MULHERES
26/09/2018 00:00 -03

4 mulheres que foram pioneiras na construção da política brasileira

As mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e o voto delas pode mudar os rumos de uma eleição. 👊

Em meio a um Congresso majoritariamente masculino, Carlota Pereira de Queirós foi a primeira deputada federal da América Latina.
Arquivo/Congresso em Foco
Em meio a um Congresso majoritariamente masculino, Carlota Pereira de Queirós foi a primeira deputada federal da América Latina.

As mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e o voto delas pode mudar os rumos de uma eleição. Mas as brasileiras garantiram o direito de votar e de serem votadas há menos de 100 anos no País, a primeira prefeita foi eleita em 1928 e, em 1933, a 1ª deputada federal. Mulheres são maioria dos eleitores desde 2000, mas a participação feminina no Legislativo não chega a ser mais de 10%.

    O movimento pelo voto feminino tomou forma e ganhou força no início do século 20. O primeiro partido feminino foi fundado em 1910, por Leolinda de Figueiredo Daltro. Nos anos seguintes, Bertha Lutz, bióloga e feminista, se consolidou como uma das principais líderes feministas do País, pioneira na luta pelo direito ao voto e pela igualdade entre homens e mulheres.

    A conquista do sufrágio feminino aconteceu em 1932, com o Código Eleitoral elaborado durante o governo do então presidente Getulio Vargas. A vitória foi alcançada depois de anos de mobilização de mulheres, que se organizaram na luta pelos seus direitos políticos e pelo respeito à sua cidadania, antes da proclamação da República.

    Em 1927, o estado do Rio Grande do Norte foi o primeiro a conceder às mulheres o direito ao voto e, no ano seguinte, a primeira prefeita da América Latina, Alzira Soriano. Carlota Pereira de Queiroz, foi a única mulher na Assembleia Constituinte e a primeira mulher a se eleger deputada federal no Brasil em 1934. No ano seguinte, Antonieta de Barros, foi primeira parlamentar negra do Brasil, eleita em Santa Catarina.

    No livro Mulher no poder: trajetórias na política a partir da luta das sufragistas no Brasil (Edições de Janeiro, 2015), Schuma Schumaher e Antonia Ceva contam a história dessas e de outras mulheres que abriram os caminhos para a representação feminina nos espaços de poder.

    Conheça algumas dessas trajetórias inspiradoras:

    Bertha Lutz, lutou pelo sufrágio feminino no Brasil

    Autor desconhecido/Arquivo Nacional
    1956: Bertha Lutz discursa no encerramento da XI Assembleia da Comissão Interamericana de Mulheres, em Trujillo, República Dominicana.

    Foi na Europa, enquanto concluía seus estudos, que a paulistana Bertha Luz entrou em contato com com o movimento sufragista, que explodia na Inglaterra em 1918. No seu retorno ao Brasil, naquele mesmo ano, Bertha passou a trabalhar como bióloga no Museu Nacional e se lançou na luta pelos direitos políticos das mulheres nas eleições e na carreira pública. Alguns anos depois, após participar de uma conferência nos Estados Unidos, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e durante duas décadas se dedicou à liderança da entidade.

    Uma constituição não deve ser uma camisa de força, nem o espelho de um momento que procura perpetuar a imagem das paixões transitórias e de teorias evanescentes.Bertha Lutz, em 1933.

    Após a mobilização e a conquista do direito ao voto, Bertha se lançou na batalha para eleger mulheres. Foi candidata à Assembleia Nacional Constituinte pelo Partido Autonomista, mas uma forte campanha de difamação impediu sua eleição. A feminista chegou a assumir um cargo na Câmara Federal em 1936. Como deputada, propôs projetos como a criação da licença-maternidade e o Estatuto da Mulher. Bertha continuou participando de ações políticas e encontros feministas até muito perto da sua morte. Sua última missão em defesa das mulheres foi no Congresso Internacional da Mulher da ONU, em 1975. Ela morreu no ano seguinte, aos 82 anos, no Rio de Janeiro.

