POLÍTICA
04/10/2018 14:57 -03 | Atualizado 04/10/2018 14:57 -03

Marina Silva do seringal à alternativa entre antipetismo e antibolsonarismo

“Eles querem vender essa visão [de fraqueza] porque ela é mulher, negra e vem do Norte do País”, afirma Pedro Ivo, porta-voz da Rede.

Bloomberg via Getty Images
A imagem de mulher batalhadora e forte tem sido explorada pela campanha de Marina, que busca conquistar o voto dos indecisos, grupo majoritariamente feminino no eleitorado, segundo as pesquisas.

De petista a apoiadora do PSDB. Do seringal à Esplanada dos Ministérios. Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima deixou o Acre, se tornou referência na proteção do meio ambiente, fundou um partido e disputa pela terceira vez a Presidência da República. A candidata que entoa o discurso da nova política desde 2010 busca os votos justamente dos desiludidos com políticos no Brasil.

Os opostos são presentes na trajetória da fundadora da Rede Sustentabilidade. O corpo de 1,65 metro enfrentou uma hepatite, 5 malárias, uma leishmaniose e uma contaminação por metal pesado. Apesar da resistência física, a fraqueza nos posicionamentos é uma crítica frequente dos adversários.

Na avaliação de aliados, a suposta fragilidade é atribuída ao fato de ser mulher e de se opor aos extremismos. "A Marina quer fazer a política com leveza, respeito, cuidado, amor, um governo para todos brasileiros e brasileiras. Diferente de alguns outros que dizem bravatas, agridem as pessoas, têm um comportamento machista não só no sentido cultural, mas no sentido prático, na forma de encarar o processo eleitoral, a relação com as pessoas", afirmou ao HuffPost Brasil o porta-voz da Rede, Pedro Ivo.

Amigo da ambientalista desde os 25 anos, Pedro Ivo é o principal articulador político da ex-senadora. Esteve com ela no PT, PV, PSB e ajudou a fundar a Rede. Atualmente coordena as articulações políticas da campanha e foi um dos responsáveis pela aliança com o PV, que trouxe Eduardo Jorge como vice.

Divulgação/Rede Sustentabilidade
Pedro Ivo (de óculos, o lado de Eduardo Jorge) coordena as articulações políticas da campanha da Rede à Presidência.

Questionado sobre a fragilidade da candidata, Ivo lembra a história de luta de Marina. "Essa é uma visão machista, patriarcal e discriminatória. Eles querem vender essa visão porque ela é mulher, negra e vem do Norte do País. Mas quem enfrentou o que ela enfrentou na vida e está de pé até hoje, fazendo o que ela está fazendo, sabe que essa crítica não se sustenta", afirmou.

A imagem de mulher batalhadora e forte tem sido explorada pela campanha, que busca conquistar o voto dos indecisos, grupo majoritariamente feminino no eleitorado, segundo as pesquisas.

Marina Silva: Trajetória de luta e sonho

A trajetória incomum leva alguns a compará-la ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marina nasceu em 8 de fevereiro de 1958, na pequena comunidade chamada Breu Velho, no Seringal Bagaço, em Rio Branco, no Acre. Filha de nordestinos, ficou órfã da mãe aos 15 anos. Também perdeu 3 irmãos.

No seringal, o alimento de manhã era café e uma farofa de banana perriá com ovo, feita pela acreana que acordava às 4 horas. Em seguida, percorria cerca de 5 quilômetros fazendo o corte nas seringueiras com os irmãos para retirar o látex.

Na adolescência, veio o sonho de ser freira. Mais tarde, Marina se tornou evangélica. Foi a adversidade que mudou o caminho da candidata. Aos 16 anos, se mudou para Rio Branco em busca de tratamento para hepatite. Foi lá que passou a morar em um convento e deu início aos estudos. Em 10 anos, Marina passou de analfabeta para graduada em História pela Universidade Federal do Acre.

Divulgação/Rede Sustentabilidade
Marina Silva conheceu Chico Mendes no Acre, se envolveu no movimento ambientalista e participou da formação do PT na década de 1980.

No início de seu ativismo ambiental, conheceu Chico Mendes, se envolveu no movimento ambientalista e participou da formação do PT. Em 1988, ano do assassinato do ativista, Marina teve a primeira vitória nas urnas, quando foi eleita vereadora. Anos mais tarde, em 1994, chegou a Brasília como a senadora mais jovem do País, aos 35 anos.

