18/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 27/09/2018 18:51 -03

Lorenna Vilas Boas, a paixão em ver mulheres no mundo da tecnologia

Jovem engenheira saiu de Candeias, na região metropolitana de Salvador, para ganhar o mundo: "Minha meta é trazer as mulheres para a tecnologia", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Lorenna Vilas Boas é a 195ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Enquanto criava, no ano de 1932, em sua oficina, os primeiros bloquinhos que deram origem ao Lego, o carpinteiro dinamarquês Ole Kirk Christiansen, mal podia imaginar que a invenção mudaria completamente a vida da baiana Lorenna Vilas Boas, de 21 anos. Os mais de 8 mil quilômetros que separam o país nórdico do município de Candeias, na região metropolitana de Salvador, não foram suficientes para diminuir a influência que as pecinhas imprimiram na educação da garota.

Os blocos sempre apresentaram um potencial construtivo que foi percebido por alguns educadores como uma ferramenta valiosa para auxiliar crianças e jovens a desenvolver a criatividade e a capacidade de resolverem problemas por si próprios. Desde os anos 1960, professores começaram a utilizar o método em salas de aula. Não foi diferente no Sesi, rede de ensino na qual Lorenna ingressou na 3ª série, após estudar alguns anos em colégios de bairro. "Eu me apaixonei completamente. E ainda era aquele RCX, aquele robustão, bem antigo. Eu buscava super me dedicar às aulas", conta ao HuffPost Brasil.

Eu fui aprendendo mais sobre o que era fazer engenharia e qual era a importância da área técnica.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Medalhas e prêmios não foram suficientes para Lorenna: é tempo de desenvolver um produto que pudesse gerar algum tipo de impacto na sociedade.

Foi com essa obsessão que resolveu se inscrever em um campeonato que envolvia toda a escola. "Eles desafiaram a gente a construir alguma coisa para a nossa cidade. Como Candeias é carente de tanta coisa, acho que foi uma forma de estimular a nossa criatividade". Projetou então uma ponte que permitisse que os caminhões que cruzam a cidade em direção ao Centro Industrial de Aratu fossem desviados para que ela conseguisse brincar na rua com os amigos. Resultado: antes de completar 10 anos, levou o primeiro lugar diante de um monte de estudantes mais velhos que ela.

Depois construiu casas, shoppings e até um canal de escoamento ligando o município à capital baiana. "Eu fui aprendendo mais sobre o que era fazer engenharia, qual era a importância da área técnica – não com essas palavras, mas ia insistindo e criava um estímulo", conta. A dedicação foi tamanha que, na 8ª série, foi chamada pela primeira vez na sala da diretoria. Com o coração na mão, temendo uma advertência, descobriu que havia sido convidada pela própria Lego para viajar a Brasília e participar de uma convenção nacional. Lá, ela apresentaria o trabalho que vinha desenvolvendo.

Na volta para casa, emendou mais uma conquista: recebeu o resultado positivo na inscrição para cursar o ensino técnico em Automação Industrial no IFBA (Instituto Federal da Bahia), na capital. "No Sesi era tudo de última geração, lá tinha uma sala de maletas do brinquedo, não tinha limites para a criatividade. Quando eu cheguei no IFBA não tinha nem recurso para isso. Faltava até papel higiênico. Foi um choque de realidade porque eu nunca estudei em escola pública", lembra.

Lá, ela ganhou de presente o que chama de "fada-madrinha", a professora Andrea Peixoto: "Ela foi a minha professora de área técnica, de introdução à automação, e conversando com ela, na primeira semana, falei que gostava muito de robótica e que queria muito continuar fazendo isso, mas que não enxergava muita possibilidade no IFBA. Ela me falou: Vamos fazer isso juntas. Ela comprou uma maleta da Lego com o dinheiro dela, me deu e disse: veja o que você sabe construir, o que a gente consegue fazer, para a gente poder chamar mais gente".

