01/10/2018 00:00 -03 | Atualizado 01/10/2018 12:00 -03

Superação de abusos, preconceitos e abandono: A força de Renata Vasconcelos

Massoterapeuta foi abandonada grávida pelo marido, mas nunca deixou de acreditar que a vida ia mudar: “Eu tenho certeza de que tudo passa", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Renata Vasconcelos é a 208ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Dia desses, Patrícia, sua filha de 20 anos, fez uma tatuagem. A coisa gerou polêmica na casa de Renata Vasconcelos, 39 anos. Ela não deixa que os filhos façam tatuagens ou coloquem piercings. E lá, tudo vira uma mesa redonda, como ela mesma define. Renata tem 6 filhos vivos – a caçula, que teria 6 anos, morreu ainda bebê – e coloca todo mundo sentado para conversar. Com a tatuagem de Patrícia não foi diferente. Os mais novos já começaram a reivindicar o direito de fazer, quando completarem 18 anos. Ela continua firme com a sua regra: "não pode não!"

Mas, dessa vez, deu o braço a torcer. Falou para a filha que gostou da tatuagem. Patrícia marcou na pele o trecho de uma música. A escolhida foi Mais Uma Vez, da banda Legião Urbana: "É claro que o sol vai voltar amanhã". Após o comentário da mãe, Renata conta que Patrícia usou o melhor argumento que podia: "É o que você sempre disse para a gente, mãe". Sem entender, ela questionou a filha: "Foi?". E Patrícia completou: "Você sempre falou que tudo passa. Que amanhã o sol nasce de novo, que pode não ter nessa semana, mas semana que vem vai ter e vai dar tudo certo".

Essa turma toda aqui é minha. O que eu passei com eles só me deu a certeza de que deus está no comando e que não vai faltar. Eu tenho certeza de que tudo passa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Renata sempre trabalhou como massoterapeuta, mas se virava com "bicos" para complementar a renda.

Esse sempre foi o lema de sua vida: a certeza de que tudo vai passar. Com 24 anos, seu marido na época saiu para trabalhar e não voltou mais. Ela já tinha 4 filhos (morava com 3 deles) e estava grávida de mais um. Foram 10 meses de buscas até que descobriu pelo irmão do marido que ele estava morando na mesma rua. "Ele conheceu outra mulher que também era casada e ela engravidou. Meu ex-marido é um negão de 1,90 m, maravilhoso, era cativante. Nos casamos muito novos e eu nunca achei que ele fosse ter olhos pra outra pessoa. Os filhos foram nascendo e ele falava que eu não precisava trabalhar e eu era uma tonta, mas hoje eu vejo. Não por ficar em casa, mas porque tudo que ele falava era lei. Quando ele sumiu, eu orava olhando para os ternos dele, achava que alguém tinha feito algo com ele", desabafa em entrevista ao HuffPost Brasil. Quando a filha que estava esperando tinha 2 meses, ela foi confrontá-lo. Ela o encontrou com a outra mulher e uma bebê poucos meses mais velha que a sua. "Ele disse que ia esperar a poeira baixar e me explicar", lembra.

Pediu o divórcio. Pouco tempo depois, o ex-marido disse que não veria mais os filhos porque a atual mulher não queria. Dali em diante, a turma de Renata se fechou. Ela e as crianças. Foram anos muito difíceis. Ela já trabalhava como massoterapeuta, mas o que ganhava não era suficiente. Então, fazia qualquer bico para complementar a renda. Sofreu muito preconceito. "Eu levava minha bebê junto quando ia fazer massagem e falava pra ela ficar quieta. Imagina? Falar isso para um bebê? Brincam que eu tenho um monte de soldadinho e eu falo que não. Nós temos uma equipe em casa. Eu ensinei meus filhos desde cedo a lavar louça, limpar a casa e era a maneira que eu tinha de ficar mais com eles porque eu trabalhava muito".

