MULHERES
29/09/2018 02:55 -03 | Atualizado 29/09/2018 13:57 -03

'Ele não, ele de jeito nenhum': As mulheres que vão para as ruas contra Jair Bolsonaro

Há 30 atos contra o candidato marcados pelo Brasil, incluindo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador e Belo Horizonte.

Nacho Doce / Reuters
Mulher usa um adereço com os dizeres "Ele não", em referência a Jair Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PSL.

"Assim como homens opressores projetaram sua forma de agir e se sentem identificados com este candidato, milhões de mulheres estão indo para rua para responder às agressões dele, não só a mim, mas a todas nós. É por todos os brasileiros e brasileiras que certamente podem sofrer muito com um governo desse tipo."

A frase da deputada Maria do Rosário (PT-RS), em entrevista ao HuffPost Brasil, condensa os principais pensamentos das mulheres que se mobilizaram nas redes sociais e pretendem tomar as ruas neste sábado (29), em marchas espalhadas por todo o País contra o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro: a resposta a declarações machistas e a possibilidade de um governo antidemocrático.

Em contraponto ao projeto de governo e a declarações recentes de Bolsonaro e de seu vice, o general reformado Hamilton Mourão, o movimento feminista difundiu a hashtag #EleNão nas redes sociais e o grupo fechado "Mulheres Contra Bolsonaro", no Facebook, já conta com mais de 3 milhões de integrantes, mesmo depois de sofrer ataques por parte de apoiadores do candidato.

Bolsonaro já defendeu que as mulheres não devem receber o mesmo salário que os homens, mesmo que exerçam a mesma função; demonstrou menosprezo ao se referir à própria filha ao dizer, em 2017, que tem "5 filhos. Foram 4 homens, a 5ª eu dei uma fraquejada e veio uma mulher". Recentemente, general Mourão afirmou à Folha de S. Paulo que famílias sem "pai e avô" e com "mãe e avó" são "fábricas de desajustados" que ingressam no narcotráfico.

"Não é só a questão de que ele é um cara autoritário, com tendências ditatoriais. As mulheres estão em risco. E gente tem que mostrar que a gente tem força, muita força. A gente está disposta a mostrar a cara e dizer: ele não, ele de jeito nenhum", afirma a advogada Flávia Pinedo, moradora de São Paulo, que pretende ir à manifestação que acontecerá na cidade neste sábado (29).

Há 30 atos contra o candidato marcados pelo Brasil, incluindo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador e Belo Horizonte. Todos estão programados para às 15h. O coletivo feminista Juntas, em sua página no Facebook, informa que há eventos programados em Berlim (Alemanha), Buenos Aires (Argentina), Paris (França), Londres (Inglaterra), Lisboa (Portugal) e Nova York (EUA).

Na onda da manifestação de mulheres, outros grupos de movimentos sociais organizam, também em redes sociais, atos contra o presidenciável do PSL. Um evento no Facebook, por exemplo, chama a comunidade LGBT para o ato no mesmo horário e local em São Paulo. Até o fechamento da reportagem, o evento contava com 5,5 mil confirmados e 28 mil interessados. No Rio de Janeiro, um evento que convoca mulheres, negros e LGBTQ+ até o momento conta com 30 mil confirmados e 120 mil interessados.

"A gente está passando por um momento turbulento tem que tomar cuidado. Mas inevitavelmente quem está quem está à frente das organizações vai ser mais visado", avalia Flávia. Por isso, para ela, marcar presença fora das redes sociais neste momento é fundamental. "Tem que mostrar para a sociedade que esse não é o movimento que fica somente na internet."

Maria do Rosário, que já foi xingada de "vagabunda" e ouviu em duas ocasiões do candidato Jair Bolsonaro, que "ela não merecia ser estuprada" afirma que irá às manifestações em Porto Alegre, sua cidade natal. "Eu sinto que tenho milhões de irmãs, com imensa sororidade. Ao longo destes anos, senti que milhares de mulheres sabiam que nós tínhamos que resistir. E hoje nós somos milhões", aponta.

Para a deputada, que é novamente candidata ao cargo nestas eleições, a presença nas ruas é importante para demonstrar a resistência das mulheres. "A resistência é por nós e é pelas novas gerações de mulheres. É por todos os brasileiros e brasileiras que certamente podem sofrer muito com um governo desse tipo."

O discurso de Bolsonaro e a rejeição das mulheres

NurPhoto via Getty Images
Mulheres protestam em São Paulo pela descriminalização do aborto, em 8 de agosto de 2018.

As mulheres brasileiras somam cerca de 53% da população e, de acordo com as pesquisas de intenção de voto mais recentes, Bolsonaro aumentou a preferência entre mulheres, mas continua sendo o candidato mais rejeitado pelo grupo. De 22 de agosto a 14 de setembro, a intenção de voto das mulheres em Bolsonaro cresceu de 14% para 18%, segundo o Datafolha.

