17/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:36 -03

Mulher, negra, cineasta: Por que Camila de Moraes está no lugar certo

Ela é diretora do documentário "O Caso do Homem Errado" (2017), que conta a história de Júlio César de Melo Pinto, executado pela polícia em 1987, em Porto Alegre (RS).

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Camila de Moraes é a 194ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Camila de Moraes está há dois meses e meio fora de casa, e não vai fincar pé em Salvador, onde mora há oito anos, antes do fim do mês. Já cansou de estrada, mas faz questão de levar seu filme e as bandeiras que carrega com ele, onde quer que a chamarem.

Camila, 31 anos, jornalista, negra, é a diretora do documentário O Caso do Homem Errado (2017), que conta a história de Júlio César de Melo Pinto, executado pela polícia em 1987, em Porto Alegre. Júlio César foi preso próximo a sua casa, no dia 14 de maio. Havia saído, sem documentos, para ver o que era a movimentação no supermercado vizinho. Era um assalto, e Júlio César foi confundido com um ladrão. Embarcou, machucado porém vivo, em uma viatura da polícia em direção ao Hospital de Pronto Socorro. Quando o veículo estacionou, foi um cadáver que os policiais retiraram do carro.

Parece que você já ouviu essa história antes, não é?

É por isso que Camila e a equipe do filme fazem questão de rodar o Brasil e o mundo levando o filme e o debate que vem com ele - por que morrem 2,6 vezes mais negros do que brancos vítimas de armas de fogo no Brasil? Por que a cada ano, 23 mil jovens negros entre 15 e 29 anos são assassinados neste país? Quantos Júlio César, quantos Amarildos já sumiram por aí? A diferença é que, em maio de 1987, tudo se desenrolou em frente às lentes do fotojornalista Ronaldo Bernardi, e acabou nas páginas de um jornal.

Ali tinha um fotógrafo, que viu e registrou tudo. Mas quantos desaparecem e ninguém vê?

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"O Caso do Homem Errado" venceu o troféu de melhor filme no Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro.

Júlio César era tio de Camila - na data da morte, ainda um bebê de 20 dias. Padrinho do irmão mais velho da cineasta, irmão de criação de seu pai. Ainda na faculdade de jornalismo, ela decidiu recontar essa história, famosa na crônica policial gaúcha. Só que, além de papel e caneta para a reportagem da faculdade, ela levou uma câmera mini-DV, e ali nasceu o projeto de fazer também um curta-metragem.

Formada, em 2010, Camila se deu de presente o ingresso para um show da Beyoncé na capital baiana. Foi para passar um mês e nunca mais voltou. Lá, tentou viabilizar o projeto do Homem Errado via editais, e financiamento coletivo, mas não conseguiu. Até que, em 2016, cercada de profissionais interessados na história e com equipe montada para fazer o filme, mas sem dinheiro, uma produtora abraçou a ideia. As gravações terminaram em fevereiro de 2017 e o filme, que se tornou um longa-metragem, foi lançado na capital gaúcha em maio do ano passado, três dias antes de o caso completar 30 anos.

O cinema é um ambiente branco, machista, elitista, muito caro de se trabalhar.

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"É um filme ativista, militante, um filme da comunidade negra. Não me basta só exibir o filme, precisamos fazer o debate".

A exibição do filme acabou impedindo sua inscrição nas mostras competitivas de festivais de cinema brasileiros, por não ser inédito. Para bancar a inscrição em eventos estrangeiros, Camila e equipe arrecadaram cerca de R$ 4 mil em doações de gente engajada no movimento negro. Em dezembro de 2017, O Caso do Homem Errado venceu o troféu de melhor filme no Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro, em Punta del Este (Uruguai). Também foi exibido em Buenos Aires.

Pensei que o mais difícil era fazer o filme. Mas depois que ficou pronto, a pós-produção foi o pior. Nenhuma distribuidora que contatamos tinha interesse no filme. Diziam que não era o perfil.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Para realizar o filme, Camila e equipe arrecadaram cerca de R$ 4 mil em doações de gente engajada no movimento negro.

Sem ter sido selecionado para mais nenhum festival estrangeiro, o filme foi para o circuito comercial em março deste ano. "Pensei que o mais difícil era fazer o filme. Mas depois que ficou pronto, a pós-produção foi o pior. Nenhuma distribuidora que contatamos tinha interesse no filme. Diziam que não era o perfil", conta Camila, que decidiu, mais uma vez, peitar o sistema. Iniciou a distribuição independente do filme, primeiro em Porto Alegre, depois em Salvador, e até no Acre. "Os filmes ficam sempre no eixo Rio-São Paulo. Nossa estratégia foi política", conta.

A repercussão da obra pode ser medida pelo número de eventos para os quais a diretora (a segunda mulher negra na história do Brasil a dirigir um filme que estreou em circuito comercial) foi convidada neste ano: esteve na comissão de seleção de curtas brasileiros do Festival de Gramado; vai participar do júri no festival Ela Faz Cinema, em Salvador; palestrou no Cinema da Vela, em São Paulo, e vem se desdobrando com a equipe para atender a pelo menos 15 festivais onde o filme vem sendo exibido neste ano, de Norte a Sul do Brasil.

Alguns rostos são recorrentes nos eventos pelo Brasil e fora dele. A diretora percebeu, então, a importância do networking - e o quanto os negros estão excluídos desse cenário. "Não adiante o filme ser exibido e nós não estarmos ocupando esses espaços". É por isso que decretou: se a equipe não puder viajar, o filme também não vai. "É um filme ativista, militante, um filme da comunidade negra. Não me basta só exibir o filme, precisamos fazer o debate".

Ter de ficar falando toda hora cansa, mas temos de falar para não ser invisíveis, pois o racismo estrutural do Brasil nos invisibiliza toda hora.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Com O Homem Errado, Camila não quer apenas abrir caminho para outras pessoas, outras meninas, no cinema.

Entre a trupe que carrega a bandeira do Homem Errado, está a viúva de Júlio César, Jussara - que nunca conseguiu assistir ao documentário. Camila embarga a voz e enche os olhos d'água ao lembrar que, mesmo depois da condenação de oito policiais militares pelo assassinato, a viúva não obteve indenização do Estado pela morte do marido. Também se emociona ao falar do sobrinho, de oito anos, que, inspirado pela tia cineasta, já tem na cabeça um roteiro pronto - só que para uma comédia. "A gente tem que ser espelho para outras pessoas acharem que são boas e também quererem ocupar estes espaços".

Com O Homem Errado, Camila não quer apenas abrir caminho para outras pessoas, outras meninas, no cinema. Quer também abrir caminhos para meninos como seu sobrinho de oito anos, para que possa sair à rua sem documentos e sem medo do que possa acontecer.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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