29/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 29/09/2018 00:00 -03

Jane Moura, a professora que ensina que futebol é coisa de mulher

Com antigo sonho de ser jogadora de futebol profissional, hoje ela comanda a ONG Empodera, que tem como foco desenvolver habilidades de meninas no mundo esportivo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jane Moura é a 206ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto do HuffPost Brasil.

A Ilha de Paquetá é um bairro do Rio de Janeiro, mas nem parece. Com acesso só via transportes marítimos, e a 50 minutos do centro do Rio de Janeiro, cerca de 5 mil pessoas moram em uma área de 1,2 quilômetros quadrados. Um pequeno bálsamo de silêncio em meio à Baía de Guanabara que, com seus pós e contras, é casa de esportistas famosos como Lucas Paquetá, jogador do Flamengo de 21 anos. No mesmo campo em que o jogador homônimo da ilha em que nasceu deu seus primeiros dribles, jogou também Jane Moura, de 27. Ela tinha o sonho de também ser jogadora profissional, mas hoje é professora de educação física e "arrisca dizer": a realização é muito maior. Presidente da ONG Empodera: Transformação Social pelo Esporte, ela capacita profissionais e, junto com a cofundadora e diretora financeira Thais Olivetti, é responsável por mostrar a meninas de 10 a 18 anos que elas podem, sim, ser o que quiserem.

Filha de uma doméstica, "sua maior referência", Jane descreve Paquetá como uma "cidade do interior no meio do Rio de Janeiro". Por isso, o pensamento de sua família e também de seus amigos, por vezes, era muito limitado às possibilidades que somente a ilha poderia oferecer, sem expandir para o mundo de oportunidades que havia a poucos minutos dali. Foi por isso, e também pela grande proximidade entre mãe e filha, que elas decidiram declinar da proposta da menina ser uma jogadora da base do Vasco da Gama, e Jane sequer chegou a fazer os testes necessários. Mesmo com a vontade de ganhar os campos, a professora diz que o sonho foi "minando", mas na verdade ele se transformou por volta da 8ª série.

Pensei que nunca ia estar em pé de igualdade com as pessoas que têm acesso a uma educação melhor.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

"Comecei a ver esse potencial de dar aula, de usar o esporte para uma coisa legal quando saí da escola daqui e fui para uma escola que não tinha nem quadra, lá em Copacabana. As pessoas faziam redação na aula de Educação Física, então conversei com a professora e ela disse que era assim o perfil da turma. Então comecei a convencer as meninas a jogarem qualquer tipo de jogo, pegar a bola e jogar queimada. Eu queria movimento, uma coisa de liberdade. Consegui organizar o primeiro futebol entre as turmas de oitava série", conta ela, como quem lembra do exato momento em que uma paixão começa.

O espírito de movimentar, ensinar e conduzir os outros alunos tinha razão de ser. Apesar de "nem saber o que era uma faculdade" na época, por volta do 2º ano do ensino médio a jovem decidiu fazer educação física.

"Eu não sabia nem o que era faculdade. Tenho irmãos que são formados agora, mas não era uma vida imaginada [a de universitária]. Aí comecei a pensar que gosto de ensinar, gostei dessa parada de organizar, colocar as pessoas para fazerem esportes. Pensei que gostava de ensinar, então iria dar aula. Gostava de esportes, então decidi fazer educação física e dar aulas de educação física", explica.

Jane foi entender a diferença entre universidades públicas e privadas, e viu que só a pública era uma opção, devido à condição econômica de sua família. Sem dinheiro para cursos preparatórios e sem saber da possibilidade de cursos comunitários e de graça, Jane estudou sozinha: "Bateu o desespero, porque pensei que nunca ia estar em pé de igualdade com as pessoas que têm acesso a uma educação melhor".

Eu queria ajudar as pessoas, nunca me imaginei dentro de uma academia dando aula.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

Mas esteve. Passou de primeira. Aliás, de segunda: tentou a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mas foi aprovada mesmo na Universidade Federal Fluminense. Este momento, ela define, foi "coisa do destino".

"A educação física da UFF é muito voltada para o desenvolvimento humano, de comunidades, e eu me encontrei ali, era o que eu queria fazer. Eu queria ajudar as pessoas, nunca me imaginei dentro de uma academia dando aula. A maioria das pessoas tem professores que são referência, mas eu não tive. Sempre tive muito mais uma aula de pegar a bola e os alunos se organizarem sozinhos. E eu pensava, na adolescência, que queria fazer diferença, usar realmente o potencial para ajudar as pessoas pela educação física", conta à reportagem do HuffPost Brasil, ao lado do campo em que, antes de livros, comia a bola.

Já formada, começou a dar aula em ONGs, principalmente em uma favela da zona norte do Rio, e gosta de destacar como a mulher, quando trabalha em uma área que é estereotipada para o masculino, precisa se provar o tempo todo. Até para crianças.

"Quando eu entrei na sala a primeira vez, a criança gritou "tá de sacanagem! Uma mulher? Isso é aula de futebol, tia!". E eu tinha toda uma metodologia, de sentar em círculo, conversar, fazer uma introdução. Tinha uma preocupação didática-pedagógica com aquelas crianças e ninguém me deixava falar, falavam que o tio era melhor, que sabia jogar e ensinar futebol. Vi que minha aula não ia funcionar e tinha que fazer alguma coisa. Eu falei pra eles: é futebol que vocês gostam? Então vamos jogar", relembra.

E ser mulher é isso: a gente acaba esbarrando com esses momentos em que a gente tem que provar que é capaz.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Jane já participou de trabalhos em parceria com a ONU Mulheres, Comitê Olímpico Internacional e a ONG Women Win em 18 vilas olímpicas do Rio.

