MULHERES
29/09/2018 20:20 -03 | Atualizado 30/09/2018 15:35 -03

Mulheres vão às ruas contra Bolsonaro: 'A eleição dele nos coloca em risco'

Maiores concentrações aconteceram no Largo da Batata, em São Paulo, e na Cinelândia, no Rio. Dezenas de cidades no País e no mundo tiveram atos contra candidato do PSL.

Os atos nasceram do movimento chamado #EleNão, do grupo do Facebook "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro".
Stringer . / Reuters
Os atos nasceram do movimento chamado #EleNão, do grupo do Facebook "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro".

Milhares de mulheres foram às ruas neste sábado (29) protestar contra a eleição do candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL). No Brasil, atos aconteceram em cerca de 30 cidades. No mundo, as mulheres foram às ruas para protestar contra o presidenciável em cerca de 66 cidades, entre elas: Berlim, Londres, Barcelona, Paris e Nova York.

Os atos nasceram do movimento chamado #EleNão, impulsionado nas redes sociais pelo movimento feminista e integrantes do grupo no Facebook "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro", que já conta com mais de 3 milhões de integrantes, mesmo depois de sofrer ataques por parte de apoiadores do candidato. O HuffPost Brasil acompanhou o ato em três capitais: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Em São Paulo, o ato contra Bolsonaro aconteceu no Largo da Batata, em Pinheiros. Organizadoras do evento estimam que, até às 18h, cerca de 150 mil pessoas tinham participado do ato. A Polícia Militar não divulgou números oficiais. Até o final do ato, às 20h40 da noite, a organização estimou que cerca de 500 mil pessoas compareceram em São Paulo.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Manifestantes lotam o Largo da Batata para protestar contra presidenciável do PSL.

Por lá, o clima era de militância, assim como de descontração. Com cartazes "Mais amor, menos armas", "Não voto em quem não me respeita" e milhares de "Ele Não". Pessoas das mais diversas idades cantavam e gritavam contra o candidato, que é líder nas pesquisas segundo o Datafolha. Na sondagem publicada na última sexta-feira (26), o candidato do PSL tinha 28% das intenções de votos, seguido por Fernando Haddad (PT), com 22%, Ciro (PDT), com 11%, Geraldo Alckmin (PSDB), com 10% e Marina Silva (Rede), com 5%.

"Eu acho que a gente vive um momento emergencial no Brasil e precisamos tomar uma atitude coletiva muito ampla", disse a historiadora Joana Salem, de 31 anos, em entrevista ao HuffPost Brasil. Salem compareceu ao protesto no Largo da Batata pois, segundo ela, Bolsonaro representa uma ameaça. "E é muito importante saber dialogar com as pessoas, em contraponto ao que ele prega. Ele é uma ameaça até para quem vota nele", disse.

Salem já deu aulas em escolas particulares em São Paulo, mas hoje é doutoranda na USP. "O Bolsonaro representa a continuidade da politica de corte de gastos, é um equivoco falar em gastos com educação, não se gasta com educação, se investe. Eu acho também que não é só a escola que educa, e eu acho que um ato como esse também é educativo."

Andréa Martinelli/HuffPost Brasil
Joana Salem, 31 anos, historiadora, compareceu ao ato neste sábado (29).

Ela propõe a união das mulheres que são contra o candidato para barrar a evolução dele nas pesquisas. "Eu acho que o Bolsonaro vai cair. Eu acho que as mulheres brasileiras são a maioria votante e tem capacidade de barrar a evolução dele. Eu acho que pessoas que não estão convictas 100% em votar no Bolsonaro podem ainda mudar seu voto", disse Salem.

Bolsonaro é uma ameaça até para quem vota nele.Joana Salem, 31 anos

"Ele é totalmente contra as minorias. E se uma pessoa quer governar um País, tem que se importar com o povo. E ele faz o oposto", afirma Gisele Santos, de 25 anos, moradora da zona leste de São Paulo, que também participou do ato no Largo da Batata. "Ele não me representa, por isso que eu estou aqui hoje".

Andréa Martinelli/HuffPost Brasil
Gisele Santos, de 25 anos, moradora da zona leste de São Paulo.

Ela disse que chegou ás 14h no Largo da Batata, e acredita que difundir o #EleNão é uma forma de unir as pessoas. "Eu acho que tudo o que está acontecendo hoje pode surtir um efeito. As mulheres é que convocaram esse ato, e olha o tamanho disso hoje. Eu, como mulher negra, me junto a isso". Gisele trabalha com agências de casting, faz brincos e aproveitou a oportunidade para vender o acessório com a hashtag #EleNão na manifestação. "É uma forma de expressar aquilo que eu quero para o meu País."

Por volta das 18h, o ato se dispersou do Largo da Batata e começou uma caminhada rumo à Avenida Paulista, uma das principais vias da cidade. No caminho, a pista da Avenida Rebouças chegou a ficar completamente interditada. Os manifestantes chegaram na Paulista pouco antes das 20h e por volta das 20h40 os organizadores declararam o fim do ato e pediram para que o público se dispersasse pacificamente. Até o momento, a Polícia Militar não divulgou números oficiais e não houve registro de tumulto. A organização estima que 500 mil pessoas participaram da manifestação.

Cinelândia, Rio de Janeiro

Stringer . / Reuters
Cariocas se encontraram na Cinelândia para protestar contra Bolsonaro.