Segundo pesquisa Ibope divulgada na última segunda-feira (24), o deputado divide com Fernando Haddad, candidato do PT, a liderança do público feminino, com 21% das intenções de voto cada. No cenário geral, Bolsonaro tem 28% contra 22% do petista. O parlamentar, contudo, é campeão na rejeição entre as brasileiras, com 54%.

O posicionamento considerado racista, machista e homofóbico do deputado tem sido explorada por adversários. Tanto Marina Silva (Rede) quanto Geraldo Alckmin (PSDB) têm centrado as campanhas em expor frases e atitudes do candidato do PSL. Alckmin, por exemplo, usa o vídeo em que Maria do Rosário é xingada de "vagabunda" por Bolsonaro, em 2003, em seu programa eleitoral.

"Eu não gosto de passar por isso. Cada vez que passa, é uma coisa que é ruim para mim. Mas eu não tomei nenhuma atitude contrária [à divulgação do vídeo], porque eu penso que se isso ajuda a desmascarar um candidato que oprime mulheres, então eu fico satisfeita que as pessoas vejam", afirma a deputada ao HuffPost Brasil.

Em ambos os casos, o centro da discussão entre Maria do Rosário e Bolsonaro era a redução da maioridade penal, defendida por ele e rejeitada por ela. Em 2003, Rosário chegou a denunciá-lo ao Conselho de Ética da Câmara, mas a representação foi arquivada. Já em 2014, ela entrou na Justiça contra o ex-capitão, que hoje é réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por apologia ao crime de estupro e injúria.

No ano passado, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) manteve a condenação do deputado por danos morais. "Dedico essa vitória a todas as mulheres. O valor que tem a atuação do nosso mandato, é ter percebido e ter enfrentado sempre", diz Maria do Rosário. "Ter seguido enfrentando durante todos esses anos, persistindo, mesmo que ele tenha um exército nas redes sociais, que atacou minha filha, me atacou, que tenta destruir permanentemente a minha imagem", completa.

Pela democracia, por direitos, sem partidos

Nacho Doce / Reuters
As mulheres somam cerca de 53% da população e, em consequência, a maior parte do eleitorado brasileiro.

Enquanto apoiadoras de Jair Bolsonaro negam haver machismo no episódio com Maria do Rosário e associam o fato de o candidato ser considerado homofóbico por ter sido contrário ao "kit gay", organizadoras do #EleNão defendem o oposto e afirmam que o que está em jogo é a democracia e a manutenção de direitos sociais já conquistados.

"Ele chega com esse discurso de que 'não dá mais, ninguém aguenta mais', 'somos brasileiros acima de tudo' e 'a esquerda destruiu o Brasil' e esse discurso pega. Ele se aproveita disso para fazer discurso de ódio", critica Laura Daltro, pedagoga de 24 anos, e uma das organizadoras do ato "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro" que acontecerá em Salvador, Bahia, neste sábado (29).

Ela cita o compartilhamento feito pelo filho do presidenciável, o vereador Carlos Bolsonaro, no início da semana, que usou uma imagem de tortura para ironizar campanha #EleNão. "As pessoas defendem ele e as atrocidades que ele fala por falta de memória histórica."

A ativista explica que, na sua visão, ir para rua hoje significa rejeitar a postura "totalmente racista do candidato". "Eu sou uma mulher de Candomblé, é uma postura [a de Jair Bolsonaro] que pretende aniquilar com o que resta de ancestralidade negra no Brasil", afirma. "Temos que ir para rua pelo nosso passado, pelo nosso presente e pelo nosso futuro", completa.

Para Amanda Ferreira*, de 34 anos, moradora de Recife (PE), fisioterapeuta e católica, o que Bolsonaro "prega" refuta os próprios ideais que ele tenta perpetuar. "O que ele prega é ódio. Apesar de ter um discurso que vai combater a violência, o que ele prega é justamente a violência. Isso é o oposto à democracia e é angustiante ver que uma pessoa se apropria da palavra de Deus para fazer uma campanha desse tipo."

Bruna Galvão, de 32 anos, é uma das organizadoras do "Bloco autônomo independente contra Bolsonaro", realizado em São Paulo, também neste sábado. "Por ser um momento de eleição, é comum que alguns partidos tomem para si essas pautas. O que a gente quis, quando organizou, foi garantir uma voz única, contra Bolsonaro e à favor da democracia. Sem partidos envolvidos."

Ela aponta que, apesar de o candidato estar disputando um pleito pela via democrática, ele não os representa. "É uma contradição quando ele diz que não propaga o ódio e a violência. Os ataques a jornalistas, ativistas, a tensão desse momento político que é trazida pelo discurso dele e de seus apoiadores não condiz com uma democracia".

*Nome foi alterado a pedido da entrevistada para proteger sua identidade.