23/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 25/09/2018 10:56 -03

Cris Lisbôa, quando a força das palavras é motor da criatividade

Autora de 6 livros, ela criou a "Go Writers", uma escola de escrita criativa: "A criatividade é uma capacidade, que pode ser exercitada, aumentada, expandida. Não é um dom", afirma ao HuffPost Brasil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cris Lisbôa é a 200ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A primeira paulada é a que mata a cobra. E, sim, a primeira frase de um texto precisa ser de impacto. Porém, não encontrar "a" frase é uma desculpa para nunca começar - afinal, escrever é uma coisa, e editar é outra. Quem ensina tudo isso é Cris Lisbôa, jornalista, escritora e professora (formada nesses três quesitos com a ajuda do avô João, entusiasta da frase de impacto que inicia esse texto).

João ajudou a criar a neta em Uruguaiana, cidade na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, onde ela morou até os 17 anos e de onde traz o sotaque e a "mania" de ser direta. Aos 18, já estava em São Paulo, onde começou, mas não acabou, a faculdade de jornalismo e dirigiu ou colaborou com um punhado de revistas nacionais importantes.

A gente vem de uma educação tradicional castradora, cujo sistema é inspirado nas prisões: quatro horas de silêncio e meia hora de sol. As pessoas não aprendem a ter ideias.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Mais do que conectar palavras de forma harmoniosa e concatenada, Cris ensina que não cabemos em "caixinhas".

Com quase 30, Cris veio morar em Porto Alegre, onde fundou a Go Writers, uma escola itinerante de escrita criativa. Fundou, não: foi praticamente obrigada a dar aula por uma amiga que, arrebatada pelo talento da jornalista, não se conformava que ele continuasse anônimo. Ela reservou um coworking e reuniu 12 alunos em uma noite fria de terça-feira, no inverno de 2013.

"Pedi para minha irmã fazer um bolo, comprei umas garrafas de vinho e fiquei lá esperando as pessoas". Elas vieram, se encantaram e, há cinco anos, Cris dá aulas para turmas fixas ou cursos "in company" - em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, onde quer que a chamem para ensinar o que escrever com criatividade e, inclusive, buscar o autoconhecimento por meio dela.

Eu não turvo a água para fingir profundidade. Sou contra textos que a pessoa lê e se sente meio burra, texto é para comunicar.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cris acaba de chegar de Portugal, onde lançou "Tem um Coração que Faz Barulho de Água".

Cris lê e escreve desde os 4 anos, e nunca pensou em ser outra coisa - fora coelhinha da Playboy, ela conta, aos risos. "Não lembro da vida sem saber escrever", lembra. O divisor de águas para a jornalista foi um curso com o autor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, quando teve o primeiro contato com a teoria da escrita. Nunca mais deixou de estudar por conta própria. "Acredito muito na liberdade do conhecimento. A gente vem de uma educação tradicional castradora, cujo sistema é inspirado nas prisões: quatro horas de silêncio e meia hora de sol. As pessoas não aprendem a ter ideias", critica.

A criatividade é uma capacidade, que pode ser exercitada, aumentada, expandida. Não é um dom.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cris fundou a Go Writers, uma escola itinerante de escrita criativa.

O depoimento de alguns alunos leva a crer que as aulas são quase uma terapia. E, de fato, tem os momentos de falar sobre medo, de expor textos mal lapidados e até de chorar. Mas tem também muito conteúdo teórico e exercícios, porque, se tem algo em que a professora acredita tanto quando no autoconhecimento, é na disciplina. "Por que algumas pessoas escrevem mais bonito? Porque elas exercitam. A criatividade é uma capacidade, que pode ser exercitada e expandida, não é um dom."

Mulheres são a maioria nos cursos. "Cartas de Autoamor", "Mapa da Saída da Inércia", "Comunicação Positiva" são alguns dos títulos. O público varia desde profissionais das letras, até parteira, lutador de MMA, engenheiro. Quem quiser aprender a se comunicar melhor é bem-vindo - mas deve se apressar, porque as turmas são pequenas. Cris não aceita mais do que 20 alunos, porque não quer dar uma palestra. "Todo mundo tem de falar e se escutar".

Escrever é uma terapia, cura, cola coração partido. Mas, se vai botar pra rua, tem de fazer sentido para outras pessoas. Se não, é diário.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cris não aceita mais do que 20 alunos, porque não quer dar uma palestra. "Todo mundo tem de falar e se escutar".

Autora de 6 livros, Cris acaba de chegar de Portugal, onde lançou Tem um Coração que Faz Barulho de Água. Papel Manteiga para Embrulhar Segredos, outro livro de sua autoria, deve virar série no ano que vem: é um romance contado por meio de cartas. Mas também em março de 2019, Cris promete um romance, baseado na história de China, uma personagem de Uruguaiana. Ela tinha uma irmã gêmea, da qual se diferenciava apenas pelo melasma que ostentava no rosto. Aos 16 anos, um menino lhe disse que só namoraria uma delas, "a sem mancha". China se trancou em casa e de lá nunca mais saiu. Cris conviveu com ela boa parte da vida, mas levou 10 anos para entender que era uma história sobre bullying, "sobre o que tu faz com o que as pessoas te dizem", e só então conseguiu escrever a história de China, sua tia-avó.

Se tu não tens uma história para contar, não tens nada! Escrever não é sobre o 'mise en scéne'.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Cris nasceu em Uruguaiana, cidade na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina, mas ganhou o mundo escrevendo.

"Ainda vivemos em uma sociedade que julga muito. É por isso que as pessoas têm medo de escrever, de botar seus projetos na rua, porque estão sempre se comparando com o entorno". Mais do que conectar palavras de forma harmoniosa e concatenada, é isso que Cris prega em suas aulas: a gente não precisa caber em uma caixinha.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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