POLÍTICA
26/09/2018 08:40 -03 | Atualizado 26/09/2018 14:08 -03

Ana Amélia: 'Não podemos viver a Dilma 2 com Haddad, nem apostar no desconhecido'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, vice de Alckmin diz que o PT alimentou a intolerância e que o "Brasil precisa se reencontrar".

Reuters
Senadora Ana Amélia diz que decisão sobre ser vice de Alckmin foi

Alinhada com a estratégia tucana de desconstruir o candidato Jair Bolsonaro (PSL) ao mesmo tempo em que ataca o PT, a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB), afirma que o Brasil está dividido entre dois extremos e que é preciso levar informação para o eleitor.

"Não dá para brigar com a lógica do eleitor, você precisa convencê-lo e dar informações para evitar que ele, por desinformação, faça uma escolha que vá prejudicar o País amanhã", disse em entrevista ao HuffPost Brasil.

Apesar do apoio de 8 partidos do chamado centrão e de uma fatia generosa do tempo de TV no horário eleitoral, Alckmin ainda não decolou.

A 12 dias do primeiro turno, o tucano está em quarto lugar na preferência do eleitorado, com 8% das intenções de voto, segundo pesquisa Ibope divulgada nesta segunda-feira (24). Bolsonaro, de quem a chapa ainda acredita que herdará votos, se mantém na liderança, seguido por Fernando Haddad (PT).

Nesta entrevista, Ana Amélia diz que aceitar o convite para compor a chapa foi "a decisão mais difícil" de sua vida, visto que abriu mão de uma reeleição quase garantida no Senado para se lançar a um desafio "de resultados incertos". A senadora gaúcha, que durante muitos anos trabalhou como jornalista, também fala de sua relação com o agronegócio e assegura que, se eleita com Alckmin, vai trabalhar pelo empoderamento das mulheres no Poder Executivo.

Leia os principais trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: Por que a senhora aceitou ser vice do Alckmin e como vai contribuir em um eventual governo?

Ana Amélia Lemos: Foi a decisão mais difícil da minha vida. Eu tive que decidir em 24 horas, e abri mão de uma eleição que estava bem encaminhada, com um mandato de 8 anos [reeleição no Senado], para um mandato de 4 anos de resultados incertos.

Mas eu, diante do desafio, não pude deixar de dar uma contribuição, mesmo que modesta, para integrar a chapa do Alckmin, na certeza de que o Brasil precisa se reencontrar. O País está radicalizado, com posições extremas de um lado e de outro, e isso não é bom.

Foi alimentada uma cultura da intolerância, do ódio, das frustrações, e eu penso que o melhor caminho hoje é o respeito às diversidades, sejam elas religiosas, partidárias, de gênero, racial.

Nós vivemos em um País onde a violência contra as mulheres é muito elevada, os índices são vergonhosos. E o Brasil é tido como o país da cordialidade, da hospitalidade e da solidariedade. A sociedade brasileira é vista assim, então é contraditório que essa violência contra as mulheres tenha aumentado e chegado a níveis alarmantes.

Nós temos leis protetivas, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, mas elas não foram capazes de alterar esses índices porque a violência é fruto de uma cultura, uma cultura machista nas relações humanas, que ocorre na maioria das vezes dentro de casa.

Evaristo Sa/AFP/Getty Images
Ana Amélia e Geraldo Alckmin na convenção do PSDB que lançou a chapa, em 4 de agosto.

O papel da senhora em um eventual governo seria na área de políticas para as mulheres?

E também trabalhar pelo empoderamento das mulheres no governo. No ranking de presença feminina [no Poder Executivo] da ONU, de mulheres em cargos ministeriais, o Brasil ocupou a 161ª posição.

Na política não é muito diferente. As mulheres representam apenas 11% do Congresso Nacional. E agora temo que a representação feminina vá reduzir ainda mais no Senado. Então é uma situação bastante complicada que nós temos pela frente.

Há um dado positivo, no meu entendimento. Nós tínhamos há pouco mulheres na presidência do Supremo [Cármen Lúcia] e do STJ [Laurita Vaz], a Procuradora-Geral da República é uma mulher [Raquel Dodge] e a Advogada-Geral da União também é mulher [Grace Mendonça]. São cargos muito especiais.

No início desta entrevista, a senhora disse que uma cultura de intolerância foi estimulada no País. Atribui isso a algum partido ou alguém específico?

Eu acho que o PT, ao longo dos 13 anos em que governou, estabelecendo aquela filosofia do "nós" e "eles", considerando-se como povo e o resto como elite, acabou fomentando uma intolerância nas relações interpessoais e políticas.

