POLÍTICA
03/10/2018 01:05 -03 | Atualizado 03/10/2018 01:05 -03

Fernando Haddad, o mais tucano dos petistas que pode ser o próximo presidente do Brasil

“Haddad conseguiu unificar o partido. Não só a partir do posicionamento do presidente Lula, mas também por conta da sua atitude leal", afirma petista histórico.

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Atuação como ministro da Educação levou Haddad a disputar e vencer eleições para prefeito de São Paulo em 2012.

Nordestino, metalúrgico e sindicalista que chegou à Presidência da República sem Ensino Superior. Seu sucessor? Um paulistano doutor em filosofia. Fernando Haddad é um dos "milhões de Lulas", na narrativa construída pelo PT para substituir a candidatura presidencial. O acadêmico atraiu a atenção daquele que é considerado a maior liderança política no Brasil há 13 anos, mas o caminho até o posto de substituto foi construído a partir de 2016, após perder a reeleição na capital paulista.

"Desde que foi prefeito e posteriormente nesse período pós-impeachment, ele tem demonstrado uma grande atenção às questões partidárias, à luta do presidente Lula pela sua candidatura e por isso foi um dos nomes cotados e acabou sendo o indicado para disputar a Presidência", afirmou ao HuffPost Brasil um dos coordenadores da campanha presidencial do PT, Ricardo Berzoini.

De acordo com o ex-ministro nos governos petistas e ex-presidente da legenda, Haddad esteve no centro das articulações políticas do PT desde o ano passado. A movimentação foi crucial para quem iniciou a vida pública afastado da cúpula do partido ao qual se filiou em 1983, aos 20 anos.

Se no início da campanha presidencial ele era "Andrade", o vocabulário rebuscado e o perfil intelectual e desconhecido de muitos brasileiros têm perdido espaço diante da transferência de votos observada nas pesquisas.

Sua habilidade na disputa pela Prefeitura de São Paulo tem sido lembrada entre correligionários, além do fator que o sacramentou como candidato: a bênção de Lula. "Na campanha em 2012 ele demonstrou ser um grande militante. Depois veio para reeleição em condições muito desfavoráveis na conjuntura nacional e foi um guerreiro. Muita gente julgava que chegaria em 4º ou 3º lugar. Chegou em 2º lugar. Não teve 2º turno, mas conseguiu fazer uma grande campanha e agora conseguiu unificar o partido. Não só a partir do posicionamento do presidente Lula, mas também por conta da sua atitude solidária, leal, com o partido e com o próprio presidente", afirmou Berzoini.

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Mote "Haddad é Lula" consolida transferência de votos do ex-presidente para o ex-prefeito de São Paulo na corrida presidencial.

Defensor de uma unificação da esquerda nas eleições, Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-presidente do PT, compartilha da avaliação de Berzoini. "Não creio que hoje haja resistência [dentro do partido], porque o Haddad foi bancado pelo Lula, o que, nas circunstâncias atuais, é praticamente uma 'designação'. E é uma boa designação, aliás, para enfrentarmos o que temos pela frente. A mais completa e abrangente [designação]", afirmou Genro ao HuffPost.

Além da habilidade de aproximação com a cúpula petista, o professor contou também com a sorte. Outros nomes cotados para substituir Lula e considerados mais orgânicos, como o ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, não quiseram assumir a função.

Haddad, o mais tucano dos petistas

Graduado em direito, com mestrado em economia e doutorado em filosofia, Haddad coordenou a elaboração do programa de governo do PT nesta eleição, ao lado do economista Marcio Pochmann e de Renato Simões, integrante do diretório nacional da legenda.

A própria construção do documento consolidou a união entre o plano A e o plano B. "O programa é a parte que liga muito o presidente Lula à candidatura do Fernando. É de certa maneira a expressão da vontade do presidente Lula. Talvez ele [Haddad] seja o único dos 13 candidatos que foi coordenador do programa. É o diferencial", disse Pochmann ao HuffPost Brasil.

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Haddad "conseguiu unificar o partido", diz Ricardo Berzoini, coordenador da campanha e ex-presidente do PT.

Algumas propostas do documento elaborado por Haddad, entretanto, são o principal desafio de um eventual governo dele. Medidas como revogar o teto de gastos públicos, taxar os bancos para baixarem juros e não priorizar uma reforma da Previdência enfrentam resistência do mercado financeiro. E é justamente do setor empresarial que o petista tenta se aproximar para ganhar as eleições.

Pochmann minimiza as limitações. No caso da reforma da Previdência, por exemplo, o presidente da Fundação Perseu Abramo e professor da Unicamp afirma que o partido vê a questão como uma política social e não como uma medida de ajuste fiscal. "Não é que sejamos contra a modificar o que é necessário para manter a sustentabilidade do sistema [previdenciário], mas nós não tratamos como uma reforma como outros partidos colocam: como aquilo que vai definir o programa de austeridade fiscal", afirmou.

