MULHERES
25/09/2018 11:25 -03 | Atualizado 25/09/2018 11:33 -03

O embranquecimento de Naomi Osaka

A identidade birracial da tenista campeã do U.S. Open é inconveniente para uma narrativa racista que converte Serena Williams em um estereótipo.

Tim Clayton - Corbis via Getty Images

Eles não sabem o que fazer com Naomi Osaka.

Num cartum que desenhou para o jornal australiano Herald Sun no dia 10 de setembro, o ilustrador Mark Knight retratou a tenista Serena Williams na final do torneio U.S. Open. É uma caricatura racista clássica: Williams aparece como uma figura disforme e grandona, com cabelos desgrenhados e lábios grossos, lembrando os estereótipos da mammy (babá ou empregada negra no sul dos EUA que cuidava de crianças brancas)ou do minstrel (artistas dos minstrel shows, espetáculos teatrais americanos no século 19 e início do século 20 em que artistas brancos se maquiavam de negros de modo caricata).

Atrás de Williams vemos sua adversária na quadra, Naomi Osaka. A aparência dela foi reduzida às suas características mais básicas de mínimo denominador comum: pele clara, corpo esbelto, cabelos loiros. É como se ela fosse uma Maria Sharapova.

As caricaturas são feitas para distorcer e exagerar. Isso faz parte de sua própria natureza. Mas também são feitas para ser simbólicas e representativas, para simbolizarem um conceito ou ideia.

A narrativa aqui é clara: Serena Williams é mostrada como mulher negra grandona, feia, enfurecida. Contrastando com isso, Naomi Osaka é retratada como uma garota branca inocente, apesar de ela nem sequer ser branca.

("Não teve nada a ver com gênero ou raça."

O Herald Sun apoia o cartum de Mark Knight sobre Serena Williams)

Muitos fãs do tênis ressaltaram que a atitude mesquinha do árbitro da partida, Carlos Ramos, impediu Williams e Osaka de disputarem uma partida que, sem ele, teria sido muito menos polêmica. Mas Osaka foi privada de outra coisa: sua independência, sua identidade, sua história, sua negritude.

Em entrevistas, Osaka tem feito questão de abraçar sua origem tanto asiática quanto negra, admitindo que, embora represente o Japão em eventos esportivos, ela não se identifica unicamente como japonesa. Ela se orgulha de reivindicar seu lado haitiano.

Mas a identidade birracial da tenista é inconveniente para uma narrativa racista que converte Serena Williams em um estereótipo. É mais prático focar coisas sobre Osaka que não são estereotipicamente negras: sua pele mais clara, sua fala suave e discreta, o modo como ela pediu desculpas e chorou depois de vencer a partida. Desse modo, Naomi Osaka é retratada, se não como mulher branca, pelo menos como uma versão mais aceitável e palatável de negra – como o tipo de pessoa negra que não obriga você a reconhecer sua negritude.

Desse modo, Naomi Osaka é retratada, se não como mulher branca, pelo menos como uma versão mais aceitável e palatável de negra.

Mas há duas narrativas em jogo aqui, na realidade. Há aquela na qual Osaka é reduzida a uma vítima silenciosa e silenciada; chorosa; não totalmente branca, mas tampouco negra. Repórteres perguntaram a ela se o "comportamento" de Serena Williams a levou a perder respeito por sua adversária, reforçando estereótipos codificados que têm tudo a ver com discriminação de cor, mitos sobre minorias modelo e o ódio implícito da sociedade por mulheres negras como Serena Williams.

E há uma narrativa contrária, bem intencionada, que mostra Serena Williams como militante feminista que luta pelos direitos das mulheres e contra a disparidade de padrões em um esporte que sem dúvida alguma a tratou injustamente no passado em função de sua raça e seu gênero.

No caso de sua partida contra Osaka no sábado, 8 de setembro, as ações de Williams, o modo como ela quebrou sua raquete, como ela exigiu respeito do árbitro, tudo isso serve para lembrar às pessoas de todas as vezes que ela foi forçada a sorrir e ranger os dentes diante de regulamentos arbitrários de vestuário, testes antidoping aleatórios frequentes e vaias e xingamentos racistas vindos de determinadas plateias do tênis.

Nesse processo se perpetuam premissas racistas e sexistas e privamos as pessoas de seu direito de serem fracas e também fortes.

Eu também tenho dificuldade em aceitar essa narrativa, porque, apesar de ser importante e válida sob muitos aspectos, é uma simplificação excessiva do que aconteceu naquela partida.

Porque o que aconteceu naquela partida não foi apenas político. Foi algo profundamente pessoal. Foi um drama humano encenado diante de milhões de pessoas. Foi maior do que quaisquer narrativas que queiramos lhe impor. O cartum, as manchetes, tudo isso assinala a incapacidade constante e coletiva da sociedade de enxergar mulheres negras como seres complexos e capazes de exprimir uma multidão de emoções, da raiva à alegria e ao desespero. Ou de permitir que duas mulheres negras tentem alcançar a excelência ao mesmo tempo.

O cartum de Mike Knight é o que acontece quando achatamos seres humanos inteiros e os convertemos em tipos, quando a história e sua narrativa ganham precedência sobre as nuances. Nesse processo se perpetuam premissas racistas e sexistas e privamos as pessoas de seu direito de serem fracas e também fortes, as privamos da totalidade de sua humanidade.

Do mesmo modo, Naomi Osaka é mais do que apenas japonesa, do que apenas alguém que chorou e pediu desculpas.

A verdade é a seguinte: duas tenistas talentosas – uma delas negra, a outra japonesa e negra – disputaram uma partida de tênis carregada de emoção, e essas emoções extravasaram por toda uma série de razões.

Mas não foi uma questão de vilã e vítima, bem ou mal, branco ou negro. Serena Williams é um ícone e uma lenda. E também é um ser humano falível e inteiro. Do mesmo modo, Naomi Osaka é mais do que apenas japonesa, do que apenas alguém que chorou e pediu desculpas. Ela é uma competidora ferrenha que tem uma história pessoal só dela. Não é um símbolo de negritude aceitável que possa ser usado como arma contra Williams.

De fato, Naomi Osaka é muitas coisas, mas talvez o mais importante seja como ela própria se enxerga, especialmente nas quadras:

"Sou uma tenista jogando contra outra tenista", explicou Osaka depois de receber seu troféu.

Seria bom se Mike Knight e todas as outras pessoas que vão tentar enquadrar nossa percepção dessa partida de tênis no futuro se recordassem disso.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.