    Luíza Alzira Soriano Teixeira, a 1ª prefeita da América Latina

    Autor desconhecido/Arquivo Nacional
    Posse de Alzira Soriano, em 1929.

    O primeiro estado brasileiro a garantir às mulheres o direito ao voto foi o Rio Grande do Norte, em 1927. Foi lá, no ano seguinte, há 90 anos, que a professora potiguar, do Partido Republicano (PR), Alzira Soriano, se tornou a primeira mulher eleita para assumir uma prefeitura no Brasil. O fato também era inédito na América Latina. Ela oi eleita prefeita de Lajes (RN), com 60% votos.

    Alzira foi escolhida como candidata para representar o movimento feminista nas eleições, liderado por Bertha Lutz. A campanha em 1928 foi marcada por difamações, calúnias e ofensas públicas a candidata. Mas Alzira não se intimidou e foi eleita, aos 32 anos de idade, prefeita da cidade de Lajes, com 60% dos votos. Seu governo, no entanto, só durou dois anos. No curto período, comandou um gabinete formado apenas por homens. Pioneira, Alzira se aproximou da política e dos ideais de emancipação das mulheres por influência do pai, Miguel Teixeira, que era um líder político na região.

    O mandato foi interrompido pela Revolução de 1930. O presidente Getúlio Vargas chegou a convidá-la para permanecer como interventora municipal, mas ela recusou por não considerar o cargo compatível com seus ideais democráticos. Após a redemocratização, Alzira chegou se eleger vereadora da cidade algumas vezes. Ela morreu em 1963, aos 66 anos.

    Antonieta de Barros, a 1ª deputada negra do Brasil

    Reprodução/YouTube
    Antonieta de Barros foi a primeira deputada estadual negra do País.

    Nascida em 1910, filha de escrava liberta e de origem humilde, Antonieta de Barros quebrou inúmeras barreiras em uma sociedade extremamente machista, racista e conservadora. Em Florianópolis, Santa Catarina, ela fundou o próprio curso de alfabetização, voltado para a população pobre, e o próprio jornal. Em suas crônicas, escrevia sobre educação, política, racismos e a condição das mulheres nas sociedade.

    Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes.Antonieta de Barros.

    Na década de 30 começou a dialogar com Bertha Lutz e as feministas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Em 1934, na primeira eleição após a conquista do voto, se candidatou à Assembleia Legislativa pelo Partido Liberal Catarinense, elegendo-se a primeira deputada estadual do estado e a primeira deputada negra do Brasil. Depois da redemocratização, em 1945, voltou à política institucional.

    Durante seus mandatos, dedicou-se aos projetos relacionados ao magistério. Em seus discursos, enaltecia a importância da educação para o futuro do País. "Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços", dizia.

    Carlota Pereira de Queirós: A 1ª deputada federal da Am. Latina

    Arquivo/Congresso em Foco
    Em meio a um Congresso majoritariamente branco e masculino, existe a presença de Carlota.

    A médica paulista Carlota Pereira de Queirós começou sua atuação política durante a Revolução Constitucionalista, em 1932, quando o estado de São Paulo se mobilizou contra o governo provisório de Getulio Vargas. Ela organizou, à frente de 700 mulheres, a assistência aos feridos nos conflitos.

    Sua atuação lhe rendeu notoriedade e ela foi a única mulher eleita para compor a Assembleia Nacional Constituinte de 1934. Carlota integrou a Comissão de Saúde e Educação da Constituinte e trabalhou em prol a alfabetização e assistência social, além de buscar melhores condições de trabalho para as mulheres, como igualdade de salários e licença maternidade.

    No mesmo ano, foi eleita deputada federal pelo Partido Constitucionalista de São Paulo. Seu mandato durou até 1937, quando foi decretado o Estado Novo. Após a redemocratização, voltou à Câmara por mais três mandatos pela UDN (União Democrática Nacional) e, posteriormente fundou a Associação Brasileira de Mulheres Médicas. Em 1964, afastada da política institucional, se posicionou a favor dos militares. Até sua morte, em 1982, continuou atuando com serviços na área da medicina e assistência social.