MULHERES
29/09/2018 02:55 -03 | Atualizado 30/09/2018 11:51 -03

Quem são as mulheres que apoiam Bolsonaro e pedem o movimento #EleSim

Manifestações de apoio e repúdio à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República vão acontecer neste fim de semana em todo o Brasil.

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Apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL), em manifestação na frente do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

"As mulheres que votam em [Jair] Bolsonaro sabem que se o PT voltar seguiremos mais rapidamente para uma venezuelização. Não tem sentido ficar paradas em causas femininas ou feministas. Essa é justamente a pauta imposta pela esquerda."

A frase da advogada e professora da USP (Universidade de São Paulo) Janaina Paschoal, em entrevista ao HuffPost Brasil, resume os principais pensamentos das mulheres que apoiam o candidato do PSL à Presidência da República: o antipetismo, a negação de que o deputado seja machista e a visão de que questões de gênero não são prioridade.

Em contraponto à onda feminista que difundiu a hashtag #EleNão e ao movimento "Mulheres contra Bolsonaro", eleitoras do presidenciável se uniram para articular uma movimentação contrária e em sua defesa. O maior grupo não secreto "Mulheres com Bolsonaro" no Facebook hoje conta com cerca de 20 mil integrantes.

Neste sábado (29) e domingo (30), estão programadas passeatas em todos os estados brasileiros, de acordo com Joice Cristina Hasselmann, jornalista e candidata a deputada federal pelo PSL. Ativista do movimento #EleSim, ela irá participar de 3 atos no estado de São Paulo neste fim de semana. "Estão vendendo uma coisa que ele não é. Como se fosse um grande machista, um monstro", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil, em referência à campanha do outro lado.

A aliada conheceu o presidenciável em uma entrevista para a TVeja, em Brasília (DF), após conflito do parlamentar com a deputada Maria do Rosário (PT-RS) e entrou no mundo da política após um convite dele. "De fonte ele foi ficando mais próximo e acabamos nos tornando amigos. Ele já foi na minha casa. A gente criou uma relação de confiança um com o outro porque eu vi que o Bolsonaro não era aquilo que vendiam dele", conta.

Na avaliação da jornalista, a imagem reproduzida na imprensa não condiz com a realidade. Ela negou que frases como dizer que prefere "um filho morto a um filho gay" incitem homofobia ou um discurso de ódio. "Qual a provocação de violência? Ele está dando uma opinião em relação ao filho dele. Qualquer pessoa pode dar qualquer declaração sobre qualquer assunto", completa.

De acordo com a jornalista, frequentemente o deputado é mal interpretado ou não se divulgam corretamente as retratações. "Ele não tem um filtro entre o que ele pensa, o que ele fala, as piadas e na política, infelizmente, se você não tiver um pouco de filtro, você acaba muitas vezes apanhando por aquilo que você não fez e não disse. O Bolsonaro fez uma declaração ou outra mais infeliz e depois veio e se corrigiu".

A ascensão de Jair Bolsonaro e a rejeição entre as mulheres

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Em campanha para deputada estadual por São Paulo, Janaina Paschoal reforça apoio feminino ao candidato nas ruas.

Segundo pesquisa Ibope divulgada na última segunda-feira (24), o deputado divide com Fernando Haddad, candidato do PT, a liderança do público feminino, com 21% das intenções de voto cada. No cenário geral, Bolsonaro tem 28% contra 22% do petista. O parlamentar, contudo, é campeão na rejeição entre as brasileiras, com 54%.

Em campanha para deputada estadual por São Paulo, Janaina Paschoal contou que tem percebido o apoio feminino ao candidato nas ruas. "Cheguei a presenciar uma esposa convencendo o marido a votar nele", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil. De acordo com ela, apenas uma eleitora, em Santos, perguntou a ela se Bolsonaro era machista. "No interior [de São Paulo], sinto que todas estão fechadas com ele", completa.

Uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, a jurista chegou a ser cotada como vice do presidenciável. Apesar da quase parceria, eles não chegaram a discutir políticas de gênero para um eventual governo. "Não tratamos de pautas femininas ou feministas. Não gosto quando me limitam a essas questões", afirmou Paschoal. Ela ressalta que ele foi "muito respeitoso" e a ouviu em questões de sua competência. Um exemplo foi o recuo na proposta de aumentar o número de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

'Ele não é machista'

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Uma das apoiadoras de Jair Bolsonaro, em protesto a favor do candidato, realizado em São Paulo.

As acusações de machismo e homofobia também são refutadas por eleitoras, para quem os rótulos se referem à maneira do candidato se expressar. "Acho eu as pessoas invertem porque ele é muito grosseiro para falar. Não é carismático com as palavras. As pessoas aproveitam para difamar. Ele não é nada daquilo", afirmou a professora Joana Rosado Torres, de 56 anos, moradora de Brasília (DF).

O Distrito Federal é uma das unidades da Federação em que o presidenciável lidera a corrida eleitoral. De acordo com pesquisa Ibope divulgada em 17 de setembro, ele tem 39% das intenções de voto na região.

