POLÍTICA
04/10/2018 21:33 -03 | Atualizado 04/10/2018 21:33 -03

Cabo Daciolo: O candidato que 'prefere viver a loucura de Deus à sabedoria do homem'

"Ele propôs uma coisa que nem a bancada evangélica teve coragem", conta ex-presidente do PSol, partido que expulsou o bombeiro de seus quadros.

LightRocket via Getty Images
Cabo Daciolo é um homem de palavras, as mesmas, que enaltecem Deus.

Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos é um homem das palavras — ou que, pelo menos, é capaz de formar uma boa quantidade de frases com as variações de "glória", "Deus", "nação" e "Satanás" para iniciar cada um de seus discursos. "Eu não sou um político. Eu sou um servo de Deus vivo na política. Prefiro viver a loucura de Deus do que essa sabedoria do homem", defende em um de seus vídeos publicados nas redes sociais.

O candidato à Presidência pelo Patriota é deputado federal desde 2015 e a sua atividade legislativa, até então, concentra-se em dois tipos de projetos: aqueles que envolvem a defesa dos militares e outros que pretendem transformar o Brasil em uma teocracia.

"Mensageiro de Deus", ele quer expulsar os "demônios" que rodeiam o Congresso: "Satanás, tu perdeste esta batalha. Saia do Congresso Nacional e saia da nação brasileira, em nome do Senhor Jesus Cristo", vocifera do alto da tribuna da Câmara dos Deputados. Para ele, o Brasil vive uma guerra espiritual.

Mas nem sempre a performance de Daciolo foi essa. Antes mesmo de começar sua trajetória na política partidária, ele teve uma breve mas intensa militância na sua categoria — de bombeiro militar.

Paulo Whitaker / Reuters
Nos debates na TV de que participou, Cabo Daciolo costuma levar a Bíblia.

A liderança grevista de Daciolo na praia de Copacabana

Era uma manhã de abril, em 2011, quando Cabo Daciolo e um grupo de mais de 130 policiais militares, bombeiros e salva-vidas não fardados do Rio de Janeiro tomaram uma faixa das areias de Copacabana para protestar. O objetivo dos manifestantes era ser recebido pelo então governador Sérgio Cabral para discutir aumento salarial e melhores condições de trabalho para as categorias no estado.

Em meio aos manifestantes, que se dividiam entre a panfletagem e a abordagem da população em busca de apoio, o bombeiro Benevenuto Daciolo, em tom conciliador, explicava que o protesto era estritamente uma forma de pressionar o governador e que não tinha nada contra os comandantes das unidades.

"E mais: não estamos contra a população; pelo contrário, nossa missão é salvar vidas e precisamos do apoio da coletividade", defendeu o bombeiro em entrevista ao jornal O Globo à época.

Nos dias seguintes, o grupo caminhou em direção ao Palácio Guanabara, e nada de ser recebido pelo governador do Rio. Eles fizeram uma tentativa de aquartelamento em suas próprias unidades e acamparam em frente aos grupamentos marítimos como tentativa de negociar com Cabral... Nada feito.

Em maio, o grupo grevista montou um acampamento na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e Daciolo passou a ser porta-voz reconhecido do movimento em meio aos deputados estaduais.

Com o silêncio do governo, em 3 de junho de 2011, cerca de 2 mil bombeiros invadiram o Quartel Central do Corpo de Bombeiros, no centro da capital, acompanhados de mulheres e crianças. No dia seguinte, policiais militares usaram bombas de gás para expulsá-los do local. Àquela altura, Daciolo já estava nas manchetes cariocas.

"Nós temos essa casa [quartel] como nosso lar. E enxergamos o comandante-geral como nosso pai. Mas nós temos que pagar aluguel, compras, remédios. Aqui tem mulheres, homens de bem e famílias inteiras. Por favor, coronel, não permita que o mal aconteça", argumentava o cabo, em defesa do movimento.

Após a tomada do quartel, mais de 400 bombeiros foram detidos, entre eles Daciolo. Após 10 dias da prisão, os bombeiros receberam habeas corpus da Justiça e, como resposta à greve, o governador antecipou o reajuste salarial para a classe.

Reprodução/Facebook
Cabo Daciolo gosta de se recolher aos montes para ter momentos de reflexão consigo e com Deus.

A aproximação política de Daciolo do Psol

Se para os bombeiros o movimento grevista terminou com saldo positivo, para Daciolo aquele movimento foi ainda maior, uma virada de página. O cabo assumiu o papel de liderança carismática e corajosa ao enfrentar o governador Sérgio Cabral e passou a chamar atenção dos partidos políticos do Rio

Em 2013, ele foi abordado pelo PSTU e chegou a posar ao lado de Cyro Garcia, presidente da sigla no Rio, segurando uma biografia de Karl Marx durante evento.

Um ano mais tarde, nas eleições de 2014, Cabo Daciolo disputou uma vaga para deputado federal pelo PSol e surpreendeu o próprio partido ao ser eleito com quase 50 mil votos, ao lado dos outros dois parlamentares Chico Alencar e Jean Wyllys.

"Ele era uma liderança emergente e tinha características que cabiam perfeitamente no PSol na época", contou ao HuffPost Brasil Luiz Araujo, que era presidente nacional do partido naquele ano.

Porém, o que ninguém imaginava àquela altura era que o então deputado do partido, defensor do Estado laico, receberia "um chamado divino" em meio ao seu mandato.