Começamos a dar essas aulas de robótica em outras escolas públicas também, sem planejar.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Lorenna faz parte do PET, um grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão, no qual dá continuidade às aulas e projetos de robótica só para meninas.

Lorenna criou um robozinho para chamar a atenção das outras pessoas e alguns "outros alunos loucos" curtiram a ideia. Resolveram chegar junto – e foi assim que foi fundada a equipe Autobot. Os malucos não só se juntaram como acabaram se inscrevendo para uma competição que aconteceria em uma semana e meia. "Foi uma das melhores semanas da minha vida. A gente fez projeto de pesquisa, conseguiu ir para a competição, iniciar esse movimento, atrair outro estudante e ficamos em segundo lugar – do último para o primeiro colocado (risos)".

Além do título de penúltimo lugar, e do prêmio de "estrela iniciante" – que a organização concede à equipe que se destaca como potência para evoluir para o próximo ano –, o grupo chamou a atenção do professor da rede Sesi, Evantenor Barbosa, que resolveu apadrinhar a equipe. "Ele foi um super técnico. Mesmo não sendo nosso professor, nos visitava toda semana, dava aulas mesmo, ensinava como fazer um bom projeto, uma boa pesquisa, como montar um robô robusto. Todos os conhecimentos que eu tenho de projeto de pesquisa foi iniciado graças a Evan e Andrea".

Enquanto se preparavam para a Olímpiada Brasileira de Robótica (OBR), os membros da equipe passaram a ensinar robótica para os outros alunos da instituição para "difundir o ambiente, criar essa cultura lá". O pessoal gostou tanto que o local ganhou seu próprio campeonato, o RobôIfba. "A gente dava aula de robótica com todos os equipamentos, então os estudantes não precisavam ter conhecimento prévio algum, ou ter dinheiro para comprar nada. Começamos a dar essas aulas em outras escolas públicas também. Sem planejar, ia aparecendo gente interessada e a gente ia se jogando e abraçando, para contagiar mais e mais pessoas".

No IFBA, os cegos tinham dificuldade de encontrar salas de aulas. Isso me chocou muito, decidi fazer algo a respeito.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
O programa "I Am The Code", que Lorenna é embaixadora no Brasil, visa capacitar, até 2030, 1 milhão de meninas no mundo todo.

Com a medalha de terceiro lugar na OBR pendurada no pescoço, resolveu que era a hora de desenvolver um produto que pudesse gerar algum tipo de impacto na sociedade. Apesar de utilizar a tecnologia em prol da educação, jamais havia ouvido falar na chamada tecnologia assistiva, criada para auxiliar pessoas que possuem algum tipo de dificuldade de locomoção – como idosos e deficientes.

"Refletindo sobre isso, cheguei na dificuldade que os cegos têm de se localizar em ambientes internos. Tem o GPS para ambientes externos, que funciona super bem, mas ele não tem precisão para ambientes internos. No IFBA, os cegos tinham dificuldade de encontrar salas de aulas ou qualquer outra movimentação fora do escopo do que eles faziam normalmente. Isso me chocou muito, decidi fazer algo a respeito porque eu pensei: alguma pessoa cega poderia ter participado da equipe de robótica, mas ela simplesmente não sabia que existia", explica.

Pesquisando sobre a tecnologia já existente para o problema, chegou no piso tátil. "Só que ele por si só não dá essa sensação de independência, ele é muito bom para traçar uma trajetória segura para o cego caminhar, mas ele continua passando sem saber para onde ele tá indo a não ser que ele tenha memorizado", exemplifica. Daí veio a ideia de acoplar ao piso, um aviso sonoro, com uma mensagem para que o deficiente visual saiba por onde está passando: o Just Step.

Precisava endereçar meus momentos de falas a outras mulheres que também queriam aprender.

Foi nesse ano que acabou selecionada para o programa Jovens Embaixadores, iniciativa de responsabilidade social da Embaixada Americana que beneficia, com uma viagem de três semanas aos Estados Unidos, alunos brasileiros da rede pública com excelente desempenho escolar, que falam inglês, que pertencem à camada socioeconômica menos favorecida, que têm perfil de liderança, que prestam serviço voluntário.

