04/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 04/10/2018 00:00 -03

Rejane Barcelos: Atriz, aderecista, camelô e poeta das ruas do Rio de Janeiro

Criada no interior do Rio, artista voltou às ruas da cidade para, com rima e poesia, combater o preconceito e o racismo. “O jeito de mudar o preconceito é o pé na porta”.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Rejane Barcelos é a 211ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto especial do HuffPost Brasil.

Filha de um pai que valorizava a cultura, Rejane Barcelos, 30, estudou violino, piano, pintura, flauta e balé quando criança. Deste último, aliás, o pai não abria mão, mas a menina sentia que "aquele lugar não era para ela": "Eu gorda, preta. Desde que me entendo por gente lembro de estar fazendo balé, mas nunca tive destaque." Um dia, a aula foi próxima a uma sala de teatro, e não deu outra: ela se apaixonou pelo vaivém do local e decidiu que ali era seu lugar. Ao contrário do que a história do pai mostrava, ela enfrentou muita resistência por parte dele: teatro era "coisa de puta". Mas isso não a impediu. Subiu aos palcos, fez aulas, atuou e ali também começou a ler peças, principalmente de Nelson Rodrigues, contos, crônicas e devorar todo tipo de literatura. Com o passar dos tempos, a atriz virou escritora, depois aderecista de escola de samba e, por fim, se descobriu poeta. Umbandista sempre, e faz questão de dizer. Hoje, concilia a poesia com a venda de pães de queijo em ônibus no Rio de Janeiro. Rejane se autodenomina camelô mesmo, sem vergonha do isopor ou da sua história.

Tem que ter estratégia, saber que você é um artista, que não é um aplauso que te faz artista.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu nunca pensei que alguém pudesse se interessar em alguma coisa que eu escrevesse. Ler, se identificar se tocar."

Mas, claro, enfrentar o preconceito que existe nas grandes cidades com comerciantes informais não é fácil. Rejane destaca que todo o preconceito que sofre está diretamente relacionado à cor de sua pele preta e ao seu CEP, que leva para dentro da Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, uma das maiores aglomerações de favelas do Rio.

"Nem sempre dá para ir em casa, me arrumar, tomar um banho e deixar a mercadoria, então eu vou trabalhando. São meus dois trabalhos, é como se eu tivesse chegando com qualquer outro material de divulgação. Ser camelô é meu material de divulgação também. Geralmente me barram, indicam a entrada dos fundos ou a área de serviço, dizem que não posso vender meu material ali. É todo um rolê que se eu fosse branca e chegasse no Uber, eu não passaria", acredita.

Não é como se a poeta não conhecesse os preconceitos, ou tivesse passado por eles ao longo da vida. A falta de destaque no balé, a dificuldade em conseguir a primeira bolsa de teatro numa escola destinada aos "bem nascidos" e a falta de oportunidades já foram provas suficientes. Mas quando saiu da pequena Itaperuna, cerca de 300km da capital fluminense, teve de lidar com toda a sorte de problemas. A saída, aliás, foi uma das várias tentativas que fez de conseguir se estabilizar financeiramente: "Fiz um propósito com meus orixás: vou colocar chaves em várias portas, a porta que se abrir é a que eu vou entrar."

Abriu. Dias depois, recebeu a resposta que tinha sido aprovada em um curso de cenografia na Mangueira. Nascida no Rio mas criada em Itaperuna, ela voltaria à capital para tentar com que a vida desse certo. De Itaperuna, saiu de carona e já no Rio dormiu no banco de uma praça por três dias. Por acaso ou intervenção dos orixás, Rejane encontrou um amigo de infância, que a deu abrigo até que ela arrumasse um emprego. Conseguiu, e por sete meses, tempo do curso, trabalhou como doméstica - o que chama-se "casa de família".

Eu nunca pensei que alguém pudesse se interessar em alguma coisa que eu escrevesse.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Rejane viu que, além de atriz, poderia ser também uma poeta para o mundo.

"Meu emprego era na Barra da Tijuca, e a patroa era muito carrasca. Eu acordava 3h da manhã para deixar o café dela pronto e 3h45 estar a caminho do centro da cidade. Depois ainda pegava um trem até o curso, que começava às 7h. E isso eram três vezes por semana. Depois do curso, saí dessa casa porque era um trabalho escravo. Na hora você não tem consciência que precisa se impor, você não entende que pode falar não", analisa.

No primeiro emprego na Cidade Maravilhosa, Rejane não tinha folga ou hora para dormir. Teve de segurar as pontas para ter um lar no período do curso, mas depois pediu demissão. Àquela altura já descobrira que o curso de cenografia, na verdade, não tinha foco em teatro, mas em fantasias e adereços carnavalescos. Não fez mal: desde aquela época, cerca de 7 anos atrás, até hoje, Rejane é parte responsável por finalizar e embelezar a festa que anualmente colore a Marquês de Sapucaí. Mas este foi só o primeiro contato dela com a cultura da capital fluminense.

Saiu da casa da Barra da Tijuca e aportou em uma casa em Rocha Miranda, na zona norte, ainda como doméstica, mas agora lhe era permitido ter mais liberdade (ou, apenas, direitos). Foi assim que ela redescobriu a rima, nas rodas que tomam as calçadas de bairros da cidade. Até que foi a um evento em que a atriz Elisa Lucinda estava declamando. Ali, Rejane viu que, além de atriz, poderia ser também uma poeta para o mundo. A partir daquele momento, ela tomaria coragem de expor seus escritos para o mundo e assumiria sua identidade mais forte: poeta, sim. Hoje ela faz parte do coletivo Slam das Minas RJ, que faz apresentações em todo o Rio de Janeiro.

