ENTRETENIMENTO
22/09/2018 14:00 -03 | Atualizado 22/09/2018 14:07 -03

Como 'Assédio' vai retratar a união das mulheres contra Roger Abdelmassih

Minissérie da TV Globo é inspirada nos casos de estupro cometidos pelo médico denunciado por 37 mulheres e condenado a 181 anos de prisão.

Ramon Vasconcelos/Rede Globo
Stela (Adriana Esteves ), Vera (Fernanda D'Umbra) , Eugênia (Paula Possani), Daiane (Jéssica Ellen) e Maria José (Hermila Guedes): personagens rompem o silência em 'Assédio'.

Stela e Homero vivem um casamento feliz. Professora dedicada em uma escola de Educação Infantil, ela nutre com o marido o desejo de ter um filho. Foram anos de tentativa sem sucesso, até que em 1994, eles decidem ir ao consultório do Dr.Roger Sadala, renomado especialista em reprodução humana, que já no primeiro contato promete o sucesso do tratamento e, consequentemente, a chegada do bebê. A atenção e carinho do médico enchem o casal de esperança. Esperançoso, Homero faz um empréstimo de R$ 30 mil para Stela começar o tratamento. A alegria, no entanto, dura pouco. Na dia da coleta de óvulos, ainda sob efeito da anestesia, ela é estuprada pelo homem que, inicialmente, prometeu a realização de um sonho. Assim, o sorriso de alegria dá lugar à vergonha e ao medo.

A história acima faz parte do primeiro episódio de Assédio, minissérie produzida pela Globo e disponibilizada, a partir desta sexta-feira (21), exclusivamente no serviço de streaming GloboPlay. Livremente inspirada no livro-reportagem A Clínica – A Farsa e Os Crimes de Roger Abdelmassih, de Vicente Vilardaga. Abdelmassih foi condenado pelo estupro de pacientes em seu consultório entre 1994 e 2007. Figura que circulava entre celebridades e a alta sociedade, o médico pioneiro em fertilização in vitro no Brasil foi condenado a 181 anos de prisão por 56 estupros de 37 pacientes. Em 2017, ele deixou o regime fechado e atualmente cumpre prisão domiciliar.

Ramon Vasconcelos/Rede Globo
"Só uma sociedade muito doente permite que exista um médico como esse", diz a autora Maria Camargo, em coletiva de imprensa.

A minissérie é de autoria de Maria Camargo, co-roteirista do elogiado Nise - O Coração da Loucura - filme sobre a psiquiatra alagoana que revolucionou o tratamento de loucura no Brasil - e tem direção artística de Amora Moutner – uma das diretoras da novela Avenida Brasil e conta a história de 5 mulheres que sofreram abusos sexuais de Roger Sadala, interpretado por Antonio Calloni, em meio ao sonho da maternidade. Juntas, elas conseguem romper o silêncio e impedir que o criminoso permaneça livre e impune.

A personagem Stela é vivida pela atriz Adriana Esteves. Já Homero é interpretado pelo ator Leonardo Netto. Na lista de personagens que se tornam vítimas dos abusos do Dr. Sadala, papel de Antonio Calloni, também estão Eugênia (Paula Possani), Maria José (Hermila Guedes), Vera (Fernanda D'Umbra), Carmen (Monica Iozzi) e Lorena (Bárbara Paz).

"Só uma sociedade muito doente permite que exista um médico como esse e que tantos crimes aconteçam ao longo de tantos anos. Isso revela muito de quem nós somos", diz a autora Maria Camargo antes de explicar a relação entre realidade e ficção na trama em coletiva de imprensa. "Partimos da vida real para fazer a série, mas o que queríamos era a ficção. Fizemos uma pesquisa profunda e extraímos o que de simbólico nos interessava", afirma.

Para autora, uma história contada por meio da ficção é capaz de afetar as pessoas mais fortemente por meio do "jornalismo e da não-ficção". "Queria que essa história fosse ouvida de fato. Quando digo que é simbólico é porque a gente sabe que essa é uma história extrema, mas como ela existem muitas que continuam acontecendo – em graus variados de assédio e de violência contra a mulher", explica.