O perfil ponderado e em busca de diálogo de Haddad, que rendeu o apelido de "o mais tucano dos petistas", é a aposta do partido para reduzir a rejeição na elite política e econômica no País. Nos bastidores, correligionários afirmam que mantêm contato permanente com o empresariado e apontam movimentações como a alta do dólar diante da possibilidade de o PT voltar ao poder como "pura especulação".

Secretário do governo Haddad entre 2015 e 2016, o urbanista Nabil Bonduki, reforça a habilidade do candidato em atrair o apoio de quem prioriza o equilíbrio fiscal. "No 2º turno, é melhor candidato que o Lula, pois pode ter melhor aceitação por setores não petistas e até mesmo antipetistas. Só para usar uma figura cara aos liberais, ele sabe fazer as contas", afirmou ao HuffPost Brasil.

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Com Dilma Rousseff eleita presidente em 2010 após ser lançada por Lula, Haddad era considerado o segundo candidato "poste", alçado a uma corrida eleitoral à sombra do ex-presidente.

Haddad: De professor a ministro da Educação

Se a formação econômica foi fundamental para chegar ao ponto atual, o conhecimento da área educacional foi determinante para atrair a atenção de Lula em 2005, no meio de outra crise do partido, o mensalão.

No MEC (Ministério da Educação) desde fevereiro de 2004 como secretário-executivo do então ministro Tarso Genro, Haddad assumiu o comando em junho de 2005, quando o gaúcho se tornou presidente do PT em meio ao escândalo de corrupção.

Em conversa com Lula após o ápice da turbulência, Tarso sugeriu a permanência do professor. "Depois de convocarmos a eleição direta no PT, para renovar o diretório nacional, saí das suas instâncias internas, e o presidente me chamou e pediu (...) que reassumisse o MEC. Eu respondi que certamente ele tinha um grande ministro e que não seria bom, para seu governo, trocá-lo em função do meu retorno", afirmou Genro.

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Gestão como ministro da Educação com sucesso do Prouni foi crucial para Haddad se tornar candidato à prefeitura de São Paulo.

Na avaliação do ex-chefe de Haddad, a continuidade do paulistano no MEC, onde ficou até 2012, foi um sucesso. "Ele foi fundamental para emplacarmos o Prouni, a expansão das escolas técnicas e das universidades públicas, o Fundeb, a formação continuada de professores, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior", completou.

O Prouni (Programa Universidade para Todos) ampliou o ingresso de jovens de baixa renda no Ensino Superior privado por meio de isenções fiscais do governo federal às instituições de ensino e é um dos trunfos do governo Lula na área social. Foi no MEC também que Haddad enfrentou a primeira grande controvérsia: o vazamento das provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em 2010.

No ano seguinte, foi a vez do "kit gay", apelido dado por conservadores ao Escola sem Homofobia, projeto que não saiu do papel e tinha como objetivo debater a sexualidade no ambiente escolar, como forma de reconhecer a diversidade sexual e alertar sobre o preconceito.

O candidato 'poste'

Foram os anos na Esplanada dos Ministérios que cacifaram o professor a ganhar o apoio entre os correligionários e desbancar Marta Suplicy para se tornar candidato do PT à prefeitura de São Paulo em 2012. Com Dilma Rousseff eleita presidente em 2010 após ser lançada por Lula, Haddad era considerado o segundo candidato "poste", alçado a uma corrida eleitoral à sombra do ex-presidente.

A vitória nas urnas não se repetiu em 2016. Se ganhou a simpatia da juventude progressista pelo avanço das ciclovias e valorização do espaço público, o petista foi rechaçado pela periferia paulistana, região onde o partido tradicionalmente tinha apoio.

Na avaliação de Nabil Bonduki, urbanista coordenador do programa de desenvolvimento urbano de Haddad em 2012, restrições orçamentárias e logísticas limitaram o avanço das obras de mobilidade. "O que o governo fez foi mudar a lógica. Sem recursos para fazer corredores de ônibus, fez faixas exclusivas. Mas tudo isso é mais fácil fazer onde o sistema viário é mais generoso. Na periferia é mais difícil mudar a lógica urbana sem investimento", afirmou ao HuffPost.

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Haddad ganhou apoio da juventude progressista pelo avanço das ciclovias e valorização do espaço público, mas foi criticado pela periferia.

Secretário de Cultura da prefeitura de 2015 a 2016, Bonduki destaca que a crise econômica levou à queda na arrecadação e consequente redução de transferência de recursos do governo federal para a cidade. Ele atribui a derrota de Haddad também ao cenário nacional à época. "A rejeição ao PT estava no auge, com a desmobilização da militância, paralisada pela decepção e pelo golpe", afirmou, referindo-se ao impeachment de Dilma, aprovado pelo Congresso Nacional.

Além de não garantir a continuidade do governo petista na capital, a gestão municipal também resultou em consequências judiciais. O ex-prefeito é réu por improbidade administrativa por supostas irregularidades nas ciclovias instaladas em seu mandato. A defesa nega qualquer ato ilícito.

Dois anos após o fracasso nas urnas, resta saber se Haddad repetirá o resultado de 2016 ou irá se consolidar como herdeiro do apoio popular de Lula, mesmo com a ascensão do antipetismo.