MULHERES
26/09/2018 14:11 -03 | Atualizado 26/09/2018 14:15 -03

O depoimento de Andrea Constand, a mulher que denunciou e sobreviveu a Bill Cosby

"Ele pegou meu espírito lindo, saudável e jovem e o esmagou”, escreveu Constand. Comediante foi condenado de 3 a 10 anos de prisão, em um dos primeiros julgamentos da era #MeToo.

POOL New / Reuters

Na terça-feira (24) Andrea Constand, ex-treinadora de basquete feminino da Temple University, aguardou com sua família o sentenciamento de Bill Cosby.

O comediante foi condenado em abril por 3 acusações de agressão sexual agravada contra Constand, por quando ele a drogou e agrediu em 2004. Quando ele foi a julgamento pelo caso de Constand, mais de 60 mulheres já o haviam acusado publicamente de agressão sexual. Muitas pessoas viram Constand como representante de dezenas de outras acusadoras.

Constand escreveu uma declaração contundente sobre a agressão e o processo exaustivo de percorrer o sistema de justiça criminal. Essa declaração foi levada a público pela primeira vez ontem. Bill Cosby foi condenado de 3 a 10 anos de prisão. Segue abaixo a íntegra de suas palavras.

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Para compreender realmente o impacto que a agressão sexual exerceu sobre minha vida, é preciso entender a pessoa que eu era antes de isso acontecer.

Na época da agressão, eu tinha 30 anos e era uma atleta auconfiante e em ótima forma física. Eu era forte e hábil, tinha grandes reflexos, agilidade e velocidade. Quando me formei no ensino secundário, em Toronto, eu era uma das três maiores jogadoras de basquete colegial no Canadá. Dezenas de faculdades americanas competiram para me oferecer bolsas de estudo como jogadora. Escolhi a Universidade do Arizona.

Durante quatro anos fui a ala armadora da equipe de basquete feminino, marcando até 30 pontos em cada partida. Foi uma época fantástica da minha vida. Aprendi muito, criei um círculo de muito bons amigos, muitos deles minhas colegas do time, e percorri os Estados Unidos competindo.

O único lado negativo era que eu sentia falta de minha família. Passei a sentir saudades enormes. Quando isso começou a afetar meus estudos e treinos, meu pai teve a ideia de levar o pai e a mãe dele a se mudarem para Tucson.

Meus avôs estavam perto dos 70 anos quando concordaram em mudar-se para mais de 3.200 km de distância para ajudar com minha adaptação à vida longe de casa. Eles venderam seu restaurante em Toronto e se aposentaram. Acharam que o clima quente e seco lhes faria bem, de qualquer jeito. Eu sempre tinha tido um relacionamento especial com meus avós. Não apenas tinha crescido na casa deles como falei grego antes mesmo de falar inglês. Meus avós compraram um apartamento perto do meu, e eu passava pela casa deles quase todo dia para bater papo e trocar risadas em volta da mesa de jantar, com meus pratos favoritos feitos em casa. A saudade de casa se acalmou rapidamente.

Depois de me formar em comunicações pela Universidade do Arizona, assinei um contrato de dois anos para jogar basquete profissional pela Itália. A profissionalização elevou meus treinos esportivos para todo um novo nível. Mais uma vez eu me dei bem no ambiente do time e curti viajar pela Europa, se bem que raramente tivéssemos a chance de conhecer mais que as quadras de basquete e os hotéis em que nos hospedávamos.

Quando meu contrato terminou, meu antigo treinador da Universidade do Arizona me incentivou a me candidatar a um emprego como Diretora de Operações do time de basquete feminino da Universidade Temple, em Filadélfia. Era um cargo desafiador, que exigia que eu administrasse muitos detalhes logísticos para que outras pessoas pudessem se concentrar em treinar a equipe para competições. Eu também organizava as viagens da equipe e a acompanhava a torneios, ao lado da equipe de apoio técnico.

Foi um emprego ótimo, mas depois de alguns anos resolvi buscar uma carreira nas artes curativas, minha outra paixão. Além disso eu queria trabalhar mais perto de minha cidade, para poder ficar perto de meus amigos e minha grande família.

Eu sabia quem eu era e gostava de quem eu era. Estava no auge da forma física e profissional. Tinha certeza que a base dada por meus estudos e meu treinamento esportivo me daria o apoio necessário para encarar quaisquer desafios pela frente.

Eu estava tão enganada. Na realidade, nada poderia ter me preparado para uma noite de janeiro de 2004, quando a vida como eu a conhecia parou de repente.

Eu acabara de dar aviso prévio de dois meses na Universidade Temple quando o homem que eu conhecia como mentor e amigo me drogou e me agrediu sexualmente. Em vez de conseguir correr, saltar e fazer praticamente qualquer coisa que eu quisesse fisicamente, durante a agressão eu estava paralisada, completamente impossibilitada de reagir. Não conseguia mover meus braços e pernas. Não conseguia falar nem sequer permanecer consciente. Eu fiquei totalmente vulnerável, incapaz de me proteger.

