02/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 10/01/2019 14:42 -02

Aline Lucena, a dançarina que não cansa de estar em movimento

Ela vê a dança como libertação e um jeito de se conectar com a vida. "A respiração, por exemplo, é movimento. O movimento da vida não cessa", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Aline Lucena é a 208ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Aline Lucena, aos 28 anos, é uma questionadora nata. Seu modo de estar no mundo não se baseia em premissas, mas em experiências. A principal delas é a dança. Formada no primeiro curso de Bacharelado em Dança do Brasil, na Escola de Dança na Universidade Federal da Bahia, e Mestre em dança, ela tem sua formação humana desde sempre transpassada pela arte.

Pernambucana de nascença, começou a dançar ainda na infância, em Alagoinhas, interior da Bahia, cidade onde cresceu. Seu primeiro contato com a dança foi o balé clássico, modalidade que muito influiu em seu mosaico de referências, mas que já não faz parte de suas práticas artísticas, hoje voltadas para a dança contemporânea e improvisação. "Vivemos tempos em que a dança precisa comunicar. Eu vejo a dança como possibilidade de criação e experimentação, de fuga do óbvio", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Se movimentar é uma forma de se libertar.

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Aline começou no balé clássico, mas descobriu sua verdadeira paixão com a dança contemporânea.

Ela conta que, quando pequena, sua mãe matriculou-a no Balé Clássico porque ela sempre expressou a vontade de praticar algum tipo de dança, e essa era a modalidade oferecida na cidade onde ela vivia. "Quando minha mãe viu as meninas todas de rosa, ela pensou que eu não me adequaria ali. Eu não era uma criança exatamente tradicional", lembra.

Mesmo assim, ela fez balé clássico por dez anos, e com maestria. "O balé clássico exige um tipo de corpo determinado, que eu não tenho. Mas isso não era exatamente um problema, pelo modo como as professoras lidavam, respeitando nossos limites", conta.

Durante a graduação, entretanto, ela caiu de amores pela dança contemporânea e pela vídeo-dança – já sentindo a intersecção do audiovisual em sua carreira artística. Hoje, fugir do óbvio é sua especialidade. Ela é integrante do GrupoX de Improvisação em Dança, o mais atuante e também o mais irreverente da Escola de Dança da UFBA.

Eu vejo a dança como possibilidade de criação e experimentação, de fuga do óbvio.

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Dança, para Aline, é manter-se em conexão com o movimento da vida.

Editando os próprios vídeos, ela se aproximou ainda mais da experiência audiovisual, que sempre esteve presente na sua vida. "Quando eu era criança, eu tinha uma relação muito peculiar com a fotografia. Já rolava uma aproximação da câmera. Mas foi na videodança que descobri o audiovisual como uma possibilidade."

Aline é também uma das diretoras do filme Doc Tran Chan, que conta a história do primeiro grupo de dança contemporânea do Brasil e tem o nome do grupo no título. Ela diz que a ideia não é ganhar mérito ou a vaidade de ter dirigido um filme: o principal objetivo é dar visibilidade a outras mulheres, neste caso, pioneiras da dança contemporânea no Brasil, Leda Muhana e Betti Grebler. O documentário conta a história de vida dessas mulheres, e de como elas deram vida a tantas outras, e tem estreia prevista ainda para este ano.

Betti e Leda são duas grandes inspirações de Aline, que é outra grande inspiração pra muitas mulheres. "Acho muito importante propagar a arte de outras mulheres. Mais do que entender o que estamos fazendo agora, é importante entender o que já fizeram antes de nós. O que Betti e Leda fizeram foi imprescindível para a história da dança contemporânea no Brasil", aponta.

E é assim que se constrói uma rede entre mulheres: lembrando do passado e olhando para o futuro. Fundado por Betti e Leda, em seus 38 anos de existência, o "Tran Chan" concebeu mais de 30 produções entre espetáculos e coreografias, sendo eles apresentados em temporadas em teatros e festivais de Dança e Arte nos principais estados brasileiros e países como Estados Unidos, Colômbia, Chile e Alemanha. Eventos como "Oficina Nacional de Dança Contemporânea", "Ateliê de Coreógrafos Brasileiros", "Festival Via Bahia", "Geração 70", marcaram a história do grupo.

A respiração, por exemplo, também é um movimento. O movimento da vida não cessa.

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O "Tran Chan", de Betti e Leda, concebeu mais de 30 produções entre espetáculos e coreografias.

Aline concebe a arte como uma forma de estar em movimento, e, por meio do movimento, alcançar o equilíbrio. "Dança pra mim é não parar", diz, ressaltando que as pausas necessárias na vida e na arte não significam estagnação. "A respiração, por exemplo, também é um movimento. O movimento da vida não cessa". Ela faz parte desta imensa e secular comunidade de artistas que usam a arte para libertarem a si e aos outros. "Se movimentar é uma forma de se libertar", finaliza.

E quer eu isso seja experimentado por todos.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.