26/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 26/09/2018 10:07 -03

Mulher, indígena e comunicadora: O sonho de Kayna Munduruku

Ela aprendeu a ler e escrever aos 35 anos e sonha em ser a 1ª mulher indígena a apresentar um jornal no Amazonas. "Quero aparecer na tela com as pinturas, adereços, quero mostrar meu povo".

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Kayna Mundukuru é a entrevistada 203ª do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Pintar o rosto, ostentar brincos, colares e outros adereços indígenas, andar de pés descalços pela Praça de São Sebastião, tocar chocalho, cantar e apreciar a vista do Teatro Amazonas, localizado no coração de Manaus (AM). É assim que a assessora de comunicação da Fundação Estadual do Índio (FEI), Kayna Munduruku, 40 anos, se revela como mulher indígena que lutou pra ter vez e voz para trazer informação para dentro e fora das aldeias na Amazônia. "Se a mulher da cidade já tinha dificuldades para conquistar o seu espaço, imagine uma indígena. Me tornar porta voz do meu povo virou um sonho que eu tive o privilégio de realizar", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

O primeiro contato de Kayna com a divulgação e produção de conteúdo noticioso foi em 2016, quando criou o grupo de Whatsapp com nome "Rádio Tribos do Norte". Nele, adicionou 15 representantes de etnias indígenas diferentes, com o objetivo de difundir informação entre eles de uma forma democrática. "Gravei o primeiro áudio, chamando-os de 'meu povo lindo' e todos ficaram maravilhados. Coloquei música de fundo e a maioria – quase que simultaneamente - começou a enviar contatos para eu adicionar. Em 10 minutos lotou e hoje, dois anos depois, o grupo tem mais de 500 pessoas."

Os líderes indígenas e a imprensa hoje me procuram para fazer divulgações. Eu, uma mulher indígena! Estou vivendo um sonho.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 35 anos, ela decidiu que queria aprender a ler e a escrever.

Pelo menos uma vez por dia ela envia áudios com até 2 minutos de duração, em que divulga notícias de interesse de seu povo. Entre suas pautas estão informativos sobre assembleias em aldeias, decisões políticas que afetam diretamente as comunidades e, também, programações culturais. Mas ainda hoje nem todos da aldeia tem acesso à internet, ainda mais quem mora muito distante da cidade grande. Mas sempre há um jeito: "Os parentes que vivem em lugares que não têm internet enviam um membro da família para a capital, que acessa internet daqui. Ele baixa todos os áudios no celular, ou dispositivo que tiver, e leva para aldeia". Dessa forma, ela consegue enaltecer sua origem e ainda levar informação às aldeias.

Mas é preciso fazer uma visita ao passado. Chegar até aqui e ter um encontro verdadeiro com o poder de transformação da comunicação não foi fácil. Kayna enfrentou um longo caminho de conflitos, preconceitos e violências em sua trajetória. E tudo isso começou quando, aos 10 anos, viu sua aldeia sofrer ao ser obrigada a deixar a região de Manicoré, a cerca de 600 km de Manaus. O motivo? Uma invasão de garimpeiros contaminou a água da região e provocou doenças e infecções na tribo.

As origens de Kayna

O nome "munduruku" significa "formigas vermelhas" e é uma referência aos ataques que a tribo costumava realizar para proteger a floresta no passado. Povo de tradição guerreira, no passado, os Munduruku dominavam culturalmente a região do Vale do Tapajós, que nos primeiros tempos de contato e durante o século XIX era conhecida como Mundurukânia.

Hoje, suas guerras contemporâneas estão voltadas para garantir a integridade de seu território -- que fica entre localizações diferentes nos estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso -- ameaçado pelas pressões das atividades ilegais dos garimpos de ouro, pelos projetos hidrelétricos e a construção de uma grande hidrovia no Tapajós.

O último censo da Fundação Nacional de Saúde, em 2010, revelou que a população munduruku ultrapassou a marca de 11 mil e 630 índios distribuídos em trinta aldeias no Pará, Amazonas e Mato Grosso.