E foi assim por muito tempo. Renata lembra emocionada das vezes em que contou o número de bolachas que cada um poderia comer no café da manhã porque era só o que tinham para se alimentar na semana e como chegou a deixar de comer para garantir o jantar dos filhos. "E eu fui criando uma casca, mas eu não sou doída não, porque o tempo passou. Mas os meus filhos eram os mais pretinhos que todo mundo, eram os diferentes, eles não tinham pai, a mãe tinha sido largada, vai saber o que eu tinha feito? Era sempre culpa minha. O que eu mais sofri foi por ser mulher e engravidar. Me falavam: 'você se deixou engravidar'. E não tinha nenhum cuidado. As mulheres são tratadas sem cuidado nenhum. Tudo a culpa é nossa".

Ele falava que eu não precisava trabalhar e eu era uma tonta, hoje eu vejo. Não por ficar em casa, mas porque tudo que ele falava era lei. Quando ele sumiu, eu orava olhando para os ternos dele.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Hoje eu acho que tinha que ser. Essa turma toda aqui é minha."

Já nessa época começaram as mesas redondas. Desde cedo Renata falava tudo aos filhos para protegê-los. Sentava todos na sua cama, quietinhos, e conversava. "As pessoas me achavam louca, mas eu falava tudo. Eu tinha muito medo de alguém mexer com eles, então desde pequenos eu ensinei o que podiam fazer de mal, o que um pedófilo podia fazer". E enfrentava os preconceitos no bairro em que morava e a falta de ajuda. "Chegaram a falar para eu dar meus filhos para um abrigo porque lá eles iam ter comida. O Conselho Tutelar andava atrás de mim porque todo mundo falava que eu morava sozinha, que as crianças estavam sozinhas". Em um desses episódio, aliás, Renata realmente achou que tinha perdido os filhos – de todos os modos possíveis. Após um dia de trabalho, ao chegar em casa, viu que seu apartamento tinha pegado fogo. "Nunca senti uma dor tão grande. Eu queria cavar o asfalto e entrar".

Mas apesar do falatório da rua, alguém resolveu ajudar. Um dos vizinhos definido por Renata como "o pior cara da rua", conseguiu tirar as 4 crianças de lá e ainda disse aos bombeiros que sempre ficava com elas – o que afastou o Conselho Tutelar de sua cola. "Vou ajoelhar grata a esse cara o resto da minha vida e ele falou que o mais difícil foi tirar meus filhos debaixo da cama. Ele chamava e minha filha falava que não ia sair porque eu tinha dito que não importava o que acontecesse, era para eles se esconderem".

O que eu mais sofri foi por ser mulher e engravidar. Me falavam: 'você se deixou engravidar'. E não tinha nenhum cuidado. As mulheres são tratadas sem cuidado nenhum. Tudo a culpa é nossa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Renata lembra emocionada das vezes em que contou o número de bolachas que cada filho poderia comer.

Todos esses episódios fazem parte dessa casca que Renata adquiriu. Mas, bem antes disso, ela já enfrentava situações de abandono e abuso. Nascida no nordeste, após 6 meses e meio de gestação, os médicos achavam que ela não sobreviveria. A mãe, adolescente, levou uma surra do avô quando a gravidez foi descoberta e depois do parto de emergência abandonou a recém-nascida no hospital. Mas Renata não morreu. O tempo passou, sobreviveu e foi criada pela avó.

Mas carregou com ela a carga disso tudo. Tanto que quando conheceu seu atual companheiro, Estefano, Renata estava totalmente fechada para qualquer relacionamento. Na ocasião, ela tinha conseguido um bico para trabalhar na recepção de uma festa. Ele era um dos convidados e os dois passaram por um mal entendido na hora da entrada. No fim do evento, ele ofereceu uma carona. Ela aceitou com a condição de que ele levasse também uma colega dela para casa.

Desde pequenos eu ensinei o que podiam fazer de mal com eles, o que um pedófilo podia fazer. Chegaram a falar para eu dar meus filhos para um abrigo porque lá eles iam ter comida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Atualmente, ela planeja uma comemoração digna de seus 40 anos.

Alguns dias depois, Estefano estava na porta do prédio dela. "Perguntei se eu tinha ficado devendo alguma coisa. Ele disse que não e que sabia que eu tinha 4 filhos, que eu era separada e perguntou se eu acreditava em amor à primeira vista. E eu falei que não. Nem a segunda e nem a terceira!". Mas ele estava disposto a conquistá-la. Aos poucos foi conseguindo se aproximar e viraram amigos. Só amigos. "Ele cuidou de mim em algum momento porque apesar de tudo, eu queria muito alguém do meu lado, alguém que falasse 'eu estou com ela'".