Isso foi, evidentemente, acirrado com o processo de impeachment e também com a situação que o partido viveu, o que levou ao recrudescimento de uma visão antagônica a essa visão desenvolvida pelo PT, penso eu. E o quadro que nós temos agora no nosso horizonte é esse, de um extremo ao outro.

O outro extremo é o candidato Jair Bolsonaro, que também é bastante criticado pelo Alckmin. Quando a senhora foi anunciada como vice, alguns disseram que seu nome era um aceno aos conservadores, um aceno mais à direita.

A ideia era trazer uma mulher, porque a maior parte do eleitorado brasileiro hoje é composto por mulher. E ele trouxe uma mulher que sempre defendeu o setor agropecuário, onde muitos agora apoiam o candidato citado por você.

Eu sempre fui defensora do campo, bem antes de toda essa celeuma. Sempre defendi que os agricultores, que estão relegados à própria sorte, tenham o direito de ter uma arma na sua propriedade rural. Achar que zona urbana e zona rural são a mesma coisa é um grande equívoco e uma injustiça, porque esses agricultores, homens e mulheres e os próprios trabalhadores da área rural, estão isolados, sozinhos, às vezes na área em que estão não há sequer serviço de telefonia.

Como presidente da Comissão de Agricultura do Senado Federal, eu debati, em abril deste ano, exatamente o aumento da violência na área rural e esse dilema dos agricultores. A violência é de toda ordem, seja por invasão, roubo de gado ou de suprimentos agrícolas, e, mais grave ainda, crimes de lesão corporal e homicídio, praticados por bandidos que avançaram da zona urbana para a zona rural.

Nesse sentido, e por estar muito vinculada à defesa da agropecuária brasileira, talvez por isso me identifiquem como uma companheira para o Alckmin que pudesse eventualmente representar esse segmento.

O eleitor às vezes tem razões que a razão desconhece. Então não dá para brigar com a lógica do eleitor, você precisa convencê-lo e dar informações para evitar que ele, por desinformação, faça uma escolha que vá prejudicar o País amanhã.

A senhora é a favor de flexibilizar o Estatuto do Desarmamento apenas na zona rural?

Sim, apenas na zona rural. Desde sempre eu defendi isso e sou coerente com a minha palavra.

E desde sempre eu defendi também a redução da maioridade penal para 16 anos. Um jovem que tem título de eleitor e sabe escolher o presidente da República tem a noção exata do que está fazendo quando pratica qualquer ato.

As pesquisas mostram Alckmin com um desempenho aquém do esperado. Qual é a estratégia para reverter esse quadro a poucos dias do primeiro turno?

Uma ação integrada, primeiro com viagens. Vamos também tentar buscar essa reflexão do eleitorado e dos formadores de opinião sobre o que será decidido no dia 7 de outubro: viver a "Dilma 2" com o Haddad ou fazer uma aposta no desconhecido, [escolhendo] um parlamentar com 27 anos de mandato e sem experiência administrativa, considerando os gravíssimos dilemas e desafios que têm o País a enfrentar a partir de 2019.

O Alckmin diz que apenas o PT já está garantido no segundo turno, e a estratégia da campanha de vocês tem sido tentar conquistar esses votos que seriam do Bolsonaro. É possível ganhar esses votos?

Eu não sou especialista em eleitor. Eu trabalho para tentar convencê-los de que a proposta que o Alckmin tem é consistente como plano de governo, de um político que governou o maior estado do País. São Paulo tem uma infraestrutura que, comparada aos demais estados brasileiros, é elogiável. Não só em infraestrutura viária e modais de transporte, mas especialmente em setores estratégicos como saúde pública.

Na educação, mesmo que o Ideb [Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico] tenha regredido, os índices são apreciáveis. E também foi feito o esforço de valorização dos professores.

E segurança pública é nevrálgico. O estado do Rio está sob intervenção federal por conta da segurança pública, e São Paulo reduziu roubos, homicídios, reduziu todos os indicadores de violência. As polícias foram equipadas, a tropa foi aumentada, várias ações na área da segurança pública tiveram efeito muito significativo em São Paulo.

Como é a sua relação com o Alckmin. Vocês já eram próximos de alguma forma?

Não, não tinha uma relação pessoal. Eu era jornalista quando ele foi candidato em 2006, eu o entrevistava no Rio Grande do Sul.

Impressiona muito a desconcertante serenidade. O Alckmin é de uma serenidade muito grande, acho isso importante nos dias de hoje para um político.

Ele também estuda muito. Quando estamos viajando, em viagens para o interior, ele aproveita e lê tudo, pilhas e pilhas de documentos. É uma pessoa concentrada no que está fazendo.