COMPORTAMENTO
19/09/2018 12:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 14:26 -03

Para prevenir suicídios, precisamos de mais do que centrais de atendimento telefônico

Postar um número de telefone depois do suicídio de uma pessoa famosa não é solução. É um band-aid.

Isabella Carapella

Não faço ideia de qual era o meu número de telefone antes de me mudar. Demoro uns segundos para lembrar o celular da minha mãe nas raras vezes que tenho de discá-lo. Mas sei dizer imediatamente o número da central de atendimento de prevenção ao suicídio.

Parte disso, claro, é porque cubro saúde mental há cinco anos, então o telefone está gravado na minha memória. Ultimamente, entretanto, os motivos pelos quais sei este número são os suicídios de pessoas famosas, como Anthony Bourdain e KateSpade, e a reação pública que acompanha esse tipo de notícia.

É quase um ritual: uma celebridade comete suicídio. Recomeça a conversa sobre saúde mental, que quase sempre inclui um monte de gente postando o número das centrais de atendimento nas redes sociais. Depois de uns dias, acaba essa campanha de informação pública – para recomeçar quando acontecer a próxima tragédia.

Não é solução. É um band-aid para uma ferida que precisa ser curada.

O que você pode fazer para ajudar quem está em situação de risco

Os posts são obviamente bem-intencionados. E, entre dizer algo nas redes sociais ou não fazer nada, é claro que a primeira opção é a melhor. Mas o problema de postas esses números no oceano da internet é ignorar uma dura realidade sobre o suicídio: salvar uma vida não pode depender somente da pessoa em situação de risco.

Se você estiver pensando em compartilhar um desses telefones, há várias outras coisas que pode fazer para ajudar. Pegar o telefone você mesmo, responder um tweet triste ou sair para tomar um café com um amigo que está para baixo são algumas ideias.

Para evitar suicídios, deve haver mais ênfase na ação antecipada – o que é responsabilidade de todos, diz Christine Moutier, diretora da área médica da Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio. Uma maneira fácil de fazê-lo é simplesmente prestar atenção nas pessoas da sua vida.

"Quando as pessoas se desviam de seus padrões normais de comportamento, algo está acontecendo", diz Moutier. "Não quer dizer que seja algo necessariamente problemático, mas não custa checar."

Essas mudanças incluem por exemplo recusar convites seguidos para fazer uma atividade predileta ou então sentar-se afastado dos melhores amigos na hora das refeições. É claro que isso não indica que uma pessoa esteja suicida, ressalta Moutier, mas pode ser sinal de que a pessoa precisa de ajuda.

Tem menos a ver com o que você diz e mais com incentivar a pessoa a falar e oferecer respostas que não sejam julgamentos, mas sim palavras de apoio. Christine Moutier, diretora da área médica da Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio

Se uma pessoa admite que está passando por dificuldades relacionadas à saúde mental – seja pensamentos negativos, ansiedade ou emoções muito intensas --, uma pequena habilidade pode abrir as portas para uma conversa produtiva: ouvir ativamente. Ou seja, concentrar-se no que a pessoa está dizendo naquele momento.

"Não nos ensinam a ouvir ativamente", diz Moutier. "Tem menos a ver com o que você diz e mais com incentivar a pessoa a falar e oferecer respostas que não sejam julgamentos, mas sim palavras de apoio."

Num mundo perfeito, isso representaria uma abordagem mais ampla da saúde mental – e que começaria muito mais cedo, afirma Moutier.

"Temos de tratar da 'alfabetização de saúde mental' da população, para que as pessoas tenham noção dos gatilhos e do que pode melhorar sua própria saúde mental, assim como acontece com a saúde física", afirma ela. "A maioria das pessoas sabe coisas básicas, como o exercício nos dá uma sensação de bem estar e como uma refeição pesada nos faz sentir mal no dia seguinte. Acho que esses mesmos princípios se aplicam à saúde mental, mas isso ainda não foi difundido na sociedade."

Temos de tratar da 'alfabetização de saúde mental' da população, para que as pessoas tenham noção dos gatilhos e do que pode melhorar sua própria saúde mental, assim como acontece com a saúde física. Moutier

Essa compreensão exige esforço. E também exige educação em casa, especialmente porque as pesquisas mostram que problemas de saúde mental podem aparecer na primeira infância ou na pré-escola. Também é preciso haver acesso à saúde básica e a tratamentos. E deve-se prestar atenção à linguagem: corrigir – ou pelo menos perceber – quando certas expressões são usadas de maneira negativa, como "quero me matar". Tudo isso significa compaixão pelas doenças mentais, que ainda são consideradas "inferiores".

"Temos de continuar educando as pessoas que problemas de saúde mental são reais e, por causa do estigma, podem exigir mais coragem na hora de pedir ajuda", diz Ana Moreno, co-fundadora e diretora do Family Recovery Specialists, de Miami.

Os benefícios das centrais de atendimento

Isso não quer dizer que as centrais de atendimento não sejam recursos vitais. Organizações como a The National Suicide Prevention Lifeline e a Samaritans existem há uma década ou mais. A Crisis Text Line, que usa mensagens de texto, já recebeu mais de 70 milhões de mensagens desde que começou a operar, em 2013.

Esses serviços vão além de seu propósito inicial. "Uma grande porcentagem das pessoas que ligam para as centrais não é de suicidas", diz Moutier. Somente 30% das conversas da Crisis Text Line são relacionadas a suicídio.

Em vez disso, muita gente procura esses tipo de central de atendimento quando está com algum problema psicológico – relacionamentos, depressão, ansiedade e automutilação são alguns dos temas tratados nas conversas, diz a Crisis Text Line.

"Falar de sentimentos ajuda as pessoas a se sentir melhor", diz Moreno. "Sentir-se melhor durante a chamada pode representar um empurrãozinho para que a pessoa procure um parente ou então a ajuda de um profissional. Em alguns casos, o atendente pode oferecer recursos que a pessoa que ligou desconhecia."

Falar de sentimentos ajuda as pessoas a se sentirem melhor. Ana Moreno, co-fundadora e diretora do Family Recovery Specialists

E, quando a pessoa está considerando o suicídio, os atendentes são treinados para responder.

No fim das contas, porém, o futuro da prevenção de suicídios é uma abordagem holística, tanto em nossas vidas quanto em termos de políticas públicas. Ela depende de uma sensação de responsabilidade para com os outros – algo que vá além de meramente postar um número de telefone, esperando que a pessoa do outro lado da linha faça todo o trabalho.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Leia nossa série especial Quebrando o Silêncio em torno do Suicídio

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.