20/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 21/09/2018 12:09 -03

Tatiana Bastos, a professora de teatro que tem como palco um morro inteiro

Atriz fundou grupo de teatro no Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro: "Somos um espaço de acolhimento de meninas. Um espaço de autoafirmação", conta, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tatiana Bastos é a 197ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Moradora de uma pequena cidade no interior fluminense, Tatiana Bastos, 40, sempre teve o teatro presente na sua vida. Sem ter assistido a uma peça, sem ter feito qualquer curso de teatro, ela sentia o ofício e o amor por aquela área forte dentro. Aos 16 anos, atravessava o Estado do Rio e acordava às 3h para um curso de teatro na capital fluminense. Apesar do pouco sono, era um período "felicíssimo", em suas próprias palavras. Cresceu, cursou teatro na universidade mas se apaixonou mesmo pelo teatro comunitário. Hoje leciona para um grupo de adolescentes no alto do Morro do Cantagalo, na zona sul do Rio de Janeiro. Além das peças e apresentações, o Teatre-Se é destaque pelas discussões sociais que promove.

"Somos um espaço, dentro da favela, de acolhimento de meninas, de diálogo horizontal e espaço de autoafirmação dessas meninas, enquanto protagonistas das próprias vidas e do lugar onde elas moram. Elas pensam: aqui eu vou ser alguém, e fora daqui também quero ser", define Tatiana.

Elas pensam: aqui eu vou ser alguém, e fora daqui também quero ser.

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Tarsila do Amaral e outras mulheres são a verdadeira inspiração de Tatiana para transformar o mundo.

Antes do grupo de teatro, a atriz já trabalhava na comunidade, como funcionária da Secretaria Estadual de Direitos Humanos. O ofício não tinha muito a ver com o diploma na gaveta, mas ela havia se afastado dos palcos porque "a responsabilidade da vida chamou". Como o amor pelo teatro estava apenas adormecido, e não acabado, foi ele quem a fez perceber que havia na localidade uma lacuna em relação à auto-expressão. O grupo Teatre-Se surgiu de forma orgânica, depois de montar uma pequena peça com algumas meninas da região.

Mas o ponto de percepção da necessidade de continuidade daquele espaço foi uma briga "como nunca viu antes" em frente à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade. Tatiana narra que cerca de 100 meninas digladiavam por conta de namorados, incentivadas pelas mães e filmadas pelos policiais. Naquele momento, ela percebeu que a necessidade de se expressar era potente.

É muito difícil uma menina negra, de origem mais pobre, entender-se como sujeito.

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Em seu apartamento, na zona metropolitana no Rio de Janeiro, as referências estão -- desde livros -- até quadros pendurados nas paredes.

Hoje, Tatiana trabalha com as adolescentes principalmente a partir da ideia de sujeito, para além da ideia de objeto. A todo momento, as questões que atravessam as alunas são acolhidas e compreendidas individualmente, não só coletivamente. Elas quem ditam os rumos do teatro a partir de suas vivências.

"Uma das questões que nos atravessa nessa idade é a objetificação. É muito difícil uma menina negra, de origem mais pobre, entender-se como sujeito. É um processo mais longo e demorado do que o de uma menina branca, de classe média, que está nos padrões vigentes de corporeidade. Entender-se como sujeito é confuso, então cair na objetificação é fácil. O mundo espera que você quer que você seja objeto, não sujeito", avalia a professora.

Espaços como teatro -- e Tatiana defende também que espaços como o esporte -- são importantes para que as adolescentes sejam "sujeitos de si", e do que quer que sejam. "Algumas meninas vão se autoafirmar pelo estudo: ser a melhor aluna. Outras vão se autoafirmar pelo corpo: quero ser a mais gostosa. Não tem problema nenhum. O importante é que aquilo seja legítimo e autônomo, é produzir desejo, e isso é o mais difícil."

Entender-se como sujeito é confuso, então cair na objetificação é fácil.

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Tatiana conta que, na adolescência, assim como muitas meninas, "não importava o quão magra estivesse, eu fazia dietas absurdas para me enquadrar.

Foi esse entendimento de conectar a cultura e o teatro, com o cotidiano e a vida que fez Tatiana enveredar-se pelo teatro comunitário. Formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), ela estudou anos no grupo Nós do Morro, baseado no Morro do Vidigal.

"[O teatro comunitário] está mais ligado à vivência do teatro, ao entendimento de que o teatro é muito mais amplo do que a técnica. Eu sempre entendi o teatro como parte da vida, eu sempre entendi a cultura e a arte como parte da nossa vida, que é uma coisa que se perdeu nos últimos tempos. E entender o teatro como parte da vida tem muita ligação com teatro comunitário", afirma.

