COMIDA
21/09/2018 15:54 -03 | Atualizado 21/09/2018 16:12 -03

Por que continuamos comendo mesmo quando já estamos satisfeitos?

Segundo novo estudo americano, a resposta está no nosso cérebro.

Comer em excesso é um grande problema para certas pessoas -- quem já se empanturrou em uma churrascaria ou em um rodízio japonês sabe bem disso. Com tanta comida à disposição, nas mais variadas texturas, sabores e formas, é difícil saber quando já estamos satisfeitos.

Mas, por que sentimos que comemos demais certas vezes (ou diversas vezes)? A resposta , segundo um novo estudo americano, pode estar em nosso cérebro.

O novo estudo da Universidade de Michigan, publicado no jornal científico Proceedings of the National Academy of Scienceno último dia 17 de setembro revelou que o comportamento alimentar pode estar associado a dois conjuntos de células conhecidos como neurônios POMC e neurônios AgRP, que agem como um "pedal de freio e de acelerador", encorajando você a parar de comer e a comer mais.

Os pesquisadores conduziram experimentos em camundongos nos quais estimularam os neurônios POMC, esperando ver uma diminuição no apetite. Em vez disso, o efeito foi inverso. "Os animais comiam como loucos; durante a meia hora após o estímulo, eles comeram o suprimento de comida de um dia inteiro", disse a pesquisadora-chefe, Huda Akil, professora do Departamento de Psiquiatria da universidade americana.

Os pesquisadores observaram que o estímulo havia ativado os dois grupos de células, o que causou uma liberação simultânea: enquanto os neurônios AgRP mandava sinal para os animais continuarem a comer, os neurônios POMC sinalizavam parar de comer, como se você tentasse frear o carro pisando no acelerador ao mesmo tempo.

"Quando os dois grupos são estimulados ao mesmo tempo, o AgRP rouba a cena", disse Akil, acrescentando que esta pode ser a resposta por nossos exageros alimentares.

Por outro lado, quando os cientistas estimularam apenas as células POMC, houve uma diminuição notável no apetite.

Além da descoberta, são necessárias mais pesquisas para entender completamente como gatilhos emocionais, sociais e perceptivos podem afetar nosso cérebro e como eles desempenham um papel importante na nossa rotina alimentar. Isso poderia ajudar a cientistas desenvolverem, por exemplo, métodos para combater a obesidade, ativando as células, como visto nesta pesquisa, ou por outros métodos relacionados ao sistema neural.

"Há toda uma indústria criada para seduzir você a comer mais e mais, que você precise ou não, por meio de dicas visuais, embalagens coloridas, cheiros, associações emocionais", explicou Akil. "As pessoas ficam com fome apenas olhando para elas, e precisamos estudar os sinais neurais envolvimentos nos mecanismos perceptivos que nos levam a comer."

Como saber se estou com fome ou só com vontade de comer?

Tara Moore via Getty Images
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"Geralmente comemos mais do que nosso corpo precisa", disse a nutricionista membro do Conselho Regional de Nutricionistas de São Paulo (CRN-3) Lara Natacci, diretora da clínica de nutrição DietNet, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Todos nascem com um "kit de instruções" interno e único, que diz quando você está com fome e quando está saciado. Um bebê, por exemplo, chora quando quer comer e, quando está satisfeito, rejeita o leite.

O problema é que, ao passar dos anos, nos impomos algumas regras alimentares — comer a cada 3 horas, fazer 6 refeições ao dia, almoçar ao meio-dia etc. E a correria do dia a dia nos faz perder esse "relógio natural". Por isso é tão difícil saber quando realmente estamos com fome — ou quando só queremos descontar alguma questão emocional na comida.

Para resgatar esse "relógio natural", a nutricionista aconselha atenção total quando estiver se alimentando. "Quando estamos mais conscientes do que comemos, sentimos nossas sensações orgânicas e nos conectamos com o nosso organismo."

Por isso, nada de distração na hora das refeições, o que inclui parar de checar mensagens no celular, ver TV, assistir séries, entre outras.

Além das distrações, evite comer apressado, em uma reunião, no carro ou na frente do computador. "Você precisa estar com toda sua atenção na comida", aconselha Lara Natacci.

Outra dica é aguçar seus 5 sentidos na hora de comer: sentir o cheiro, ouvir o barulho, ver o alimento e, se possível, até tocá-lo. "Agir como um verdadeiro expert da culinária, identificar os preparos, os temperos. Isso vai te dar mais prazer e saciedade."

Fazer pequenas pausas e mastigar bem também ajuda a aumentar o tempo da refeição, uma vez que nosso cérebro demora alguns bons minutos para perceber que estamos saciados.