Ramon Vasconcelos/Rede Globo
Na trama, Roger é um médico bem-sucedido, pai de família e que se diz "servo de Deus".

A atriz Monica Iozzi, em entrevista ao HuffPost Brasil, revela que sua personagem na minissérie foi o trabalho "mais difícil" de sua carreira até agora e "ao mesmo tempo o mais gratificante". Ela justifica as afirmações citando o poder da coletividade contra o assédio – tema central da produção. "A gente mostra como essas mulheres são fortes, como elas resistiram a tudo isso e como que, independente do desfecho, elas conseguiram expor isso para o Brasil e pedir justiça de alguma maneira", explica. E acrescenta: "Essa série, apesar da temática extremamente triste e violenta, celebra a força das mulheres. E fazer parte desse projeto nesse momento me emociona muito."

Elisa Volpatto também ressalta a questão da força do coletivo. A atriz interpreta Mira, uma jornalista que busca obsessivamente provas dos crimes cometidos por Sadala. "Eu me sinto fazendo justiça por muitas mulheres [com essa personagem]. Porque elas só precisavam ser ouvidas. Não havia provas, tampouco testemunhas", explica. "Espero que essa produção sirva de exemplo para que a gente fale sobre esse assunto e que as mulheres tenham mais possibilidades de falar o que estão pensando e sentindo".

Além das personagens que sofrem abusos, a minissérie apresenta também mulheres que amam e convivem com Salada. Glória, a primeira esposa do médico, é interpretada pela atriz Mariana Lima. Há uma segunda esposa na história, Carolina, vivida por Paolla Oliveira. Mariana conta que foi um desafio se distanciar de sua personagem, uma vez que como mulher permanece ao lado das vítimas. Para a atriz, assistir à minissérie "dá uma sensação terrível de atualidade. E cita o momento político pelo qual o Brasil vive. "É muito chocante porque estamos vivendo um momento em que temos um candidato à Presidência que promove o assédio, a violência, o racismo, o fascismo como modo de vida", diz. Ela, no entanto, acredita que a produção possa despertar uma discussão necessária. "Não temos mais como virar a cara para isso. Que bom que estamos sendo atravessados por isso [a minissérie] nesse momento."

A complexidade do abuso sexual

Ramon Vasconcelos/Rede Globo
"Foi difícil porque eu tive que acreditar nele completamente", afirma Antonio Calloni sobre personagem.

Para a realização de uma minissérie inspirada na trajetória de um condenado pela Justiça ainda vivo, Maria Camargo e Amora Mautner contaram desde o início com uma consultoria jurídica. Segundo Maria, elas tiveram "liberdade de criação responsável", já que a base da história está na vida real. "Não posso inventar crimes e cenas que não aconteceram. Existe um limite ético na obra, mesmo que seja livremente inspirada", explica.

Complexidade é o termo que o ator Antonio Calloni, que interpreta o Dr. Sadala, usa para se referir ao personagem. "Foi difícil porque eu tive que acreditar nele completamente", revela. Difícil, mas não impossível. "Nada que é humano me é estranho", afirma antes de citar a estátua Vênus de Milo Com Gavetas, do artista Salvador Dalí (1904-1989) para explicar como fez a composição de personagem. "Fui abrindo minhas gavetas internas e tirando a perversão, o ódio, o amor, o carinho, coisas que todos nós temos, para o bem e para o mal".

Ele descreve a questão do assédio como "uma coisa terrível que tem que ser discutida". "E a gente tem o prazer de discutir esse tema através de um trabalho artisticamente primoroso em todos os sentidos. E que, ao mesmo tempo, propõe um debate em alto nível", comemora. Otimista, o ator acredita que a sociedade "tende a evoluir" nessa questão. "Os homens têm que parar com esse medo ancestral que eles têm das mulheres. Sim, os homens sempre tiveram muito medo das mulheres", acredita. "É preciso parar com essa coisa infantil. O único caminho possível e equilibrado que existe é a gente viver junto, não há outro jeito."

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