LGBT
01/10/2018 15:03 -03 | Atualizado 31/01/2019 10:30 -02

MangHoe Lassi: A drag queen indiana que celebra o poder de expressar sua arte

"Nem todo o mundo tem a liberdade de viver seu eu autêntico, mas precisamos tentar."

HuffPost Canada

Humza Mian sempre gostou de brincar de se fantasiar.

Hoje ele, que tem 28 anos, é técnico veterinário e vive em Toronto, no Canadá. Ele é uma drag queen cuja persona online festeja tanto sua individualidade quanto sua raça. O feed de Mian no Instagram, traz imagens dele posando de sari branco ou envolto em pétalas de flores frescas, para o deleite de seus mais de 7.000 seguidores.

Como drag queen, ele atende pelo nome MangHoe Lassi; o nome é um trocadilho, uma homenagem à bebida "mango lassi", ou lássi de manga, típica do subcontinente indiano, mas incorporando a palavra "ho" (como alisão ao termo "hore", vadia, em inglês) em sua pronúncia. Seja qual for o look inspirado em Bollywood que ele esteja encarnando, sua identidade como drag queen simboliza uma ideia que para Mian é importantíssima: a importância de ser totalmente fiel a si mesmo.

Os pais de Mian não sabem que ele é gay, e ele quer que as coisas continuem assim.

O fato de ter crescido numa cultura em que sexualidade, gênero e identidade estão profundamente interligados com religião, superstição e hierarquias de casta dificultou para Mian o processo de sair do armário.

"Me diziam para não ser feminino, para fechar esse lado de mim. Mas para mim esse lado parece tão certo, tão natural", disse Mian ao HuffPost Canadá. "MangHoe representa tudo que não me deixaram mostrar ao mundo."

A experiência de sair do armário muitas vezes é uma fase precária na vida de uma pessoa, especialmente quando a pessoa faz parte de várias comunidades marginalizadas.

"Às vezes não é possível se assumir com segurança", diz Mian. "E é assim para mim. Me assumir como gay diante de meus pais é um conto de fadas, algo que todos desejamos mas que poucos chegamos a realizar de fato."

Me assumir como gay diante de meus pais é um conto de fadas, algo que todos desejamos mas que poucos chegamos a realizar de fato.

Viver duas identidades pode ser emocionalmente cansativo, mas é uma realidade com a qual Mian está se conformando aos poucos. "Não odeio meus pais", ele explica. "Mas eles simplesmente não conseguiriam entender."

Uma coisa que se perde no fascínio em forçar as pessoas a saírem do armário são as razões compreensíveis que levam pessoas LGBTQ a continuarem dentro dele: riscos à sua integridade física, insegurança financeira e falta de redes de apoio, entre outras. Uma decisão recente da Suprema Corte da Índia derrubou a proibição da homossexualidade – uma das mais antigas do mundo --, mas o fato é que ser queer ainda é um tabu social e que os gays enfrentam discriminação endêmica.

"Precisamos assistir a mais histórias que reflitam a vida real de pessoas marginalizadas", fala Mian. No ambiente de mídia mais progressista de hoje, programas como "Queer Eye" e "RuPaul's Drag Race" ganham atenção considerável, mas Mian diz que esses programas visam principalmente servir de entretenimento e, de modo geral, passam por cima das experiências de vida que as pessoas queer e não brancas anseiam por ver na televisão.

"Não existe um jeito certo ou errado de ser queer", disse Mian ao HuffPost Canadá. Para ele, é importante entender como questões de raça, classe social, gênero, deficiência, idade e falta de apoio podem complicar a percepção popular do que significa "sair do armário".

As redes sociais criaram um novo ponto de acesso ao cenário drag global, abrindo portas para drag queens que vivem isoladas em cidades pequenas, são barradas de clubes devido à sua idade ou que sejam tímidas demais para aventurar-se na selva da noite.

É no Instagram, sob muitos aspectos, que Mian vem conseguindo ter um senso de pertencimento. Ali ele exibe os tutoriais completos de MangHoe Lassi mostrando como ele se maquia e produz, além de vislumbres francos e divertidos da vida de Mian na pele de MangHoe Lassi e fora dela. À primeira vista, pode parecer que Mian e MangHoe Lassi são identidades nitidamente opostas, mas os elementos que elas têm em comum são mais fortes: a capacidade de compartilhar a luta inerente à condição de ser uma pessoa queer, canadense de origem paquistanesa.

O fato de Mian ter se permitido abraçar sua dualidade nas redes sociais também lhe angariou algumas mensagens positivas.

Humza Mian
Humza Mian

"Estou fazendo o que faço pelos jovens queers que se sentem isolados e solitários em suas comunidades", diz Mian. "Aquele clima de comunidade que sentimos nos bares está fora do alcance da moçada que me manda mensagens."

Sob a persona cuidadosamente arquitetada de Mian se oculta o mesmo garoto que ansiava por andar por aí usando o salwar kameez (roupa tradicional paquistanesa) de sua mãe. Para muitos como Mian, vestir-se de mulher significa inspirar as pessoas a compreender que as coisas nem sempre são o que aparentam ser.

"Nem todo o mundo tem a liberdade de viver seu eu autêntico", ele explica. "Mas precisamos encontrar espaços em que possamos fazer isso. Precisamos continuar a tentar."

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.

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