu repiso – será que estou conjugando a palavra corretamente?

Acho que sim.

Repiso a história das "influências da cultura pop", e não quero dar uma de Tipper Gore em relação a isso, mas acho que nós nesta indústria carregamos uma responsabilidade, como criadores de cultura pop, de realmente refletir sobre as mensagens e histórias que estamos transmitindo ao mundo, e acho que a maioria das pessoas não leva essa responsabilidade suficientemente a sério. Não defendo a censura, mas defendo a responsabilidade e que se leve em conta o que são as narrativas e quais os efeitos que elas têm. Chegamos a ter uma discussão na sala dos roteiristas, eu falei: "Acho que pelo fato de mostrarmos uma coisa na tela, isso glamouriza essa coisa. Se você não está combatendo uma coisa, conscientemente ou não, você a está glamourizando."

Qual seria o outro lado nessa disputa?

Nick Adams, que escreveu o episódio 4, em que discutimos esse tema, não concordou comigo. Ele disse: "Não acho que seja certo. Acho que as pessoas têm inteligência suficiente para se distanciarem do que é entretenimento. Acho que exageramos o grau em que a cultura pop influencia as pessoas."

Acabamos concluindo que "glamourizar" talvez não seja o termo correto, que seria "normalizar": que pelo fato de uma coisa ser mostrada na televisão, ela acaba sendo normalizada, vista como normal. Não sei se todo o mundo pensa nisso quando escreve séries contendo violência, suicídio, violência sexual ou simplesmente séries com personagens perversos. Séries com policiais que infringem as regras, mas conseguem resultados. Acho que isso não é algo que deva ser normalizado em nossa sociedade. É perigoso. Então isso é algo que me aflige muito e que obviamente se manifestou fortemente nesta temporada de BoJack.

Vocês também se debruçam sobre como Hollywood reagiu a essas histórias sobre "homens maus", histórias do "Me Too", chame-as como você quiser, e retratam a indústria do entretenimento, com razão, como um lugar meio cínico e insincero, controlado por máquinas de relações públicas. Para alguém que está dentro desse setor, como foi assistir a este último ano acontecendo?

Não posso falar em nome de outras pessoas do mundo do entretenimento, mas para mim este último ano tem sido frustrante e doloroso, mas também um pouco positivo, esperançoso. Ao mesmo tempo em que vemos alguns desses homens asquerosos começarem a voltar a entrar em ação, não sou tão cínico a ponto de pensar que tudo que aconteceu neste último ano não adiantou nada. As coisas estão diferentes hoje do que estavam um ano atrás. O fato de Harvey Weinstein não ter o mesmo poder de antes é positivo. É positivo que Les Moonves não tenha hoje o poder que tinha apenas 15 dias atrás.

Quanto ao que eu tolero ou o que fui condicionado a tolerar, já refleti muito sobre isso, também. Ouvindo algumas das histórias que vieram à tona nos últimos 12 meses – não as histórias de violência sexual, mas alguns dos relatos de assédio sexual em geral ou de ambientes de trabalho inseguros --, reconheço que eu não tinha pensado nessas coisas nesses termos, antes. Comportamentos que vejo descritos no jornal e reajo dizendo "isso é horrível", se algo assim tivesse acontecido antes, se eu tivesse testemunhado algo assim, eu teria simplesmente olhado para o outro lado. Ou teria pensado "é só brincadeira". Não sei porque eu me permitia tolerar coisas desse tipo, e acho que não sou o único que pensa assim. Acho que há muita gente que foi obrigada a encarar de frente não apenas seus próprios atos, mas também sua cumplicidade com o sistema, a tolerância que teve em relação aos atos de outros.

Vocês decidiram que o "Me Too" era algo que vocês queriam tratar desde o início da temporada?

No ano passado a gente não sabia que isso ia acontecer. O impulso original que levou à criação desta história foi o fato de minha agência, a CAA, ter aceito Mel Gibson como cliente. Fiquei muito mal com isso. Reclamei. Achei que foi uma atitude realmente cínica. Para mim, pessoalmente, eu não assisti a algum trabalho que me deixasse disposto a perdoá-lo e eu não queria que 10% do dinheiro que ganho ficasse com uma empresa que ia ajudá-lo a dar a volta por cima. Fiquei muito indignado com isso. Foi assim que a história começou.