Foi então que Renata engravidou da 6 filha e sofreu mais um baque. Seu marido à época ficou assustado e disse que tinha medo de ser pai. Renata não pensou duas vezes e foi embora para Mongaguá, grávida, com os filhos, pronta para dar conta de tudo sozinha, como sempre fez. Quando a garota nasceu, ligou para Estefano, que estava desesperado atrás dela. "Ele falou que ia casar comigo. Falei que não! Mas começamos a montar uma casa. Nossa vida começou quando a Maria Fernanda tinha 10 meses e ele virou o pai dos meus filhos".

Assumiu todos eles. Que também o assumiram como pai. "Meu ex-marido apareceu depois de 13 anos e quis conversar com as crianças. Sentei todo mundo e falei se eles queriam ter contato com o pai e disse que o perdão era bom pra quem dava. E eles falaram que o pai deles é o Estefano". Família toda reunida. Foi ele, aliás, que trouxe o filho mais velho de Renata para a casa também. Criado por uma tia de Renata, Gabriel passou a integrar o dia a dia deles há cerca de um ano. Agora a casa está cheia: Gabriel, 23, Patrícia, 20, Junior, 18, João, 14, Priscila, 12 e Maria Fernanda com 8. Maria Carolina, a caçula, teve morte súbita pouco antes de fazer 4 meses. "Hoje eu acho que tinha que ser. Essa turma toda aqui é minha. O que eu passei com eles só me deu a certeza de que Deus está no comando e que não vai faltar. Eu tenho certeza de que tudo passa. Nos piores momentos eu tinha essa certeza. E assim que foi minha vida até chegar aqui".

Eu passei por muitos abusos na vida, desde pequena, tantos anos ouvindo que mulher não é nada, coitada. Quero que a mulher seja poderosa mesmo. Hoje a gente tem mais voz, né?

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Eu tenho certeza de que tudo passa. Nos piores momentos eu tinha essa certeza. E assim que foi minha vida até chegar aqui".

Hoje, muita coisa mudou e melhorou. Algumas continuam as mesmas como a profissão e a disposição para trabalhar - é massoterapeuta por vocação –, assim como sua forma de olhar para a vida e para as pessoas. Sempre com ternura. Coisa de quem está habituada a cuidar dos outros. E com alto astral. Coisa de quem acredita que tudo acontece por algum motivo, como foi com seu trabalho, por exemplo. "A massagem me deu tudo, me abriu portas. Criei os meus filhos fazendo massagem e é o que eu amo fazer. É um dom mesmo. Tinha que ser. E foi o que me trouxe tudo que eu precisava. Desde coisas a pessoas que eu precisava conhecer".

E dá pra perceber que não pensa nem um pouco em parar ou diminuir o ritmo. É disso que ela precisa. Agitação, movimento, vida. E tem orgulho de tudo que fez. "Eu consegui de alguma maneira, não deixei ninguém pelo caminho, fui aparando as arestas e está todo mundo saudável da cabeça. Está todo mundo bem. Nunca bati nos meus filhos, mas prometo uma surra todo dia [risos]. Com as meninas sou mais acolhedora, quero oferecer o que eu não tive. Eu passei por muitos abusos na vida, desde pequena, tantos anos ouvindo que 'mulher não é nada, coitada'. Quero que a mulher seja poderosa mesmo. Hoje a gente tem mais voz, né?"

Ele [segundo marido] cuidou de mim em algum momento porque apesar de tudo, eu queria muito alguém do meu lado, alguém que falasse 'eu estou com ela'.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Renata, o que importa é o dia a dia com a família.

Ela tem com certeza. E sempre animada, para cima. Atualmente planeja uma comemoração dos seus 40 anos. O marido sugeriu que os dois aproveitassem a data para oficializar a relação de uma década. Ela topou. Vai ser festa grande, mas comum, ela frisa. Gosta de coisa assim. Sem pompa porque para ela o que importa é o dia a dia com a família. "Nos piores momentos eu falava: graças a deus a gente tem um ao outro". Sempre teve. Ali em sua casa, há uma turma toda disposta a estender a mão a ela e seguir junto. Com a certeza de que amanhã vai ser um novo dia.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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