Jogou bola, driblou, fez gols e, só assim, conseguiu a confiança dos alunos, à época com seis e sete anos de idade. Jane, claro, não os culpa. Para ela, a grande culpa por esse estranhamento é da cultura em que estamos inseridos.

"E ser mulher é isso: a gente acaba esbarrando com esses momentos em que a gente tem que provar que é capaz, que é melhor, que tem potencial de fazer. O tempo todo. Isso é uma reprodução do meio em que as crianças vivem, e não é uma realidade somente da favela, é uma realidade reproduzida em todos os ambientes", afirma.

Depois do primeiro período lecionando, assumiu a coordenadoria da ONG em que trabalhava para lidar com projetos externos. O trabalho consistia em visitar comunidades e capacitar profissionais para lidar com crianças e esportes, e foi ali que acendeu a primeira luzinha que ia resultar na sua própria ONG: ela via sempre os meninos se exercitando, e as meninas isoladas.

"Eu estudei gênero e sexualidade na graduação, então já tinha uma concepção, mas fica muito na teoria. Colocar em prática é difícil. Você lê, entende as desigualdades e como ela é construída, mas pensa como conseguir fazer isso na prática, porque a prática te engole. A desigualdade está ali o tempo todo, a reprodução de machismo, de estereótipo está ali o tempo todo e é internalizada pelas meninas também", analisa.

A desigualdade está ali o tempo todo, a reprodução de machismo, de estereótipo está ali o tempo todo e é internalizada pelas meninas também.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O objetivo não é formar atletas, mas se acontecer, tudo bem. Para Jane, o principal é formar pessoas.

Mesmo assim, Jane conseguiu. Depois de participar de um trabalho em parceria com a ONU Mulheres, Comitê Olímpico Internacional e a ONG Women Win em 18 vilas olímpicas do Rio de Janeiro, exatamente com foco em aproximar meninas do esporte, ela decidiu que era isso que queria fazer da vida. "Treinando as equipes para essa metodologia, tive contato com atores do governo e é um problema geral: em todos os lugares as pessoas têm dificuldades de incluir meninas no esporte. Eu pensava 'será que não temos meninas?'. Mas a maioria da população é mulher, então o problema é falta de acesso, negligência de direitos, porque o direito ao esporte e lazer é de todas as pessoas."

Jane e Thais decidiram fomentar o debate e incidir na vida dessas meninas. Saíram da ONG em que trabalhavam para criar e manter a sua própria a partir do que receberam do auxílio-desemprego. A estabilização da organização não é fácil, mas Jane explica que a força fundamental vem das meninas.

"A gente ficou naquele desespero de "vamos juntar grana", de pegar tudo que tem e investir. Mas ao mesmo tempo, com contato de consultoria com a ONU Mulheres, a gente continuou em contato com as meninas. E isso dá muita força. São meninas que, de 2016 até hoje, têm discursos totalmente contrários ao que tinham, desconstruíram estereótipos de gênero, e não só em relação a mulher como um grupo homogêneo, mas dizendo que a mulher negra, de dentro da favela, tem direitos. E isso move. Em qualquer cenário eu ia dar um jeito de fazer isso", afirma.

Formar as outras organizações para ter esse olhar sensível às questões de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas é fundamental.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Estar em contato com meninas em desenvolvimento não é positivo só para elas, mas também para Jane.

Hoje, a Empodera atua em três vertentes principais: desenvolvimento e adaptação de metodologias esportivas, treinamento de outras organizações e a aplicação direta dos programas em parceria com essas organizações. Jane explica que a ONG treina suas equipes e leva essas equipes a ensinarem às organizações. O desejo é expandir muito mais, além do eixo Rio-São Paulo.

"A gente quer expandir com outras organizações, para pensar como criar, no esporte, espaços seguros e inclusivos para meninas, discutir questões de gênero. A gente tem impacto grande, mas não é nada perto do que a gente pode alcançar. Formar as outras organizações para ter esse olhar sensível às questões de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas é fundamental", explica.

O objetivo não é formar atletas, mas se acontecer, tudo bem. Para Jane, o principal é formar pessoas. "A gente pensa e, na maioria dos esportes, a referência que nos vem à cabeça é homem. Então primeiro é um espaço de quebra de paradigma, de você ocupar um espaço que foi negligenciado. Só delas estarem ali já é uma quebra de estereótipos, de paradigma, muito grande. A ideia é que elas desenvolvam habilidades para a vida: autonomia, disciplina, estabelecimento de metas. Qualquer esporte tem meta, traçar uma estratégia, então a gente discute como colocar essa estratégia do esporte como estratégia de vida. A ideia central não é formar atletas, se formar, que bom porque são mulheres ocupando espaços, mas a ideia central é formar pessoas e preparar as organizações", define.

A gente trabalha a autoestima com as meninas, mas trabalha a nossa autoestima também.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O esporte como ferramenta de cidadania: este é o foco de Jane.

Estar em contato com meninas em desenvolvimento não é positivo só para elas, mas também para Jane. Ela explica que o convívio com as meninas ajuda na sua própria autoestima, e é por isso que deseja expandir a atuação da ONG e, claro, formar sempre seres humanos melhores e mais autônomos.

"A gente trabalha a autoestima com as meninas, mas trabalha a nossa autoestima também. A gente vê o potencial das meninas de chegar onde quiser, e eu também vejo o meu potencial, por gerir uma organização, que é uma coisa difícil para caramba. Eu não me imaginava nesse espaço, que geralmente não é ocupado por mulheres. Meu trabalho é meu significado de vida", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inboxna nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.