E foi à força e sem vontade própria que Kayna deixou suas origens e a família - que se mudou para outro território próximo da mesma mata - para ser engolida pelos ventos da cidade grande. Sem saber ler e nem escrever, ela chegou a trabalhar como doméstica em troca de moradia durante sua adolescência e conta que estranhou a indiferença das pessoas. Chegou a se sentir invisível. "Parecia que ninguém me via", conta. Com a sensação de invisibilidade constante, ela conta que foi justamente na cidade que imaginou construir uma nova história que sofreu mais. Aos 16 anos, ela foi estuprada, engravidou e, diante de muito sofrimento, escolheu fazer um aborto. "Não podia conceber um filho de um estuprador. Fiquei anos pensando no que tinha acontecido", conta, ao falar do trauma que lutou, sozinha, para superar. "Não conseguia esboçar um sorriso e não permitia ninguém me tocar. Precisei me reencontrar como mulher".

Não conseguia esboçar um sorriso e não permitia ninguém me tocar. Precisei me reencontrar como mulher.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Kayna enfrentou um longo caminho de conflitos, preconceitos e violências em sua trajetória. Mas resistiu e resiste, até hoje.

Traumatizada e sem qualquer acompanhamento psicológico, Kayna precisou continuar trabalhando como doméstica em Manaus. Até o dia em que recebeu uma proposta para trabalhar com a mesma coisa no Rio de Janeiro. Com a esperança de que teria novos horizontes, ela foi para a cidade maravilhosa sem olhar para trás. Lá, ela abraçou novas possibilidades, esperando não passar necessidade. Ela chegou a ser abordada por "olheiros" de agências de modelo e estampou catálogos de cosméticos e semi-jóias. "Trabalhei 6 meses com isso sem ganhar um centavo, acredita?", lembra.

Além de ser mulher, era indígena em adaptação na cidade. Parecia uma boa oportunidade para eles, não pra mim.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Pelo menos uma vez por dia ela envia áudios com até 2 minutos de duração, em que divulga notícias de interesse de seu povo.

Mas foi em uma festa na praia de Botafogo que vida de Kayna tomou outro rumo. Lá, conheceu um cantor de forró, que se encantou por ela: "Ele me viu dançar e me chamou para um ensaio. Acabei entrando para banda. Eu dançava e fazia a segunda voz". Foi nesse mesmo local que conheceu seu namorado da época. Ele, brasileiro que trabalhava com turismo em Portugal, quis levar Kayna com ele. E ela foi. Mas as lembranças desse período não são de saudade. "O início do relacionamento foi maravilhoso. Mas depois foi ficando bem estranho. Ele me agredia do nada, sem eu ter feito nada. Ele que escolhia minha roupa, fazia quase tudo por mim", lembra. Ela manteve o relacionamento por alguns anos, já que o medo de ficar sozinha e não conseguir sobreviver fora do Brasil a assombrava.

Achava que não teria a menor chance por ter vindo da selva amazônica, sem preparo. Mas me escolheram.

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É dessa forma que ela tem conseguido levar informação às comunidades indígenas mais remotas. E ela quer ir além.

Com ânsia de mudança e de sair daquela relação violenta, Kayna -- que já tinha certa experiência -- participou de uma seletiva para dançarinos e segunda voz só que, dessa vez, na Espanha. "Foi uma luz no fim do túnel. Eles me pagavam uma média de 300 euros por apresentação". Nessa época, ela tinha se mudado para o país, novamente acompanhando o ex-namorado. Para ela, ter uma renda fixa e um trabalho, foi essencial -- mas não o suficiente -- para que ela enxergasse novas possibilidades e se distanciasse dos abusos físicos e psicológicos que sofreu. "Cheguei ao extremo! Misturei veneno de rato, remédios e bebida alcoólica. Queria dar um fim para tudo que estava vivendo. Mas fui socorrida a tempo".

Como consequência, Kayna perdeu a voz e teve um problema sério no joelho que a impediu de voltar para os palcos. Ela saiu do hospital sem esperança ou qualquer ajuda psicológica. Ainda assim, continuou sofrendo agressões."Eu, realmente, não sabia o que fazer e ainda era muito dependente dele". Um tempo depois, já recuperada, ela voltou para Portugal. Aberta a novas possibilidades, conheceu um outro rapaz por intermédio de uma amiga, mas teve outra decepção. "A mulher dele pegou uma mensagem minha no celular dele. Ela me ligou dizendo que ele era casado e pai de 2 filhos". Kayna, então, foi violentada novamente por outro homem.

Descobri que estava me rejeitando como indígena esse tempo todo. Reencontrei o meu valor e vi que precisava ter orgulho das minhas raízes.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Quero aparecer na tela com as pinturas no rosto, meus adereços, quero mostrar meu povo."

