POLÍTICA
21/09/2018 17:12 -03 | Atualizado 21/09/2018 17:21 -03

Após choque com Bolsonaro, Paulo Guedes se silencia

“Está tendo um incêndio dentro do 'Posto Ipiranga'’’, disparou a candidata da Rede, Marina Silva, em referência à relação entre o candidato e seu economista.

O capitão reformado do Exército está internado desde 6 de setembro, quando sofreu um ataque a facada.
Paulo Whitaker / Reuters
O capitão reformado do Exército está internado desde 6 de setembro, quando sofreu um ataque a facada.

Às 9h35 da manhã desta sexta-feira (21) a imprensa foi informada de que o fiador econômico de Jair Bolsonaro (PSL), Paulo Guedes, havia cancelado a participação dele no debate Presidenciáveis Amcham - Seu País - Sua Decisão. De acordo com a assessoria da Amcham, ele informou às 8h40 que não iria.

O sumiço de Paulo Guedes é registrado desde terça-feira (19) quando ele disse que recriaria a CPMF, imposto sobre movimentação financeira, e unificaria a alíquota do imposto de renda em 20%, sem detalhar a proposta. Segundo a Folha de S.Paulo, a informação foi anunciada a um pequeno grupo reunido pela GPS Investimentos, especializada em gestão de grandes fortunas.

A declaração foi um golpe para a campanha do candidato à Presidência pelo PSL. Às pressas, auxiliares de Bolsonaro trataram de tentar mostrar que aquela não era opinião do candidato, que está internado desde 6 de setembro, onde se recupera de um ataque à facada.

As redes do candidato foram invadidas por mensagens pacificadoras e a garantia de que não haverá criação de novos impostos. As chamas do incêndio, entretanto, seguem acessas.

Ausente no debate da TV Aparecida na quinta-feira (20), Bolsonaro foi lembrado justamente pela rusga com seu principal assessor econômico, carinhosamente chamado de 'Posto Ipiranga'. No único momento em que foi nominalmente citado, sofreu um ataque da candidata da Rede, Marina Silva.

"Está tendo um incêndio no posto Ipiranga. Alguma coisa não está funcionando lá porque eles não estão se entendendo", disse a candidata.

Nesta sexta-feira (21), Bolsonaro voltou a se posicionar contra o aumento de impostos.

Filho de Bolsonaro e candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PSL), também trabalha para apagar o fogo.

Marcos Cintra, citado por Flavio, é um dos colaboradores de Bolsonaro. Professor da FGV e idealizador do imposto único, ele assumiu a Financiadora de Inovação e Pesquisa, órgão do governo federal, na gestão de Michel Temer, logo após o impeachment de Dilma Rousseff.

Ao Valor, Cintra detalhou a proposta. Embora afirme rechaçar a criação de um novo imposto, admite que propôs, sim, a revisão tributária. Defende a substituição de vários impostos por um só, sobre a movimentação financeira (como era a CPMF), com uma alíquota de 1,28%. A cobrança, diferentemente da CPMF, seria feita nas compras de débito e crédito e seria cobrada em dobro em depósitos ou saques, conforme explica a reportagem.

O peso do divórcio

As palavras de Cintra, porém, têm sido insuficientes para conter o mal-estar na campanha. Na primeira entrevista que concedeu após o atentado, Bolsonaro defendeu Guedes. "O Paulo segue firme", disse à Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (21). De acordo com o candidato, o economista nunca defendeu a volta da CPMF. "Isso é uma distorção. Ele apenas está estudando alternativas. Tudo terá de passar pelo meu crivo", afirmou.

O crivo de Bolsonaro, entretanto, é um limitador ao mercado financeiro. A atuação parlamentar de Bolsonaro sempre foi baseada em princípios estatizantes, que divergem da política liberal defendida por Guedes e que agrada aos investidores. Em diversas entrevistas, o candidato assumiu que não entende de economia e que qualquer medida seria avalizada pelo seu 'Posto Ipiranga'.

Analistas políticos ouvidos pelo HuffPost Brasil destacam que Guedes é tido como uma "âncora econômica" e alertam que há um temor em relação à durabilidade desse casamento, já que Guedes pode ser demitido.

Questionado sobre uma possível estremecida no relacionamento com o economista, Bolsonaro respondeu em 29 de agosto que não pensa nisso. "Se isso vier a acontecer, por vontade dele ou minha, paciência", pontuou.