MULHERES
24/09/2018 16:52 -03 | Atualizado 24/09/2018 23:26 -03

Música de apoiadores de Bolsonaro que compara feministas a 'cadelas' é estarrecedora, afirma OAB-PE

Canção ofensiva foi tocada na 'Marcha da Família', em apoio a Jair Bolsonaro, em Recife (PE), neste domingo (23).

Trecho de música cantada por apoiadores compara mulheres que se identificam como feministas com cadelas.
Reprodução/Facebook PSL Jovem PE
Trecho de música cantada por apoiadores compara mulheres que se identificam como feministas com cadelas.
Dou para CUT pão com mortadela e para as feministas, ração na tigela. As mina de direita são as top mais belas enquanto as de esquerda têm mais pelos que as cadelas.

O trecho acima é de uma versão do funk Baile de Favela, cantada neste domingo (23), na "Marcha pela Família", em Recife (PE), por apoiadores do candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro. A CDMA (Comissão da Mulher Advogada) da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), em Pernambuco, divulgou uma nota de repúdio em que classifica a versão como "estarrecedora".

Além de fazer referências à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a mulheres que se identificam como feministas e de esquerda, a letra também fala sobre a políticos de esquerda, como Jean Wyllys (PSol-RJ) Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que fazem oposição ao candidato do PSL. Há também referências a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), que Bolsonaro já afirmou que não a estupraria "porque ela não merece".

A nota, assinada pela presidente da CDMA, Ana Luiza Mousinho, afirma que "os estarrecedores trechos da música reduzem as mulheres à condição análoga de seres irracionais e incitam o ódio, a violência e o preconceito contra aquelas que se reconhecem feministas e/ou que têm orientação política diversa do aludido candidato".

A versão também recebeu críticas nas redes sociais:

A multidão, que caminhou pela Avenida Boa Viagem acompanhada de trios elétricos e carros de som, cantou o Hino Nacional e músicas de apoio ao candidato, como a versão do funk citada acima. Em nota, a OAB-PE ainda lembra que, "a cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal no Brasil, segundo dados do Relógios da Violência do Instituto Maria da Penha" e que, diante de dados dessa gravidade, "não se pode admitir que, sob o manto da liberdade de expressão, qualquer partido político, seja ele de direita ou de esquerda, ofenda publicamente uma coletividade de mulheres."

Leia a nota completa:

A Comissão da Mulher Advogada (CDMA) da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Pernambuco, manifesta seu profundo repúdio a uma das músicas cantadas neste domingo (23.09) durante a "Marcha da Família" do candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, que aconteceu no bairro de Boa Viagem, na cidade do Recife.

A letra, entoada em coro, afirma que às feministas deve ser dada "ração na tigela" e que as mulheres "de esquerda têm mais pelo que cadela".

Os estarrecedores trechos da música acima transcritos reduzem as mulheres à condição análoga de seres irracionais e incitam o ódio, a violência e o preconceito contra aquelas que se reconhecem feministas e/ou que têm orientação política diversa do aludido candidato.

Em tempos em que, a cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal no Brasil, segundo dados do Relógios da Violência do Instituto Maria da Penha, não se pode admitir que, sob o manto da liberdade de expressão, qualquer partido político, seja ele de direita ou de esquerda, ofenda publicamente uma coletividade de mulheres, reforçando a cultura machista e misógina que, infelizmente, ainda insiste em matar muitas mulheres todos os dias.

Ana Luiza Mousinho

Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB PE.

Segundo o Diário de Pernambuco, Bolsonaro está finalizando um posicionamento chamado "Manifesto à Nação" -- que seria inspirada na "Carta aos Brasileiros", escrita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva -- em que pretende fazer um compromisso em defesa da democracia e responder críticas sobre racismo e misoginia. Na tarde desta segunda-feira (24), o candidato disse nas redes sociais que sua equipe está "comprometida com interesses da nação e não com indicações de lideranças de partidos políticos".

No início de setembro, Bolsonaro levou uma facada durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG). Após ser atendido na Santa Casa da cidade, onde chegou a passar por uma cirurgia, ele foi transferido para o Hospital Albert Einstein, na capital paulista, onde segue internado até o momento. Neste sábado (22), ele teve alta da unidade de tratamento semi-intensiva e tem boa aceitação à "dieta leve" e mantém "boa evolução clínica", informa boletim médico divulgado nesta segunda (24). Segundo a última pesquisa Datafolha, Bolsonaro tem 28% de intenção de voto e ocupa o primeiro lugar na disputa eleitoral.

Rejeição das mulheres x indecisão no voto

SIPA USA/PA Images
A mobilização de mulheres ganhou força nas redes sociais e pretende ir para as ruas no dia 29 de setembro.

As mulheres brasileiras somam cerca de 53% de população brasileira. Há duas semanas do primeiro turno, o número de mulheres sem candidato a presidente é elevado. O dado foi divulgado no último Datafolha, publicado no dia 20 de setembro. Ao responder de forma espontânea à pergunta "em quem você vai votar?", 51% das mulheres ainda estão indecisas. 38% afirmou ainda não saber em quem votar e 13% pretende votar nulo ou branco, o que corresponde a 39,4 milhões de eleitoras.

De acordo com as pesquisas de intenção de voto mais recentes, Bolsonaro aumentou a preferência entre mulheres, mas continua sendo o candidato mais rejeitado pelo grupo. De 22 de agosto a 14 de setembro, a intenção de voto das mulheres em Bolsonaro cresceu de 14% para 18%, segundo o Datafolha.

Segundo a sondagem publicada em 14 de setembro, ele tem 26% da preferência na população em geral, mas o indicador cai para 18% entre o eleitorado feminino. Já a rejeição no grupo é de 49% contra 44% entre os brasileiros em geral.

O posicionamento do deputado, considerado machista e misógino, tem sido explorado por adversários. Tanto Marina Silva (Rede) quanto Geraldo Alckmin (PSDB) têm centrado as campanhas em mostrar frases e atitudes ofensivas do candidato do PSL.

A mobilização de mulheres também ganhou força nas redes sociais, nas últimas semanas o grupo "Mulheres Contra Bolsonaro" ganhou mais popularidade ao ser atacado por adversários do candidato; assim como as hashtags #EleNão e #ElaSim. Há atos contra o candidato marcados em 20 estados, incluindo as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre. A manifestação marcada para 29 de setembro no Largo da Batata, na capital paulista, conta com 61 mil confirmações e 203 mil interessados.