Depois da agressão, eu não tinha certeza do que acontecera realmente, mas a dor dizia tudo. O sentimento de vergonha era avassalador. A confusão e as dúvidas não me deixaram recorrer à minha família e amigos, como eu normalmente faria. Me senti totalmente sozinha, sem conseguir confiar em ninguém, nem sequer em mim mesma.

Consegui passar pelas semanas seguintes me concentrando totalmente sobre o trabalho. A equipe de basquete feminino estava no meio do torneio Atlantic 10 e estava viajando muito. Era uma fase de muito trabalho para mim, e isso ajudou a evitar pensar sobre o que tinha acontecido.

Mas quando o time não estava na estrada eu estava no departamento de basquete da universidade e tinha que interagir com Bill Cosby, que integrava o Conselho de Curadores. O som da voz dele ao telefone me parecia uma faca apunhalando meus intestinos. Quando eu via o homem que me havia drogado e atacado sexualmente entrar no escritório do departamento, ficava apavorada. Eu fazia tudo que o emprego exigia, mas ficava de cabeça para baixo, tentando passar despercebida e contando os dias até eu poder voltar ao Canadá. Pensava que depois que eu deixasse aquele lugar as coisas voltariam ao normal.

Em vez disso, a dor e angústia me acompanharam. Na casa dos meus pais, onde fui ficar até encontrar meu próprio lugar para morar, eu não conseguia conversar, comer, falar ou passar tempo com as outras pessoas. Em vez de me sentir menos sozinha por estar com minha família outra vez, eu me sentia mais isolada que nunca. Em vez do meu apetite grande, que já era legendário, e "perna oca" -- brincadeira que minha família sempre fazia comigo --, eu tinha dificuldade em comer e fui emagrecendo mais a cada semana. Sempre dormi muito bem, mas agora não conseguia dormir por mais de duas ou três horas. Me sentia exausta o tempo todo.

Aproveitei meus novos cursos como desculpas para fugir de reuniões de família e evitar sair com amigos. Para as outras pessoas, eu estava preocupada com meus estudos. Mas dentro de mim eu revolvia a verdade horrível do que me acontecera – atacada por um homem que minha família e meus amigos admiravam e respeitavam.

Foi quando os pesadelos começaram. Eu sonhava que outra mulher estava sendo atacada na minha frente e que era tudo minha culpa. No sonho, eu estava consumida pelo sentimento de culpa. Esse sentimento angustiante começou a me acompanhar também quando eu estava acordada. Comecei a sentir cada vez mais medo de que aquilo que tinha acontecido comigo se repetiria com outra pessoa. Eu ficava apavorada, temendo que já fosse tarde demais, que as agressões sexuais estavam continuando porque eu não havia denunciado o que me acontecera.

Um dia telefonei à minha mãe para lhe contar o que tinha acontecido comigo. Ela me ouvira gritar enquanto dormia. Ele não me deixou ficar quieta e insistiu que eu lhe contasse qual era o problema. Minha mãe não quis aceitar nada menos que uma explica completa e verdadeira.

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Quando denunciei a agressão à polícia Regional de Durham, em Toronto, o medo e a dor apenas se intensificaram. Me senti mais vulnerável e envergonhada que nunca. Quando o promotor do condado de Montgomery, perto de Filadélfia, resolveu não levar o caso a julgamento por falta de provas, ficamos sem qualquer senso de validação ou justiça. Depois de abrirmos um processo cível, a reação da equipe de advogados de Cosby foi imediata e furiosa. A intenção dos advogados foi me assustar e intimidar, e funcionou.

O bullying psicológico, emocional e financeiro incluiu uma campanha de difamação na mídia que deixou minha família inteira em choque, sem conseguir acreditar. Em lugar de ser elogiada como uma pessoa íntegra e honesta, me descreveram como golpista e interesseira, trapaceira e mentirosa patológica. Meus pais, pessoas de classe média que sempre trabalharam duro, foram acusados de tentar arrancar dinheiro de um homem rico e famoso.

Na deposição que fiz durante o processo cível, me obrigaram a reviver cada momento do ataque sexual em detalhes horrendos diante de Bill Cosby e seus advogados. Me senti traumatizada de novo e em vários momentos fiquei em lágrimas. Tive que ver Cosby fazer piadinhas e tentar degradar meu sentimento de vergonha e impotência. Ao final de cada dia eu me sentia emocionalmente exausta, esgotada.

Quando o processo foi encerrado com um acordo financeiro, um depoimento selado e um acordo de sigilo, pensei que finalmente, finalmente, eu conseguiria seguir adiante com minha vida, que aquele capítulo horrível de minha vida tinha finalmente sido fechado. Os mesmos sentimentos exatos me acompanharam nos dois julgamentos criminais. Os ataques ao meu caráter continuaram, extrapolados para fora da sala do tribunal – os esforços para me desacreditar e me retratar sob ótica falsa. Essa campanha de difamação me fez sofrer estresse e ansiedade insuperáveis que ainda me afetam hoje.