Então quando estávamos trabalhando a história de Vance Waggoner [um sujeito malcomportado tipo Mel Gibson], começamos a pensar: "Na realidade, em que medida BoJack é diferente disso? Será que somos hipócritas se sempre queremos que os espectadores se condoam com BoJack, ao mesmo tempo dizendo que é péssimo que nosso setor perdoa pessoas como Vance Waggoner?"

Essa dicotomia de querermos perdoar as pessoas de quem a gente gosta (e o fato de eu achar que devemos perdoar as pessoas de quem gostamos), mas de não querermos perdoar figuras públicas (e eu achar que devemos ser mais intransigentes com figuras públicas) – essa dicotomia foi o ponto de partida da temporada. E então tudo o que aconteceu no noticiário enquanto estávamos criando a temporada meio que alimentou a série. Mas não começamos a criar a temporada pensando "vamos reagir ao que está acontecendo aí fora".

Você dedica a maior parte do episódio 4 à exploração do feminismo em Hollywood para benefício financeiro e pessoal. Tanto BoJack quanto Vance Waggoner fazem isso. Eles não entendem realmente as questões feministas que estão à raiz dos problemas, mas percebem que "masculinidade tóxica" é um termo que está na moda e que pode beneficiá-los. Você próprio já ficou frustrado com o modo como Hollywood utiliza o feminismo para fortalecer sua marca?

Acho que "frustrado" talvez seja exagero. Eu diria que isso é um desafio. E não sei se existe um jeito correto de ser.

Acho que parte da responsabilidade de indivíduos privilegiados é falar publicamente sobre esses problemas, para que os marginalizados não carreguem o ônus de ter que explicar esses problemas inúmeras vezes. Mas acho que também há o perigo de a pessoa querer se mostrar como bem informada, como politizada e consciente, para se promover. É difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Para mim, como uma pessoa branca, hétero, cisgênero e sem deficiências físicas, essa é uma questão com que eu me confronto.

Então acho que a trama do episódio 4 não foi inspirada tanta em um desejo de jogar bombas e criticar outras pessoas, mas mais de uma vontade de explorar meus próprios receios. A partir de que momento isso vira uma desculpa para eu me parabenizar, dar um tapinha nas minhas próprias costas? E será que isso tem importância? Se algumas pessoas me acham um pouco babaca, será que tudo bem, desde que eu tenha atuado como megafone e divulgado essas questões e as levado ao conhecimento de outras pessoas que de outro modo talvez não pensassem sobre elas? O lado bacana da justiça social também é interessante e divertido, com certeza, e sua também é algo que exploramos no episódio. Mas, para mim, esse episódio nasceu do desejo de pesquisar o senso de desconforto, de incômodo.

É claro que BoJack não está interessado em pesquisar o sentimento de desconforto. Ele fica muito feliz de preencher essa lacuna e receber todo o crédito por isso.

A impressão que temos é que a temporada intencionalmente não deixa claro se devemos ou não perdoar BoJack por tudo que ele faz às pessoas à sua volta. O que você espera que as pessoas tirem dessa história?

Você diz "não deixa claro". Eu digo "deixa aberto à interpretação". O significado do perdão depende de como você se relaciona com BoJack. Se BoJack é seu amigo, você pode perdoá-lo. Mas isso é diferente de perdoar BoJack como figura pública. É diferente de perdoá-lo se você é vítima das ações dele. BoJack é um personagem fictício que não fez nada no mundo real, então é tudo menos delicado do que seria com algumas dessas pessoas na vida real. Mas nosso relacionamento com ele também é muito íntimo, e boa parte desta temporada trata dessa questão espinhosa. É possível gostar de uma pessoa e também reconhecer que ela fez coisas terríveis? As coisas terríveis impossibilitam você de gostar dela? Ou o fato de você gostar dela torna essas coisas terríveis sem importância?

Acho que não. Essas duas coisas precisam existir, e o desafio de conservar as duas coisas em sua cabeça é uma parte grande da história de Diane nesta temporada. Mas ela também atua como representante do público. Ao final da temporada, cabe a cada indivíduo decidir o que pensa e sente em relação a BoJack e o que quer para ele ou que venha dele.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.