MULHERES
17/09/2018 14:06 -03 | Atualizado 17/09/2018 15:08 -03

A importância da raiva de mulheres como Cynthia Nixon e Serena Williams

A ira justa delas vai abrir o caminho para as mulheres que virão depois.

Há uma certa indignação na ideia de que essas mulheres extraordinárias precisam fazer com que sua raiva realmente signifique alguma coisa.
Reuters
Há uma certa indignação na ideia de que essas mulheres extraordinárias precisam fazer com que sua raiva realmente signifique alguma coisa.

Mesmo derrotada, Cynthia Nixon estava em clima de desafio. Na noite da quinta-feira retrasada a ativista e atriz perdeu a disputa pela candidatura do Partido Democrata ao governo do Estado de Nova York. Nixon foi gentil e cortês ao admitir que foi derrotada por seu adversário, o governador Andrew Cuomo. Mas prometeu levar sua luta adiante.

"Agora não é hora de nos contentarmos com as coisas do jeito como estão ou de ficar sentados e esperar que as coisas mudem", ela disse. "É hora de lutar." Ela também se dirigiu às pessoas que possam identificar-se com ela ou ser inspiradas por sua campanha, incentivando-as a um dia lançar uma campanha própria: "A todos os jovens. A todas as mulheres jovens. A todos os jovens queer que rejeitam a binariedade de gênero. Dentro em breve vocês estarão em pé aqui, e quanto for sua vez, vocês vencerão."

Uma vitória de Cynthia Nixon sempre foi altamente improvável. Sua campanha inteira foi uma insurreição de base nascida da indignação justa: com o establishment democrata, com o discurso vazio que muitas vezes domina a política, com o racismo e o sexismo institucionais, com o trânsito terrível em Nova York. Essa ira não é uma raiva do tipo selvagem e insensato que fervilha e explode de modo indiscriminado. Sua ira foi uma cólera mais direcionada, a "ira bem direcionada" da qual escreve Rebecca Traister em seu livro a ser lançado em breve Good and Mad (Boa e Indignada, em tradução livre para o português - ainda sem previsão de lançamento no Brasil). O tipo de ira que possui o poder de transformar instituições fortemente arraigadas. Se alguém quiser prova disso, basta pensar em Andrew Cuomo, numa tentativa hilária de cooptar a crítica estrutural que moveu a campanha de Cynthia Nixon, dizendo que a América "nunca foi tão grande assim".

Ouvindo o discurso em que Nixon admitiu sua derrota, não pude deixar de pensar em Serena Williams, que fez manchetes no penúltimo fim de semana por sua discussão acalorada com um árbitro de uma partida, que lhe custou a partida e uma multa de US$17 mil. Como Cynthia Nixon, a tenista teve consciência aguda do que sua ira individual poderia significar para outras mulheres.

"Sinto que o fato de eu ter tido que passar por isso é apenas um exemplo para a próxima pessoa que tiver emoções e quiser se expressar e quiser ser uma mulher forte", disse Williams em coletiva de imprensa pouco após o fim da partida. "Vão deixar que ela o faça, por causa do que aconteceu hoje. Talvez não tenha funcionado para mim, mas vai funcionar para a próxima pessoa."

Há uma certa indignação na ideia de que essas mulheres extraordinárias precisam fazer com que sua raiva realmente signifique alguma coisa. Os homens podem simplesmente se enfurecer, sem preocupação ou finalidade especial, e ser elogiados por isso. A ira deles é sua genialidade, é seu poder – é a evidência de um grande fogo interior. Mas para as mulheres, especialmente as mulheres não brancas, a ira expressa abertamente ainda pode custar caro. E, mais tarde, as normas sociais exigem que ela seja transfigurada em alguma coisa socialmente útil. Pense em Serena Williams dizendo depois: "Estou lutando pelos direitos das mulheres e a igualdade das mulheres".

Mas, como ficou claro na noite de quinta-feira, essa coisa que exigimos das mulheres, essa consagração da ira delas, é fundamentalmente um ato político. Como diz Rebecca Traister, estamos vivendo "uma reemergência da ira das mulheres como impulso de massa". Minha ira é sua ira, Williams e Nixon estavam dizendo. Nossa ira é o legado que deixamos às pessoas que virão em nossa esteira. Movimentos são feitos de visões como essas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.