Eu ainda não sabia que a agressão sexual que eu sofrera tinha sido apenas a ponta do iceberg.

Mais de 60 outras mulheres agora já se identificaram como vítimas de agressão sexual cometida por Bill Cosby. Talvez nunca venhamos a conhecer toda a vida dupla de Cosby como predador sexual, mas seu reino de terror como estuprador serial chegou ao fim, depois de décadas.

Já me perguntei muitas vezes por que tive que suportar a carga de ser a única testemunha em dois processos criminais. A pressão foi enorme. Eu sabia que o modo como meus depoimentos fossem vistos – como eu mesma fosse vista – teria um impacto sobre cada jurado e sobre o bem-estar mental e emocional de todas as vítimas de ataque sexual anteriores a mim. Mas eu tive que depor. Foi a coisa certa a fazer, e eu queria fazer a coisa certa, apesar de ter sido a coisa mais difícil que já fiz na vida. Quando o primeiro julgamento foi anulado, não hesitei em me apresentar novamente.

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Hoje sei que sou uma das mulheres que teve sorte. Mesmo assim, quando o ataque sexual aconteceu eu era uma mulher jovem, cheia de autoconfiança e que via um futuro brilhante, cheio de possibilidades, se abrindo à minha frente. Hoje, quase 15 anos mais tarde, sou uma mulher de meia-idade que passou a maior parte de sua vida adulta emocionalmente paralisada, sem conseguir se curar plenamente ou superar o que lhe aconteceu.

Bill Cosby pegou meu espírito lindo, saudável e jovem e o esmagou. Ele me roubou minha saúde e vitalidade, minha natureza extrovertida, a confiança que eu sentia em mim mesma e nas outras pessoas.

Nunca me casei e não tenha companheira. Vivo sozinha. Meus cães são meus companheiros constantes, e meus melhores amigos são meus familiares imediatos.

Minha vida gira em torno de meu trabalho de massagista terapêutica. Muitos de meus clientes precisam de ajuda para reduzir os efeitos do estresse acumulado. Mas também estudei massagem médica no Centro Oncológico Memorial Sloan-Kettering, em Nova York, e frequentemente ajudo pacientes com câncer a lidar com os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia. Ajudo muitas outras pessoas também – pessoas com mal de Parkinson, artrite, diabetes e assim por diante. Alguns de meus clientes têm mais de 90 anos. Eu os ajudo a lidar com os problemas da velhice, incluindo dores e rigidez.

Gosto do meu trabalho. Gosto de saber que posso ajudar a aliviar a dor e o sofrimento de outros. Sei que isso também me ajuda a sarar.

Não jogo mais basquete, mas procuro me manter em forma. Pratico ioga e meditação. Quando faz calor, gosto de subir montanhas íngremes na minha bike.

Sinto que tudo isso é um passo no rumo certo: para me afastar de uma fase muito sombria e de muita solidão, na direção de voltar a ser a pessoa que eu era antes de tudo isso acontecer.

Em lugar de olhar para o passado, estou olhando para o futuro. Quero chegar ao lugar onde a pessoa que eu deveria ter sido ganha uma segunda chance.

Sei que ainda preciso crescer mais.

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Quero agradecer a algumas das pessoas que me ajudaram a chegar onde estou hoje. Sempre serei grata por seus conselhos, sua amizade e seu apoio.

Em primeiro lugar, a minhas advogadas, Dolores Troiani e Bibi Kivitz. Essas duas mulheres inteligentes e corajosas me apoiaram desde o início. Sem elas eu jamais teria conseguido me deslocar por esse campo minado legal e emocional.

Também serei eternamente grata a Kevin Steele, o promotor distrital do condado de Montgomery, que teve a coragem de acreditar em mim e na verdade e de confiar que o sistema de justiça poderia acertar – mesmo que o processo tenha tido que ser repetido.

Também quero agradecer à equipe incrível de profissionais que trabalham com Steele, incluindo os promotores assistentes Kristen Feden e Stewart Ryan, os detetives Richard Shchaffer, Mike Shade, Harry Hall, Jim Reape, Erin Slight e Kiersten McDonald, os serviços de atendimento a vítimas e muitos outros por sua paixão pela justiça, sua habilidade e seu trabalho árduo e perseverança, apesar de todos os obstáculos.

Agradeço aos jurados por cumprirem seu dever cívico e fazerem grandes sacrifícios.

Agradeço a todos os amigos, velhos e novos, que ficaram ao meu lado. Vocês sabem quem são, e cada um de vocês fez uma diferença imensa para mim. Saibam disso.

Para concluir, mas não que isso seja menos importante, quero agradecer à minha família maravilhosa: minha mãe, Gianna, meu pai, Andrew, minha irmã Diana, o marido dela, Stuart, e as lindas filhas deles, minhas sobrinhas Andrea e Melanie. Obrigada por provarem para mim tantas vezes que, se existe uma coisa na vida com que sempre podemos contar, é a família.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.