Admiradora da equipe econômica de Bolsonaro, Joana aponta esse fator como decisivo para decidir o voto. Favorável a um ajuste fiscal, a professora diz que é a favor da manutenção do Bolsa Família, mas com rigor maior na fiscalização de quem recebe. "Ele vai permanecer com parte social pelo que entendi", afirmou sobre um eventual governo do candidato do PSL.

O candidato prometeu que irá manter o programa social, mas o economista Paulo Guedes, referência em sua equipe, defende uma redução do Estado. A eleitora também se incomoda com os ataques ao candidato. "Vamos parar de falar mal dos candidatos e mostrar quais as qualidades deles. Todos se uniram para falar mal do Bolsonaro", afirma.

Na disputa para chegar ao segundo turno, Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) têm adotado essa estratégia, especialmente ao destacar declarações machistas e homofóbicas por parte de Jair Bolsonaro. Um dos episódios lembrados pelas entrevistadas foi a discussão com a deputada Maria do Rosário (PT-RS), quando o parlamentar disse que ela "não merecia ser estuprada".

A declaração foi feita em 2003 e repetida em 2014. Na época, Bolsonaro disse que a briga começou ao ouvir que a parlamentar era contrária à redução da maioridade penal. Ele sugeriu então que ela contratasse o Champinha (Roberto Alves da Silva), menor que participou de assassinato em 2003, para ser motorista de sua filha. A conduta levou o presidenciável a se tornar réu no STF por injúria e incitação ao estupro.

As eleitoras, por sua vez, negam haver machismo no episódio e minimizam acusações de agressão à ex-esposa, Ana Cristina Valle. Reportagens da Folha de S. Paulo revelaram documentos e testemunhos sobre ameaça de morte em 2011. "Ele já explicou, já tá claro. Se apegam nesse jargão. A ex-mulher dele já defendeu", diz Maria da Graça Guedes Pereira, empresária de 59 anos e também moradora de Brasília.

Para a psicopedagoga aposentada, a fama de homofóbico se deve à sua posição contra o "kit gay". Bolsonaro ganhou projeção após criticar o Escola sem Homofobia, proposta do MEC (Ministério da Educação) em 2011 que nunca saiu do papel. A intenção era debater a sexualidade no ambiente escolar como forma de reconhecer a diversidade sexual e combater a discriminação.

Graça concorda com as críticas ao programa. "Não quero que escola vá ensinar sexo ao meu neto de 3 anos, de 9 anos. Cabe ao pai e mãe", afirma. Assim como outras eleitoras de Bolsonaro, ela nega qualquer tipo de preconceito. "Eu brinco, conto historinha pra minha netinha de 3 anos. Se ela quiser ser gay, vai ser, tem apoio. Tenho amigos gays, amigas lésbicas", completa.

Já para Cristina Amorim*, de 24 anos, estudante de medicina e moradora de Salvador (BA), "feminismo é mimimi, não combate estupro, não faz nada", diferentemente de Bolsonaro que, segundo ela, "defende penas mais rígidas para estupradores e o armamento para defesa pessoal". "O que há é uma grande rede de mentiras tal qual 'Bolsonaro é machista'. Ele é, sem dúvidas, o candidato que tem as melhores propostas para as mulheres. Bolsonaro tem propostas concretas", argumenta. Segundo Datafolha, o Nordeste é a região em que Bolsonaro tem seu pior desempenho, com 17% das intenções de voto.

Direitos das mulheres é pauta da esquerda?

Bruno Kelly / Reuters
"Somos Todos Bolsonaro", diz camiseta de manifestantes em protesto a favor do candidato à Presidência pelo PSL.

Na visão das apoiadoras do candidato do PSL, pautas como direitos humanos ou igualdade de gênero são relacionadas à esquerda ou vista como temas menores. "Para quem já optou pelo Bolsonaro, isso não vai interferir porque tem propostas mais interessantes para mudar o País do que esse tititi, essas fofoquinhas", afirmou Graça.

Algumas eleitoras relatam incômodo com a abordagem de alguns ativistas na luta pelo avanço de pautas LGBT, por exemplo. "Nunca fui homofóbica. Não sou contra gay, lésbica. Mas virou um exagero de mostrar isso e de forma errada. Quero um país onde netos cresçam numa educação que eu tive, com exemplo de família, de pai e mãe. Quer ser gay, vai ser na boa, mas pra que explicitar de forma errada, chula, grossa?", questionou a empresária.

Graça chegou a considerar Alvaro Dias (Podemos) e João Amoêdo (Novo), mas definiu o voto após avaliar que Bolsonaro teria maior chance de derrotar o PT. Ela disse ter percebido ataques mais contundentes ao candidato após a facada. Eleitora do PSDB em 2014, a empresária criticou o tom adotado por Alckmin. "Sempre gostei dele, mas agora radicalizou. Já está mostrando que está se juntado para derrubar o Bolsonaro", afirmou em referência às críticas do tucano ao deputado.

*Nome foi alterado a pedido da entrevistada, para proteção de sua identidade.