Eu sinto falta de ver mais poesias diferentes: de gordo, LGBT, sapatão, de vivências de terceira idade, pessoas com deficiência.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela não abre mão de estar sempre com seu isopor - e também um livro.

"O caderno sempre foi o que me ouvia, onde fazia desabafos. Eu nunca pensei que alguém pudesse se interessar em alguma coisa que eu escrevesse. Ler, se identificar se tocar. Eu acho meio estranho, ainda não sei lidar muito bem. Mas é legal, quanto mais reconhecimento, mais me motiva. A poesia é uma flecha lançada, que tem um público-alvo, e quando eu consigo alcançar esse público-alvo (que são geralmente pessoas do meu entorno: moradores de rua, garotas de programa, pessoas negras) é missão cumprida", afirma a escritora.

Escrever para esse público e ser reconhecida, acredita Rejane, tem uma função também social: abrir caminhos. "O jeito de mudar o preconceito é o pé na porta: não se oprimir de chegar numa galeria da Vieira Souto [em Ipanema] com meu isopor, meu painel. Seja lá com o que eu tiver, a pessoa tem que me receber. Eu estou ali pra isso", afirma.

Se a cultura marginal está conseguindo furar o bloqueio? Com certeza. "A galera já está de saco cheio da coisa aburguesada, oligárquica, não está conseguindo engolir mais esse discurso. Então estão se identificando com alguém que tem coragem de falar aquilo que não têm, por diferentes motivos. Eu falo de racismo, machismo, corpo, dos tempos áureos de África, de periferia, que favela não é só tiro. Eu apresento uma nova realidade, e também falo aquilo que elas talvez não saibam como expressar. Por isso acabam se identificando."

Eu acho que eles querem pegar pessoas como se fosse a galera da cota: uns pretos aqui, uns favelados ali e dizer que está democratizando.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No primeiro emprego na Cidade Maravilhosa, Rejane não tinha folga ou hora para dormir.

A poeta recusa o status de referência para os que chegam, ela prefere ser exemplo. Referência, ela diz, pode facilmente ser confundida com meritocracia, "que é um discurso falacioso". Mãe de dois meninos, de 11 e nove anos, o entendimento de que o sistema pode ser vencido é passado também a eles.

"O que eu passei não foi escolha, foi consequência de um sistema falho. Eu não teria precisado passar por metade do que eu passei se a gente vivesse num ambiente em que as pessoas fossem mais esclarecidas, onde o governo fizesse seu papel de forma mais eficiente. São coisas que eu não escolhi, foram falhas do sistema que eu tive de lidar para não morrer, não é uma coisa que eu teria que ter passado. O legado não é ser referência, mas ser um exemplo para as pessoas verem que é difícil mas é possível, que as pessoas não se oprimam por esse sistema", conta.

Rejane conta que esse sistema é aquele que rechaça a cultura marginal, mas quando bem entende a embala novamente e dá cara nova para aquilo que negros e pobres fazem a vida inteira, sem importar-se realmente com aqueles que ainda continuam nas favelas e periferias.

"Eu vejo muito o discurso de democratização da cultura, mas eles não querem democratizar a cultura, dar incentivo. Eu acho que eles querem pegar pessoas como se fosse a galera da cota: uns pretos aqui, uns favelados ali e dizer que está democratizando. O que adianta eu estar aqui me apresentando, conhecendo centros culturais e museus, se onde eu moro não tem nem uma banca de jornal, se a galera de onde eu moro não sabe o que é belas artes? E poucas pessoas se propõem a ir lá e apresentar. Depois, quando veem a resistência em manter outros tipos de cultura, como pagode, funk, passinho, dizem que é marginalização. Mas não é. A questão é: quem entra na favela para ensinar violino? Poesia? Literatura?", analisa.

Não é exótico, nem fácil. Um conselho para os poetas mais jovens? Pé no chão, além da porta.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Com o sonho de cursar uma faculdade de Artes Cênicas, Filosofia ou História, a artista também quer voltar aos palcos.

É por isso, também, que ela não abre mão de estar sempre com seu isopor - e também um livro. Repete várias vezes que não larga seu material de trabalho, como um fiel escudeiro, como quem diz que não precisa se "gourmetizar" para ser aceita: "Eu quero que todo mundo me veja com isopor, veja que eu sou camelô e naturalize isso. As pessoas não podem achar que é exótico só por eu estar fazendo meu trabalho e a poesia".

"É saber que precisamos galgar espaços concretos. A gente sai da total invisibilidade e vai direto para o glamour, para um lugar onde você é super aplaudido, com microfone, que dá sensação de poder, uma coisa que é o máximo. Mas depois vai todo mundo para seus condomínios fechados, carros quitados e vida estabilizada. E aquele jovem tem que sentar, olhar e decidir qual ônibus ele vai dar calote para poder ir para casa. É uma coisa muito dura", opina Rejane. E completa: "Tem que ter estratégia, saber que você é um artista, que não é um aplauso que te faz artista".

A galera já está de saco cheio da coisa aburguesada, oligárquica, não está conseguindo engolir mais esse discurso.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

Com o sonho de cursar uma faculdade de Artes Cênicas, Filosofia ou História, a artista também quer voltar aos palcos - "sinto falta" - mas principalmente, quer ver mais poesia diversa nas ruas e nas galerias da cidade.

"Eu sinto falta de ver mais poesias diferentes: de gordo, LGBT, sapatão, de vivências de terceira idade, pessoas com deficiência. Eu quero ver mais poesia assim, com essas vozes ecoando e reverberando também. E o slam está aí pra isso, para tirar essas pessoas da invisibilidade. Sempre que eu conheço alguém que escreve, incentivo: "vai e fala!", porque é isso que a gente precisa, que a voz dessas pessoas sejam ouvidas, porque elas não são", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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