21/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 24/09/2018 08:23 -03

Preconceito, tratamento e maconha medicinal: A causa de Caroline Heinz

Jovem executiva quer disseminar informação sobre o medicamento no Brasil e facilitar acesso ao tratamento: “As pessoas não podem esperar", afirma, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline Heinz é a 198ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

São inúmeras mensagens, fotos e vídeos por dia. Já perdeu a conta. Fala diariamente com as mães que ligam, muitas vezes chorando de emoção. Comemoram as conquistas dos filhos que conseguiram falar mamãe ou que sorriram pela primeira vez. "Me ligam agradecendo, falam que fui um anjo na vida delas. Imagina, estou só sendo a facilitadora, elas que tiveram a ação de buscar um tratamento alternativo para o filho. Recebi hoje uma foto. A filha dessa mulher usa o medicamento desde 2014. Olha o que ela falou: 'Tatá está fazendo a sobrancelha. Ficar nessa maca sem espasmos era impossível dois anos atrás'. Então nossa... É algo que muda não só a vida dos pacientes, mas a vida de toda a família".

Caroline Heinz, 32 anos, é vice-presidente da HempMeds Brasil, subsidiária do grupo americano Medical Marijuana Inc., e primeira empresa a trazer o óleo de cânhamo rico em canabidiol (CBD) para o Brasil. Já faz algum tempo que ela não é mais responsável por fazer o contato direto com as famílias que precisam dos medicamentos, mas esse tipo de retorno e proximidade continua forte. É o dia inteiro com o celular pipocando. E cheio de notícias boas. "Muitos pacientes com fibromialgia [síndrome que provoca dores por todo o corpo] estão usando e esses pacientes não tem mais para onde correr, eles perderam emprego, eles têm uma dor que a gente chama de dor da alma, perdem casamento, família, tudo porque não conseguem se relacionar mais e uma mandou mensagem 40 dias depois de começar o uso. Falou que tinha saído para jantar com amigos e ainda usou um saltinho. Muda a vida dessas pessoas".

Falam que fui um anjo na vida delas. Imagina, estou só sendo a facilitadora, elas que tiveram a ação de buscar um tratamento alternativo para o filho.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela é vice-presidente da primeira empresa a trazer o óleo de cânhamo rico em canabidiol (CBD) para o Brasil.

E a vida de Caroline também mudou muito. Sem ter nenhuma relação com medicina ou com o mercado medicinal da maconha acabou parando na Califórnia e sua carreira foi completamente alterada. Com formação em jornalismo e atuação na indústria cinematográfica, entrou nessa área meio por acaso. Após uma temporada em Encinitas, em 2012, alguns anos depois ela resolveu voltar para estudar. Antes de ir, descobriu uma alteração nas células do colo do útero e acabou se aproximando da empresa que traria muitas outras mudanças para ela. "Eu não tinha a menor ideia do que se tratava... maconha medicinal, CDB, nada. Era totalmente leiga. Na Califórnia já era um boom e comecei a escutar falar sobre e comecei a buscar mais informações".

Coisas do acaso. Amigos em comum nas redes sociais divulgaram que a empresa estava precisando de uma pessoa que falasse português e ela logo se candidatou e já estava de olho nos benefícios do CDB. Com uma piora no quadro das células do seu útero, precisou tirar um pedaço que estava comprometido. "Antes disso tinha a orientação de fazer um procedimento em que o colo do útero seria congelado, como se fosse para matar as células para elas regenerarem de novo. Não quis fazer, não estava no meu país, não dominava tanto a língua ainda e estava insegura, li a respeito e vi que isso dava 1% de chance de não engravidar e eu não queria isso, nem o 1% e não fiz". Caroline sempre teve o sonho de ser mãe e não queria fazer nada que pudesse colocar isso em risco. No entanto, precisou fazer a retirada do pedaço comprometido. "Resolvi tomar o canabidiol porque ajuda no balanço inteiro do corpo e tem estudos para câncer de colo do útero e comecei a tomar. Tirei o pedaço e estava sem contraceptivo e o médico falou que não tinha chance de ficar grávida e que ia demorar pelo menos 6 meses para regenerar. Dois meses depois eu estava grávida [risos]".

Vi que existia um mundo sobre isso e eu atendia diariamente as famílias e foi ai que a causa entrou.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Parte do trabalho da empresa é atender as famílias brasileiras que precisam do medicamento.

Assim ficou estabelecida de vez na Califórnia. Já estava na empresa há dois anos e em 2016 sua filha nasceu. Saudável. Assim como ficou seu útero. Hoje, ela faz uso do CDB diariamente. "Só para dormir e manter minha saúde balanceada". E começou a se envolver cada vez mais nessa nova causa que despertava nela. "Vi que existia um mundo sobre isso e quando comecei a trabalhar na empresa eu atendia diariamente as famílias e foi aí que a causa entrou. Você fazer alguma coisa que sabe que tem impacto na vida do outro te dá muita motivação".

