COMIDA
02/10/2018 10:15 -03 | Atualizado 02/10/2018 11:01 -03

Rótulos de produtos sem glúten não são tão precisos quanto você imagina

“As empresas estão cometendo erros simplesmente porque não fizeram a lição de casa para se educar.”

Mykola Sosiukin via Getty Images

Dá para confiar no rótulo dos produtos sem glúten? Muitas vezes, não.

Um número surpreendente de alimentos – de biscoitos a saladas e molhos – são classificados como "sem glúten", mas na realidade contêm ingredientes não-autorizados para produtos que recebem essa classificação, de acordo com as regras da FDA, agência do governo americano que regulamenta alimentos e remédios. É o que afirma a nutricionista Tricia Thompson, fundadora da entidade Gluten Free Watchdog.

Thompson identificou, por exemplo, produtos supostamente sem glúten que contêm malte de cevada (grão que contém glúten), molhos à base de shoyu e biscoitos com espelta (uma espécie de trigo).

"Há muita confusão", disse Thompson ao HuffPost. "A loja que vende [aquele] biscoito respondeu inicialmente, e erroneamente, que a espelta é um grão, mas não um tipo de trigo." (No final das contas, o biscoito não continha espelta e o rótulo é que estava errado, o que é um outro problema.)

Rótulos errados são um problema tão recorrente que, em agosto do ano passado, a Gluten Free Watchdog entrou com uma petição cidadã. O documento pede que a agência reguladora crie uma maneira para que os consumidores possam reportar diretamente, pela internet, os rótulos enganosos. Ela também pede que a FDA envie avisos aos fabricantes de produtos que estejam em desacordo com as regras. Nos últimos dois anos, a Gluten Free Watchdog diz ter apontado mais de 30 produtos com rótulos incorretos e em violação das regras da FDA.

"Às vezes parece que estou falando com as paredes", disse Thompson, que tinha ficado no telefone com uma empresa até às 21h da noite anterior. "Estou exausta de falar com tantas empresas, tentando educá-las."

Considere o caso do cuscuz, feito de sêmola de trigo duro. A CedarLane Foods, fundada em 1981 por Robert Atalla, tem uma linha de produtos populares sem glúten, encontrada em supermercados americanos. Sua linha de saladas orgânicas inclui uma salada supostamente sem glúten e que contém cuscuz, verduras, grão-de-bico e molho à base de limão.

"Troquei e-mails e conversei com a empresa quatro ou cinco vezes no final de agosto", disse Thompson. "Inicialmente, eles me informaram por e-mail que a lista de ingredientes era confidencial. Em nossa última conversa por telefone, eles confirmaram que, de fato, o cuscuz é feito de trigo." Apesar de a empresa ter prometido entrar em contato com a FDA e fazer um recall nacional, Thompson disse não ter recebido confirmação. A CedarLane Foods não respondeu aos pedidos de entrevista do HuffPost.

Esse tipo de informação incorreta pode ter consequências sérias para os 3 milhões de pessoas nos Estados Unidos que sofrem de doença celíaca – uma doença autoimune relacionada ao consumo de glúten, proteína encontrada no trigo, no centeio e na cevada. A única cura é uma dieta sem glúten. Outros 18 milhões de americanos podem ter sensibilidade ao glúten, uma condição menos séria que pode causar de sensação de inchaço a náusea, confusão mental e dores nas articulações.

O mercado global de produtos sem glúten chegou a quase 15 bilhões de dólares em 2016, e segue crescendo. Em 2013, a FDA apresentou uma série de regras para definir alimentos "sem glúten". As empresas tiveram um ano para se adequar.

Dietas sem glúten são tão populares hoje em dia, diz o gastroenterologista pediátrico Alessio Fasano, do Massachusetts General Hospital, "que elas viraram uma oportunidade de negócios única. Acredito que as empresas estão cometendo erros simplesmente porque não fizeram a lição de casa para se educar".

Fasano está particularmente preocupado porque estudos mostram que até 40% das pessoas que sofrem de doença celíaca podem ser expostas ao glúten inadvertidamente, em geral por contaminação de outros produtos. "A dieta sem glúten não é a panaceia que imaginávamos", disse ele. "Muita gente que faz esse tipo de dieta ainda tem inflamação intestinal."

O molho de soja Chef Myron, por exemplo, contém água, soja, trigo e sal. "As palavras usadas nos galões da empresa, que são usados por restaurantes, afirmam que o trigo foi processado para que o produto esteja de acordo com as exigências da FDA em relação a alimentos sem glúten", afirmou Thompson.

De fato, segundo um comunicado da Chef Myron, o processo de fermentação quebra as moléculas de glúten para que "os resíduos remanescentes sejam menos de dez partes por milhão". A vendedora da Chef Myron Alyssa Baleno confirmou essa informação ao HuffPost.

Mas Thompson afirmou que a FDA não permite que molhos de soja à base de trigo recebam o rótulo de produto sem glúten. Ponto.

"Para chamar seus produtos de sem glúten os fabricantes de molho de soja têm de se certificar que todos os ingredientes estejam de acordo com a definição de 'sem glúten' antes da fermentação", disse Thompson – essa foi o esclarecimento prestado para ela pela FDA em 2017. Ela afirma que testes de alimentos fermentados ou hidrolisados são menos confiáveis do que os realizados com produtos que mantêm o glúten intacto.

Também são preocupantes as afirmações de empresas que produzem pão de massa lêveda segundo as quais o glúten foi "neutralizado" num processo de hidrólise.

Um estudo de 2011 acompanhou seis pacientes com doença celíaca durante 60 dias e descobriu que aqueles que comeram alimentos produzidos com farinha de trigo hidrolisada por lactobacilos de massa lêveda e enzimas fúngicas não apresentavam sintomas ou inflamação intestinal. Para fazer o pão, entretanto, a farinha tinha de ser "suplementada com agentes estruturantes sem glúten".

Mas esse não é o caso desse tipo de pão produzido em escada industrial, disse Thompson, que testou três marcas. Para receber o selo sem glúten, o alimento tem de ter menos de 20 partes por milhão. Os pães testados por Thompson tinham até 100.000 partes por milhão.

A boa notícia, disse Thompson, é que a FDA respondeu aos seus e-mails, afirmando levar os rótulos muito a sério e mostrando disposição em marcar uma reunião com ela.

"A FDA jamais aprovaria um substituto de insulina que representasse um perigo intrínseco para os diabéticos", disse Fasano. "Uma dieta sem glúten é para os celíacos o que a insulina é para os diabéticos. A FDA tem de abordar essa questão com o mesmo rigor."

Um representante da FDA enviou um comunicado ao HuffPost sobre a questão:

"No ano passado, a FDA divulgou uma análise de amostras de produtos rotulados 'sem glúten' que indicou que 99,5% deles estavam de acordo com as exigências de menos de 20 ppm de glúten. O resultado indica que provavelmente haja um índice de adequação com os requerimentos da FDA em relação a produtos sem glúten. A Fundação da Doença Celíaca continua recomendando que as pessoas que sofrem da doença chequem a lista de ingredientes. Ingredientes que contêm glúten incluem trigo, cevada, centeio, malte e levedura de cerveja."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.