POLÍTICA
04/10/2018 09:04 -03 | Atualizado 05/10/2018 19:14 -03

Ciro paz e amor: Candidato do PDT ajusta tom em 2018 e é hoje a única 3ª via possível

Colecionador de polêmicas, Ciro Gomes adota estilo moderado em sua terceira eleição presidencial.

Douglas Magno/AFP/Getty Images
Ciro Gomes em agenda em Belo Horizonte, em agosto. À esquerda, Giselle Bezerra, sua mulher.

"É preciso endurecer, mas sem jamais perder a ternura."

A frase, atribuída a Che Guevara, é o verso da vida de Ciro Gomes, segundo o próprio declarou no programa Roda Viva, em maio. Como o candidato do PDT à Presidência oscila entre manifestações explosivas e demonstrações de empatia por seus interlocutores, o verso lhe cai bem.

Em sua terceira candidatura ao Planalto, Ciro tenta se apresentar como alguém que deixou a impulsividade para trás. O temperamento instável, no entanto, deu as caras em alguns episódios desta eleição, como quando se irritou com um repórter que cobria agenda de campanha em Roraima e o empurrou ou quando se exaltou com jornalistas do Estadão em uma sabatina.

Chama a atenção, por outro lado, o estilo espontâneo do candidato em debates, onde consegue arrancar risadas da plateia e dos adversários, a quem trata de forma sempre cortês.

Aos 60 anos, o relativo ajuste de tom é sinal de amadurecimento. Ao menos é esta a análise que faz o amigo Carlos Lupi, presidente do PDT. "Todos nós, com o tempo, vamos amadurecendo. Acho que ele [Ciro] está mais calejado, mais maduro para enfrentar as adversidades", disse Lupi ao HuffPost Brasil.

Construir um Ciro mais tranquilo e ao mesmo tempo autêntico é desafio constante da campanha. "Falar a verdade não faz mal. Mas eu penso que é preciso ter cuidado para, ao falar a verdade, não ficar agressivo demais. A população não gosta de agressividade", afirma Lupi, em quem Ciro diz depositar "confiança cega".

Patricia Monteiro/Bloomberg/Getty Images
Ciro Gomes durante debate da Band, o primeiro desta eleição.

Ex-governador do Ceará, ex-prefeito de Fortaleza, ex-deputado e ex-ministro, Ciro gosta de dizer que tem "38 anos de vida pública". Nessa trajetória, passou por 7 partidos: PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS e PDT.

Natural de Pindamonhangaba (SP), mudou-se para Sobral (CE) ainda criança e lá viveu a infância e a adolescência, até seguir para a capital do estado para cursar Direito na Universidade Federal do Ceará (UFC).

Em 1994, mesmo sendo um dos governadores mais bem avaliados do País, deixou o cargo para assumir o Ministério da Fazenda nos últimos meses da gestão Itamar Franco. Na sequência, partiu para os Estados Unidos para fazer mestrado na Universidade de Harvard, onde foi aceito por indicação de seu guru, o filósofo Mangabeira Unger.

De volta ao Brasil, lançou-se candidato à Presidência em 1998 e em 2002. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2002, foi convidado pelo petista para chefiar o Ministério da Integração Nacional, pasta que comandou até 2006.

O mais velho da família Gomes

Ciro é o filho mais velho do finado José Euclides Ferreira Gomes Júnior, defensor público e ex-prefeito de Sobral. Seus irmãos são Lúcio Gomes, Cid Gomes e Ivo Gomes, os dois últimos ex-governador do Ceará e atual prefeito de Sobral, respectivamente.

A presença marcante da família na política cearense faz que alguns a considerem uma representante do coronelismo oligárquico, algo que os Gomes rejeitam fortemente.

"Nós somos uma família de classe média. Papai era defensor público, defendia pobre. Mamãe era professora da rede estadual. Estamos muito longe de ser uma oligarquia, mas o pessoal diz que somos. Oligarquia, no meu juízo, pressupõe poder econômico, controle de mídia. Nós não temos uma televisão lá no Ceará, nada", disse Cid Gomes em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim, em junho.

O irmão disse ainda que Ciro, ao contrário dele próprio, "não tem preocupações materiais".

"O Ciro tem um apartamento para morar, paga um outro apartamento aí e tem um carro. Esse é o patrimônio do Ciro", afirmou, na mesma entrevista.

