POLÍTICA
03/10/2018 16:31 -03 | Atualizado 03/10/2018 16:33 -03

Geraldo Alckmin: O picolé de chuchu com ‘força, foco e fé’

Como a religiosidade, a disciplina e determinação levaram o tucano à 2ª disputa pela Presidência.

Adriano Machado / Reuters
Geraldo Alckmin é médico, ex-governador de São Paulo e responsável por representar o PSDB na corrida presidencial.

"O Geraldo é muito disciplinado." O excesso de "rigor" às regras só esbarra em 2 pontos: Alckmin, candidato do PSDB à Presidência da República pela segunda vez, come mal e bebe muito café. A saúde dele só pode ser de ferro, diz Silvio Torres, tesoureiro da campanha do tucano. Rompido com Alckmin, o também tucano Arthur Virgílio diz que de ferro também é a postura intransigente do ex-governador de São Paulo. E volta-se novamente à questão da disciplina, que, no caso de Alckmin, muitas vezes é confundida com determinação.

Foi esse foco nas decisões que levou Alckmin à segunda disputa presidencial pelo PSDB. Estratégico, ele escolheu quais brigas comprar e de quais se esconder. Talvez seja mais pelas que ele escolheu correr que tenha chegado aonde está. E está aí uma característica forte do candidato. Médico, o ex-governador usa com naturalidade a timidez interiorana de quem nasceu em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.

"Alckmin se recusa a me enfrentar, como é que vai enfrentar o pessoal lá de fora", disse Arthur Virgílio, em fevereiro deste ano ao HuffPost Brasil. O prefeito de Manaus conta que, no auge do empenho em disputar as prévias no partido, combinou um encontro do Alckmin. O ex-governador de São Paulo deixou o correligionário horas esperando sem dar uma justificativa e, por fim, a reunião foi cancelada.

Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu

Essa fuga do embate, que em muitos momentos já trouxe resultados positivos e evitou desgastes, também tem reflexos negativos. A dificuldade em partir para o ataque e tomar um lado firme refletida no seu jeito de agir rendeu o apelido de picolé de chuchu. "Alckmin deveria soltar a franga", já decretou a preparadora de candidatos Olga Curado.

A consultora de imagem que já trabalhou para políticos como Dilma Rousseff e Aécio Neves fez uma análise fria do que ela enxerga no tucano:

"O Alckmin não abre a boca, fala travado, não passa entusiasmo. Não tem gestos amplos, não abraça. Ele é tenso e passa imagem de que não confia em ninguém e está sempre na retranca. Isso está no rosto dele, na maneira de se vestir e de pentear o cabelo. O Alckmin tem de soltar a franga: rir mais, mudar as roupas, se aproximar das pessoas. Ele é mais picolé do que chuchu", disse a consulta de imagem à Época.

Paulo Whitaker / Reuters
Alckmin é tenso e passa imagem de que não confia em ninguém e está sempre na retranca, diz Olga Curado.

Em junho deste ano, Pérsio Arida, guru econômico de Alckmin foi emparedado por causa do legume insosso. "Suas ideias têm sabor de picolé de morango e seu candidato, de chuchu", ouviu de uma plateia simpática ao ideário liberal, na Casa do Saber, em São Paulo.

Só restou a Arida sair em defesa do candidato. Disse que escolheu Alckmin pela honestidade:

"As ideias são corretas, tem experiência com negociação política. Ele sabe lidar com o Congresso, tem 30 anos de partido, de coalizão. É uma pessoa honesta. Acusação tem contra todos, de qualquer lado, tem história do cunhado... Mas você vê que o sujeito é honesto na vida dele. O sujeito que é honesto tem um padrão de vida compatível com o de quem é honesto, que é 'exatamente o caso dele", replicou o economista na ocasião.

Força, foco e fé de Geraldo

Aliado a todo o rigor do candidato está a fé. Alckmin é daquelas pessoas que sempre que vão iniciar uma conversa ou persuadir o interlocutor contam uma história. Dessa vez, a história que contam é sobre ele. Diz que dois dias antes de o pai dele falecer, entregou ao filho os dez mandamentos, os quais Alckmin guarda na carteira até hoje.

Quem sabe da história diz que Alckmin costuma afirmar que aqueles são seus princípios de vida. Junto com os dez mandamentos está o santinho do filho mais novo, Thomaz, que faleceu em 2015. Alckmin tem dois filhos e é casado com a dona Lu.

O relato é feito por um dos apoiadores do tucano, que afirma ter participado por três anos de um grupo de formação religiosa na casa do ex-governador. Essa imagem de homem de classe média, pai de família, conservador, transmitida a quem convive com ele, é a que convenceu os paulistanos nos 12 anos aos quais esteve à frente do estado.

A avaliação é ratificada pelo sociólogo Antonio Lavareda, que após vitória de Alckmin ao governo do estado em 2014, segundo relato da revista piauí, disparou: "A sua eleição ocorreu mais pela aprovação à sua imagem do que pela sua gestão".

VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
Alckmin foi candidato à Presidência em 2006. Na ocasião, votou acompanhado de uma neta e da esposa, dona Lu.

Aos 65 anos, o tucano aposta no que construiu na política para disputar a corrida presidencial. Apesar do feito raro em 2006, no qual teve menos votos no segundo turno do que teve no primeiro, ele mantém o discurso de esperança.

E se não levar essa, como as pesquisas mostram, já sabe o que vai fazer: "Acabando a eleição volto... Se não for eleito, volto pra medicina e volto a dar aula", disse em 6 de setembro.

Doutor Geraldo já pode preparar o estetoscópio.