Foi aí que, ao procurar a polícia portuguesa, foi surpreendida com a notícia de que ela precisaria voltar imediatamente ao Brasil: Kayna estava morando ilegalmente no País. "A Amazônia inteira passou pela minha cabeça como um filme quando me renderam. Eu me vi dona da selva, da floresta e não aceitava ter sido presa no país em que homens me agrediram. Descobri que estava me rejeitando como indígena esse tempo todo. Reencontrei o meu valor e vi que precisava ter orgulho das minhas raízes", conta.

De volta ao Brasil, ela passou um tempo em aldeias de Brasília (DF) e depois retornou para Manaus. Foi assim, aos poucos, que reencontrou suas raízes, e buscou se reconectar com o equilíbrio espiritual e emocional que haviam retirado dela. E começou a se movimentar: "Trabalhei na loja de utilidades da minha irmã que não tinha contato na aldeia. Ela foi criada em uma comunidade de ribeirinhos e veio mais cedo para cidade e se estabeleceu lá. No caixa, eu tinha que fazer cálculo, escrever, ler e tinha dificuldades, não conseguia. Foi aí que eu quis ser alfabetizada".

Ser mulher e indígena nunca foi fácil. O esforço dobra para você conseguir espaço. Tive que vencer várias etapas para ter oportunidade.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Ser mulher e indígena nunca foi fácil."

Foi então que Kayna, já aos 35 anos, foi aprender a ler e a escrever. "Na aldeia, uma prima que frequentava a cidade me ensinou a escrever a ler e escrever o básico. Não tinha papel e nem lápis, eu desenhava as letras na terra com os dedos", lembra. Determinada, ela se matriculou no Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos (PAJA). Lá, aprendeu a escrever e legitimar o próprio nome. Mais tarde, matriculou-se em um supletivo de Ensino Fundamental e Médio. Queria se profissionalizar e já tinha uma área do conhecimento definida: seu sonho era trabalhar com comunicação. Ela conta que, desde que saiu da aldeia, aos 10 anos, sempre teve vontade de ouvir a própria voz sendo transmitida pelas ondas do rádio. "A primeira coisa diferente que eu vi de fora da aldeia foi um rádio de pilha. Fiquei encantada com a voz, as músicas. Senti que teria que fazer comunicação", conta, saudosa, ao lembrar do passado.

E foi em janeiro de 2018 que, já formada no supletivo, Kayna se matriculou no Curso Técnico de Rádio, TV e Internet, na Fundação Rede Amazônica. Quer aprender tudo não só para realizar seu grande sonho, mas também para passar todo o conhecimento adquirido a outros indígenas: "Quero preparar uma aldeia inteira para fazer reportagens. Qualquer índio que saiba se comunicar bem pode ser um repórter", afirma, com a esperança de quem transforma comunicação em ferramenta de cidadania.

Muitos diriam que Kayna não chegaria até aqui. Após sofrer um histórico de violências -- desde o momento em que foi retirada a força de sua aldeia até ser deportada de Portugal -- ela superou o caminho que outros haviam traçado para ela. Não é vítima, mas protagonista de sua própria história. Hoje, além de atuar no setor de comunicação da Fundação Estadual do Índio (FEI) ela gerencia o site da organização e também as redes sociais. Ela também é a responsável por marcar entrevistas, coletivas de imprensa e coordena o setor de comunicação na instituição como um todo.

Mas essa é só uma parte do trabalho que ela exerce no mundo. Kayna treina as técnicas de Rádio e TV em um canal no youtube, que leva seu nome. Ela, junto de seu microfone, faz vídeos igualmente informativos sobre a agenda da cidade e faz questão de começar cada um deles com "olá, meu povo lindo", assim como faz nos boletins enviados pelo grupo de whatsapp. "O reconhecimento de que me escuta ou me assiste é a melhor parte de tudo. Hoje me sinto uma representante de verdade! Eles sabem que posso lutar pelos nossos direitos. Isso não tem preço", disse com um suspiro forte de alívio e orgulho.

É dessa forma que ela tem conseguido levar informação às comunidades indígenas mais remotas. E ela quer ir além. "Quero ser a primeira indígena a apresentar um telejornal ou um programa no Amazonas. Quero aparecer na tela com as pinturas no rosto, meus adereços, quero mostrar meu povo".

E, de certa forma, ela já conseguiu honrar seu povo. E mantêm viva suas origens.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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