"Os aspectos messiânicos que são tão evidentes hoje não eram fortes naquela época. O fato de ele ser uma pessoa religiosa nunca foi um empecilho para ele estar no partido porque aceitamos pessoas de diversas religiões. Agora, o que aconteceu com o Daciolo é até difícil de explicar, porque essa parcela messiânica do seu discurso foi tirando ele cada vez mais da realidade", conta o psolista.

Durou pouco o flerte de Cabo Daciolo com o Psol. Quando ainda fazia parte formalmente da sigla, ele não escondia a sua tietagem ao também deputado Jair Bolsonaro (PSL) na Câmara e chegou a defender projetos de intervenção militar para o País. O deputado foi expulso do partido em 2015. De acordo com Araujo, a desfiliação do cabo teve dois principais motivos: um político e outro ideológico.

O primeiro está relacionado ao caso do pedreiro Amarildo de Souza, torturado e morto em 2013. Contrariando a sigla, Daciolo fez defesa dos policiais envolvidos na investigação do crime.

"Nada contra você ser favorável ao direto de defesa, mas o partido estava exigindo a apuração do caso e defender os policiais era como se já se decretasse a inocência deles. Foi puro corporativismo do Daciolo. Isso ia na contramão do esforço que o partido estava fazendo para punir os responsáveis, além de toda a campanha para que não ficasse impune mais um crime na favela", explica Luiz Araujo.

Porém, para o ex-presidente do PSol, a gota d'água foi a proposta de um projeto de lei para alterar o parágrafo 1º da Constituição Federal, que diz que "todo poder emana do povo". Daciolo queria substituir o "povo" por "Deus".

"Ele propôs uma coisa que nem a bancada evangélica teve coragem. Nós tentamos convencê-lo a retirar a emenda, e aí que ficou claro pra mim que estava acontecendo algum fenômeno de difícil explicação. Ele dizia que era Deus que estava mandando ele cumprir essa tarefa. Então, ficava difícil para o partido competir com Deus nos argumentos", conta Araujo.

Divulgação/Facebook
Cabo Daciolo lê versículos da Bíblia na tribuna da Câmara.

Fiel só se for de carteirinha

Apesar do discurso do PSol, Cristiane Daciolo, esposa do cabo, afirma que o marido sempre foi um devoto fervoroso. "No próprio Corpo de Bombeiros, ele andava com Bíblia nas mãos", contou em entrevista à Folha.

O presidenciável diz ter encontrado na fé evangélica um "caminho" em oposição à vida de "mulherengo" e de "beber demais" que ele tinha, mas foi após um "milagre" que o curou de um problema no estômago há 14 anos que ele realmente passou a confiar no poder da religião.

"Ele é uma pessoa boa e mantém uma boa relação com o PSol. É educado e nos cumprimenta quando nos vemos. Não acho que queira ganhar dinheiro com a igreja, como muitas pessoas fazem hoje em dia. Mas ele defende em seu discurso que fala diretamente com Deus e isso, para mim, já beira ao delírio", conta Luiz Araujo.

E, assim como o "milagre" que o salvou, no Congresso, em um de seus momentos mais polêmicos, o parlamentar, com Bíblia em mão, prometeu expulsar os demônios do Planalto e até "curar" a deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), que é tetraplégica há mais de 20 anos.

A filiação ao Patriota e a corrida à Presidência

O que para uns beira à loucura, para outros, é um passaporte para o sucesso. Preterido por Jair Bolsonaro, o Patriota — o antigo PEN (Partido Ecológico Nacional) — viu no cabo uma oportunidade para a sigla durante a corrida eleitoral.

"Ele [Bolsonaro] não está aqui, mas Deus mandou um semelhante agora com muito mais condições de ganhar a Presidência da República, um homem equilibrado, que não fala besteira, que também é militar", declarou Adilson Barroso, presidente do partido, durante evento de lançamento da candidatura.

Cabo Daciolo agrega de 1% a 2% das intenções de votos — antes do 1º debate eleitoral na Band, em 9 de agosto, ele sequer aparecia nas pesquisas. Como figurão da política, ele se tornou nome conhecido (e motivo de memes) após questionar o também candidato Ciro Gomes (PDT) sobre teorias conspiratórias em rede nacional.

Foi durante a aparição na televisão que o Cabo Daciolo ofereceu mais uma performance de sua oratória inflamada e fez que Bolsonaro até soasse moderado em seu discurso. Mas Daciolo nega que seja uma cópia do outro militar.

"Para o Bolsonaro, bandido bom é bandido morto. Para mim, bandido bom é bandido lavado e remido no sangue do Senhor Jesus. Glória a Deus!", define-se.

Enquanto não chega a Alvorada, Daciolo encontra em outros picos o seu "refúgio". O candidato decidiu jejuar e orar em cima de um monte, pois acreditava que corria perigo de vida por ter denunciado os "planos da nova ordem mundial, IIluminatti e Maçonaria".

Até o final do primeiro turno das eleições, Daciolo ficará nos retiros por, pelo menos, 25 dos 52 dias de campanha eleitoral. Cristiane, a esposa, e Neuza Daciolo acompanham o cabo nas aventuras: "A gente só não vai nos mais altos porque tem até que subir de rapel", conta a mãe em entrevista ao UOL.

Além do jejum e da orações, Daciolo leva mãe e esposa aos montes. A família discute sobre política por ali. Questionado sobre quem Daciolo deve apoiar em um eventual segundo turno, a esposa do cabo não hesita: "A gente não tem plano B, ele é nosso plano A".

Eu estou profetizando para a nação brasileira. Eu vou ser o próximo presidente, para honra e glória do senhor Jesus, e em primeiro turno com 51% dos votos. Você crê nisso? Sem fé, é impossível agradar a Deus.Cabo Daciolo em debate no SBT