Passou por Washigton DC e Seattle, onde participou de reuniões em organizações dos setores público e privado, visitou escolas e projetos sociais, e realizou apresentações sobre o Brasil. "Foi lá que eu amadureci a ideia de ser negra. Até então, eu participava das olimpíadas e estranhava que nunca tinham pessoas iguais a mim, mas eu não externava porque eu achava que era coisa da minha cabeça. Conversando com outros jovens de lá, que é um lugar super segregado, eu comecei a entender que não era invenção minha".

De volta ao Brasil, colocou na cabeça que não bastava competir, dar aulas e criar o projeto de robótica para cegos: "precisava endereçar nos meus momentos de falar essas mulheres ou outras meninas que queriam aprender". Decidiu se capacitar para isso. Como? Depois do primeiro carimbo no passaporte, não parou mais. Quinze dias depois foi escolhida no IFBA, junto a outros alunos, para visitar montadoras de carros na Alemanha. Um mês adiante venceu uma feira de ciências de robótica em São Paulo, que lhe rendeu uma viagem para a Intel, em Los Angeles.

Foi em Seattle e Washington DC, que eu amadureci a ideia de ser negra.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
O programa que Lorenna é embaixadora visa capacitar, até 2030, 1 milhão de meninas programadoras no mundo todo.

Terminou o ensino técnico e ingressou o curso de Engenharia Elétrica, na UFBA (Universidade Federal da Bahia) o mais similar à mecatrônica em uma instituição pública do estado. E o incômodo continuou. Da lista de aprovados, só haviam sete meninas, e ela a única negra. "Só 5% das pesquisadoras do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) são de mulheres negras. Percebi que eu me enquadrava na exceção. Quando eu entrei na sala e só tinha eu de negra eu falei. Não é possível, eu não tô na Bahia, eu não estou em Salvador".

Depois de mais uma visita ao EUA, desta vez para o Brasil Conference, no MIT [Massachusetts Institute of Technology], e num encontro de mulheres do G20 em Munique, na Alemanha - tudo isso com 19 anos -, sugeriram que ela participasse do fórum "Woman Political Leaders", na Lituânia, onde conheceu a senegalesa Marieme Jamme, fundadora da organização "I Am The Code". "Ela teve uma infância super difícil, foi abandonada, passou fome e encontrou na tecnologia a oportunidade de mudar a sua realidade. Começou a programar quando nem sabia ler. Ela era analfabeta com 17 anos!".

O programa visa capacitar, até 2030, 1 milhão de meninas programadoras no mundo todo. E adivinha quem virou a embaixadora do projeto aqui no Brasil? Lorenna Vilas Boas. Com o projeto já em curso em São Paulo e em Recife - "tinha que trazer para o Nordeste" -, a próxima meta da garota é trazer o "I Am The Code" para a sua terra, a Bahia. "A gente lança o programa nos estados por meio de um hackaton, levando essas meninas que não sabem nada de programação e tecnologia e apresentando os nossos objetivos e a importância da programação. O produto final é a formação das meninas".

Minha meta é trazer as mulheres para a tecnologia.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"O produto final é a formação das meninas", finaliza Lorenna, ao falar sobre o desejo de ver tantas outras com medalhas e troféus.

No âmbito da sua formação educacional propriamente dita, Lorenna faz parte, dentro da universidade, do PET, grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão, no qual dá continuidade às aulas e projetos de robótica para escolas públicas, com foco nas meninas, agora sob a alçada da UFBA. "Minha meta é trazer as mulheres para a tecnologia. Eu não quero trabalhar numa grande empresa, quero desenvolver tecnologia assistiva, para ajudar quem precisa daquilo a ter uma vida melhor". Tudo isso, com apenas 21 anos.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Clara Rellstab

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delaspara celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.