No governo Lula, foi ministra do Meio Ambiente, de 2003 a 2008. Na pasta, medidas como o Plano de Ação para Prevenção e o Controle do Desmatamento da Amazônia Legal aumentaram sua projeção internacional. No final de 2007, o jornal britânico The Guardian incluiu a então ministra entre as 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. No mesmo ano, ela recebeu o prêmio 2007 Champions of the Earth, concedido pelas Nações Unidas.

Nova ou a velha política de Marina

A saída de Marina da Esplanada dos Ministérios em 2008 prenunciou o desligamento do PT no ano seguinte. A acreana alegou que não tinha sustentação política para avançar com a agenda ambiental. Filiou-se então ao PV e, com mais de 19 milhões de votos, ficou em terceiro lugar pela primeira vez na corrida pelo Palácio do Planalto, em 2010.

Foi nesse período que a senadora começou a pregar a "nova política". O movimento que motivou a criação da Rede buscava fundar um partido que era um anti-partido, segundo os marineiros. A ideia era promover uma estrutura horizontal, diálogo com diversos setores da sociedade e debate aprofundado de propostas.

É com essa postura que aliados acreditam que ela possa conquistar governabilidade, caso seja eleita, ainda que o perfil do Congresso não mude. "O presidente tem muito poder de convocação. A mudança começa pelo presidente. A Marina é quem tem melhores condições de governar o País, dialogando com os melhores de todos os partidos. Com os melhores da sociedade, da Academia e do empresariado. Há um sentimento no País de que velha política precisa ser superada", afirmou Pedro Ivo.

A realidade partidária mostra que as relações da ex-senadora nem sempre são tão fluidas. Dois anos após obter o registro na Justiça Eleitoral, a Rede se distanciou de suas raízes. Ex-filiados se queixam da centralização das decisões, aversão ao diálogo com movimentos considerados "satélites do PT" e retaliações a posições de esquerda e a filiados contrários ao impeachment de Dilma Rousseff. Hoje, o partido conta com apenas 2 deputados federais e corre o risco de não atingir a cláusula de barreira nas eleições de domingo.

Divulgação/Rede Sustentabilidade
Ex-filiados da Rede se queixam da centralização das decisões, aversão ao diálogo com movimentos considerados "satélites do PT" e retaliações a posições de esquerda e a filiados contrários ao impeachment de Dilma Rousseff.

Nos planos de Marina, a meta era conseguir o registro da legenda no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a tempo de disputar as eleições em 2014. A tentativa falhou e levou a ex-senadora a uma jogada pragmática. Filiou-se ao PSB e se tornou vice de Eduardo Campos.

O acidente que matou o presidenciável em agosto daquele ano tornou a ambientalista candidata ao Planalto pela segunda vez. A comoção em torno da tragédia a ajudou a crescer nas pesquisas. As projeções eram de que ela disputaria o segundo turno contra Dilma, mas a candidatura minguou com os ataques da campanha de Dilma. "Em 2014 ela foi muito atingida por notícias falsas divulgadas na internet", lembrou o deputado federal Miro Teixeira (Rede-RJ).

Para Pedro Ivo, essa foi a principal lição nas últimas disputas eleitorais. "A gente está muito melhor preparado quanto a esse ponto de ataques que aconteceu muito na eleição passada. Não só ela, como toda a campanha", afirmou.

Apesar de a candidata ter caído nas pesquisas, o articulador político acredita que chegar ao segundo turno é possível. A busca é pelo voto dos desiludidos com a política. "Tem muita gente querendo mudança verdadeira. E muitas dessas pessoas não querem votar. Esse é nosso maior desafio. Chegar a essas pessoas e dizer que sem elas participarem, a tendência é ficar na polarização. É dramática essa situação", afirmou.

No 11º mandato como deputado federal, Miro Teixeira avalia que o cenário ainda pode mudar até 7 de outubro.

"Campanhas têm momentos de oscilações. Essa campanha é muito gelatinosa. Tem o Lula preso, o [Jair] Bolsonaro atacado no leito de hospital, então você tem muitos fatores emocionais movendo as pessoas. Esses fatores são naturais e todos sentimentos vão cedendo lugar até as eleições à racionalidade do voto", afirmou ao HuffPost Brasil.