"Eu sou mais cuidadoso. Tenho preocupações materiais, mas não acumulei nada. Nós recebemos agora uma herança da minha mãe. Papai morreu, os filhos abriram mão [da herança] para a mãe, e quando mamãe morreu teve o inventário", completou.

Ueslei Marcelino/Reuters
Ciro e sua mulher, a produtora Giselle Bezerra, que o acompanha em quase todos os eventos.

O valor total do patrimônio declarado por Ciro à Justiça Eleitoral é de R$ 1,6 milhão. Entre os bens listados há dois apartamentos em Fortaleza, dois veículos e uma casa em Sobral, recebida de herança.

Um desses imóveis foi descrito em reportagem publicada pela revista Piauí em 2007: "O apartamento de 250 metros quadrados fica de frente para a praia de Iracema e tem a decoração esquálida da casa de um jovem de 20 anos: um sofá de dois lugares que um dia foi creme, uma poltrona vinho desbotada, um bar bem abastecido, home theatre e um narguilé. Nenhum quadro na parede, nenhum enfeite, nenhuma planta".

Ciro Gomes e a fama de machista

Para conquistar o voto feminino, que nesta eleição representa 52,5% do eleitorado brasileiro, Ciro também tenta se libertar do rótulo de machista. Pegou mal quando disse, em 2017, que não via Marina Silva com "apetite" para ser candidata. "O momento é de muita testosterona", afirmou na ocasião.

Mas é uma declaração de 2002 que o persegue até hoje.

Em campanha à Presidência pela segunda vez naquele ano, Ciro disse em uma entrevista que a função de sua então mulher, a atriz Patrícia Pillar, era "dormir" com ele. O candidato diz hoje que a declaração é o "maior erro" de sua vida. "Foi uma grande bobagem que eu fiz 16 anos atrás. Já me desculpei 1 milhão de vezes."

Pillar, que declarou voto em Ciro nesta eleição, também já saiu em defesa do ex-marido, de quem se separou em 2011. Em entrevista ao jornal O Globo, a atriz disse que, em 17 anos de convivência, Ciro "nunca foi machista".

"Naquela campanha, ele era uma alternativa ao PT e ao PSDB, e estava apanhando dos dois lados. Todas as entrevistas em que eu estava presente aparecia essa pergunta, sempre de forma provocativa. Nesse dia, já era a terceira ou quarta. Ele já tinha respondido que eu era sua companheira, que conversávamos sobre tudo — porque era isso mesmo, compartilhávamos um projeto de Brasil. Mas aí perdeu a paciência e deu aquela resposta infeliz", contou.

Giselle Bezerra, 39 anos, é a atual mulher de Ciro. Produtora de TV e ex-bailarina do programa da Xuxa, ela o acompanha em praticamente todos os eventos de campanha, e as lentes dos fotógrafos e cinegrafistas costumam captar uma Giselle sorridente, sempre ao lado de Ciro.

Nacho Doce / Reuters
Ciro Gomes e Marina Silva fizeram dobradinha em diversos debates na TV.

Ciro Paz e Amor

O candidato também tenta transmitir a imagem de que é um homem que dá valor à família. Ele tem 4 filhos: Ciro, Lívia e Yuri, de seu primeiro casamento, com a ex-senadora Patrícia Saboya; e Gael, de 2 anos, de seu relacionamento com Zara Castro. Questionado por uma jornalista sobre o que faria caso encontrasse o filho brincando de boneca – o adversário Jair Bolsonaro (PSL) costuma dizer que esse seria o efeito de ensinar igualdade de gênero nas escolas –, Ciro foi direto.

"Eu brinco junto. Qual é o problema? Ou alguém acha que alguém vai afirmar sua orientação sexual por causa de um brinquedo?", respondeu. E olhando para as câmeras, aproveitou para mandar um recado para o caçula em meio à agenda cheia da campanha: "Eu tenho um filho de 2 anos e 8 meses, o Gael. Saudade grande, filho, muito grande".

Esta é a versão Ciro paz e amor, que hoje está em terceiro lugar nas pesquisas, bem atrás de Fernando Haddad (PT). A embalagem light tenta posicionar Cirão da Massa, como sua militância gosta de chamá-lo, como a única terceira via ainda possível nesta eleição de polarização intensa, cujo clímax se avizinha.