É com esse novo entendimento que ela está, aos poucos e conscientemente, provocando uma pequena mudança na vida das alunas. A arte como parte da vida faz a diferença na vida de algumas das alunas, seja as que participam uma vez só ou aquelas que estão desde o início do projeto, em 2014. A saúde mental, por exemplo, é discutida amplamente nas quatro paredes do Teatre-se.

"A depressão é um tema constante, que já passou por todas as meninas que chegaram até lá. A depressão é presente na vida dessa geração, é uma questão muito grave. A gente está em um território onde é uma questão minimizada, dizem que é falta de Deus, e isso me dá um desespero: não é falta de Deus", ressalta.

Eu sempre entendi o teatro como parte da vida, eu sempre entendi a cultura e a arte como parte da nossa vida.

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Ela leciona para um grupo de adolescentes no alto do Morro do Cantagalo, na zona sul do Rio de Janeiro.

Com as discussões que promove semanalmente, que passam de religião a racismo, Tatiana naturaliza questões-tabu e questiona ações que são vistas como naturais, mas não deveriam ser — como a rivalidade feminina presente na briga gigante que presenciou no início do grupo. Uma questão recorrente nos estudos e no trabalho de Tatiana é a corporeidade, e como as alunas enxergam a si mesmas dentro de uma engrenagem que exclui corpos que fogem do padrão.

"Essa questão do corpo me atravessou com muito mais força quando comecei a lidar com meninas que passam pelo que eu passava na adolescência: as mesmas questões com o corpo. Não importava o quão magra estivesse, eu fazia dietas absurdas para me enquadrar. Às vezes as meninas não têm a questão do peso, mas outras, como o cabelo, por exemplo. Um questionamento é: meu cabelo está onde? Ele não é o da princesa da novela. Essas questões começaram a ficar mais presentes pra mim", conta a professora.

Eu me afastei do teatro inclusive por causa do meu corpo, eu achava que meu corpo não era um corpo correto.

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Além das peças e apresentações, o Teatre-Se é destaque pelas discussões sociais que promove.

E pontua: "Eu me afastei do teatro inclusive por causa do meu corpo, eu achava que meu corpo não era um corpo correto, na adolescência. O que a gente acessa com mais rapidez em termos de dramaturgia é uma novela. A gente não acessa tanto peças de teatro, a gente acessa novela, que é a primeira coisa. Nas novelas, as pessoas negras, gordas, com deficiências, não são amadas. Elas não estão nesse lugar do amor. Na novela, a mulher gorda que ama está no lugar do riso, no lugar da comédia."

Livrar-se das correntes que nos impedem de "ser sujeitos" permite que lideranças desabrochem. Em um espaço que, segundo Tatiana, mulheres têm dificuldades de serem líderes, o entendimento de seu corpo e ocupação na sociedade auxilia as meninas — e elas também.

"É importante que a figura das mulheres que são lideranças, mas estão invisíveis, venham à tona e que novas meninas surjam como lideranças. Eu vejo nascimento de líderes, e o teatro e o esporte são lugares para que isso aconteça. Isso não vai acontecer com o mundo dizendo que você é aquilo, você não vai se ver como liderança. Você tem que estar num espaço que se veja como tal", analisa.

O foco vai ser sempre no auxílio e desenvolvimento das meninas, mas os meninos não são excluídos. Eles podem fazer parte, e Tatiana deseja até que eles não se atenham a ideia preconceituosa de que é um espaço exclusivo para homossexuais ou meninas. Apesar disso, ressalta que a condução das conversas e produções "partem dos olhares, saberes e fazeres femininos". Para ela, "essa é a grande sacada do grupo, porque isso é raro em qualquer lugar, em especial na favela".

É importante que a figura das mulheres que são lideranças, mas estão invisíveis, venham à tona e que novas meninas surjam como lideranças.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
É na crença de que o teatro muda mundos que Tatiana atua.

Além do Teatre-Se, Tatiana também faz parte da rede Madalenas, uma rede de teatro feminista internacional que existe em vários países do mundo. Além do desabrochar de suas meninas, como carinhosamente se refere a todas, que chama também pelo apelido, ela acredita que o teatro deva ser mais acessível, como opção de lazer e também como atividade.

"Eu acho que tinha, sim, que fazer parte da nossa vida de uma maneira muito mais cotidiana. Todo mundo deveria fazer teatro antes de terapia", afirma ela, desculpando-se antecipadamente com os analistas. Mas explica: "O teatro explora tudo: ele é o que se diz, o que se sente. O teatro é corpo em cena, o teatro é a exposição do seu corpo e da sua voz. É muito mais amplo, muito maior. Uma criança pode fazer teatro e se entender, se elaborar ali."

É na crença de que o teatro muda mundos que Tatiana atua. E ela deseja que isso aconteça cada vez mais pelo Brasil, muito além do mar que se vê do alto do morro do Cantagalo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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