A concentração do ato contra Bolsonaro começou às 15h na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. A praça estava tomada de homens e mulheres de todas as idades e classes sociais. Haviam bandeiras candidatos de partidos de esquerda e de movimentos sociais independentes, mas o tom era dado pelos cartazes e faixas das manifestantes. "Eu não nasci de uma franquejada", dizia um deles, fazendo alusão à fala de Bolsonaro sobre "ter fraquejado" na quinta vez, e nascer sua filha mulher ao invés de um homem.

O ato foi conduzido totalmente por mulheres. Mais de 80 blocos de carnaval participaram da passeata, que ocupou as ruas do centro. Antes de iniciar a caminhada até a Praça XV, as mulheres leram o manifesto do movimento #EleNão. O texto entoado pela multidão criticava os projetos apoiados por Jair Bolsonaro, a defesa da ditadura e a postura machista, racista e homofóbica do candidato. "Não queremos ditadura ou facismo. Queremos liberdade e igualdade."

No início da tarde, a organização estimava que havia 50 mil pessoas no ato. "A mulheradaestá na rua hoje, pra mandar um recado pra o Jair Bolsonaro e os facistas, de que eles não passarão", disse Ana Carolina Costa, uma das integrantes da organização, que é também integrante do Psol-RJ. Ela contou que o evento foi organizado por mais de 120 mulheres ao longo do mês, com a colaboração de artistas e sindicatos.

A artesã Delci Valim, 66 anos, participa de manifestações desde as Diretas Já. "O Bolsonaro não pode ser presidente", diz, ao explicar o motivo da sua presença no ato desse sábado. "Ele não tem a menor condição de ser um administrador público", completa. Ela está confiante que a presença das pessoas na rua será fundamental para decidir as eleições.

As mulheres têm que se conscientizar da força que têm. Nós somos maiorias. A gente é quem manda. A gente que escolheDelci Valim, manifestante

Amiga de Delci, a também artesã Elsa Santiago, 58 anos, reclama do apoio de mulheres e moradores da favela ao candidato. "É um retrocesso", opina.

Leda Antunes/HuffPost Brasil
A artesã Delci Valim (à esquerda), de 66 anos, participa de manifestações desde as Diretas Já.

A estudante de medicina Amanda Kiss, 21 anos veio a manifestação porque é contra os cortes na educação pública e contra o machismo. "Estou aqui porque sou feminista", disse. A jovem critica o candidato por incentivar a postura violenta dos seus eleitores. "Ele incentiva pessoas que tem comportamentos radicais e violentos. A eleição dele nos coloca em risco", afirmou ao HuffPost.

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Ato pró-Bolsonaro também aconteceu neste sábado (29), no Rio de Janeiro.

Às 17h, parte dos manifestantes deixou a Cinelândia e seguiu em passeata por ruas do Centro do Rio. Não há estimativa de público da Polícia Militar. A Defensoria Pública, Ministério Público e a Comissão de Direitos Humanos da Alerj acompanharam o ato. Em Copacabana aconteceu um ato pró-Bolsonaro também nesta tarde. A Polícia Militar acompanhou a manifestação.

Brasília, Distrito Federal

Marcella Fernandes/HuffPost Brasil
Carol Nemoto, 37 anos, designer de moda, foi ao protesto contra Bolsonaro em Brasília.

No Distrito Federal, o grupo do movimento "Mulheres Contra Bolsonaro" se reuniu na Torre de TV de Brasília. Segundo organizadoras do evento, mais de 30 mil pessoas compareceram. A primeira estimativa da Polícia Militar é de 7 mil pessoas.

Os manifestantes começaram a se concentrar a partir das 14 horas na Rodoviária do Plano Piloto, de onde caminharam até a Torre, na área central da capital. "Vim me opor à violência contra as minorias, que de minorias não têm nada", disse a manifestante Carol Nemoto, que é designer de moda e tem 37 anos.

Somos nós mulheres que exigimos que nossos direitos sejam respeitados, que a gente tenha equidade no ambiente de trabalho e na sociedade.Carol Nemoto

Ela também alertou contra possível redução de direitos e retrocessos nas Políticas públicas. "Ele foi contra o atendimento de mulheres vítimas de violência sexual no SUS [Sistema Único de Saúde]. Ele vai tirar os direitos das mulheres, dos negros, indígenas, da comunidade LGBT", disse. "A gente está contra a ascensão da extrema direita, do nazifascismo."

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O ato #EleNão, em Brasília.

Pelo Brasil e pelo mundo

De acordo com o G1, neste sábado, aconteceram atos contra Bolsonaro em 114 cidades, e em 40, a favor do candidato.

No mundo, manifestantes contra Bolsonaro foram às ruas de cidades como Berlim, Paris, Londres, Auckland, Nova York, entre outras. Até o momento, todas as passeatas e protestos foram pacíficos, sem ocorrência de violência no local.

Bolsonaro deixa hospital

No mesmo dia em que foram marcados atos contra Bolsonaro, o presidenciável deixou o hospital Albert Einstein, no Morumbi, em São Paulo. Ele recebeu alta médica às 10h, após passar 22 dias internado por ter sido esfaqueado em 6 de setembro durante um ato de campanha em Minas Gerais.

Na mesma tarde, ele voltou para o Rio de Janeiro e agradeceu pelas manifestações de carinho de seus eleitores. "Enfim em casa, perto de minha família no aconchego de nossso lar! Não há sensação melhor!", disse no Twitter.