Parte do trabalho da empresa é atender as famílias brasileiras que precisam do medicamento. Caroline conta que o negócio ganhou corpo com a procura dos próprios pacientes. "As pessoas precisavam de uma empresa como essa e assim foi crescendo. Hoje desenvolvemos produtos específicos para o público brasileiro, o atendimento é diferente, só tem brasileiro trabalhando, é uma parte especial do grupo".

Nossa luta é para baratear o custo e ter acesso rápido. Estamos esperando a questão da regulamentação no Brasil.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Você fazer alguma coisa que sabe que tem impacto na vida do outro te dá muita motivação

E o objetivo é, além de conseguir atender esses pacientes, disseminar informações e atuar junto aos médicos aqui no Brasil e pressionar o poder público para a regulamentação do CDB. "Queremos comunicar em massa sobre os benefícios e que é possível fazer importação e mostra para os médicos como fazer o tratamento, toda essa parte clínica. Está sendo um trabalho de formiguinha desde 2014, mas as leis têm mudado e evoluído bastante. Nossa luta é para que a gente consiga produzir [o medicamento] aqui para baratear o custo e ter acesso rápido. A ideia é essa. Estamos esperando a questão da regulamentação para a cannabis no Brasil. Vamos dar uma empurrada para que isso aconteça o mais rápido possível porque as pessoas não podem esperar".

O produto já é usado para o tratamento de diferentes condições de saúde como epilepsia, mal de Parkinson, Alzheimer e dores crônicas. Caroline acredita que aqui no Brasil ainda é importante esse trabalho de desmistificar o uso desse tipo de medicamento. Segundo ela, os médicos já possuem bastante consciência dos benefícios, mas a população em geral ainda não. "Por isso temos essa questão educacional [forte], um site muito informativo, fazemos vários vídeos educacionais. Os médicos já sabem, porém ainda tem uma resistência pela falta de estudos clínicos aqui no Brasil, porque fora tem um monte". Essa questão, aliás, também está entre os objetivos da empresa. Há o projeto de fazer o estudo clínico de epilepsia no Brasil e ter o registro do medicamento. Um processo que pode fazer diferença para muita gente. Caroline lembra que cerca de 80% dos pacientes são pediátricos e que mais de 90% dessas mães deixam de trabalhar para cuidar dos filhos.

Eu tenho um negócio que eu não recebo não como resposta. Sou teimosa e vou até o fim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O produto já é usado para o tratamento de diferentes condições de saúde como epilepsia, mal de Parkinson, Alzheimer e dores crônicas.

Situação que ela espera melhorar com o tempo. E se depender de sua determinação, vai conseguir. Diz que é muito focada e teimosa e que sempre foi assim. Tanto que, na verdade, foi uma dessas persistências que a levou para a Califórnia pela primeira vez. Após fazer uma aula de yoga na academia resolveu que queria virar instrutora e assim fez. "Eu tenho um negócio que eu não recebo não como resposta. Sou teimosa e vou até o fim. Fiz a formação de dois anos e comecei a dar aula em todos os estúdios do Rio de Janeiro". Foi quando um de seus alunos foi para a Califórnia e falou sobre a cidade, conhecida pelos estúdios e pela cultura do yoga na Califórnia. "Fui para lá e amei". Desde então uma parte dela sabia que voltaria para aquele lugar.

Talvez não imaginasse que estaria fazendo o que faz hoje. Ou melhor, certamente não imaginava. "Nunca passou pela minha cabeça que eu trabalharia numa empresa disso. Nada a ver com a minha formação. Como minha vida mudou!". Talvez não tenha imaginado mesmo. Mas uma vocação que ela já tinha pode se manifestar de outra forma. "Quando eu trabalhava com yoga, eu ajudava pessoas e era muito bom ver a evolução delas em relação a stress, vê-las mais consciente do próprio corpo entre outras questões de cura que o yoga traz. Ainda tenho um projeto para o futuro para alinhar as duas coisas. Tipo um estúdio de terapias alternativas".

Nunca passou pela minha cabeça que eu trabalharia numa empresa disso.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Caroline nunca imaginou trabalhar em uma empresa com este propósito. Mas hoje não quer mais parar.

Ao que tudo indica, isso vai fazer com que ainda mais gente mande mensagens para ela sem parar. Porque pode até ser que ela não aceite não como resposta. Mas também não nega um pedido de ajuda. "Quando assumi a VP falei que não podia mais ter tanto contato com as famílias, não tinha como e se você não responde elas ficam desesperadas porque estão muito agoniadas. Tirei meu telefone da central, mas meu contato corre como energia elétrica e quem vem falar comigo eu não passo pra ninguém."

Ela mesma cuida. Uma energia voltada para as boas causas que tem.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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