16/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 16/09/2018 00:00 -03

Denise Milan, a artista que quer valorizar a história e a força da natureza

Ela quer compartilhar o que aprendeu ao longo de 30 anos de observação e pesquisa sobre pedras: "Estou trabalhando com uma nova percepção daquilo que todo mundo conhece e não viu."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Denise Milan é a 193ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A grande questão é decodificar. Para ela é isso. Não só decifrar a história do que vê, mas conseguir encontrar o que tem uma história para contar. Talvez esse seja o grande desafio de seu trabalho. Há mais de 30 anos busca isso nas pedras. Mas, na verdade, essa relação começou antes disso - como tudo na vida, aliás. Ao olhar com atenção, sempre vamos encontrar um significado lá atrás para o que acontece hoje. Aos cinco anos de idade, ela fez seu primeiro desenho. Um sol. Nessa mesma época ganhou do pai uma caixa com pedras brasileiras. Foram as duas primeira referências de natureza de que se lembra. "Foram me guiando. Já estava ali dado".

Nessa mesma época, brincava de construir caixas, entrava em um quartinho verde que tinha e ali despertava para seu imaginário e construía universos. "Sempre via eles na minha frente". Denise Milan, 64 anos, continua vendo. Hoje, com 40 anos de carreira como artista, está tudo ali na sua frente. E comemora a fase em que está. Neste ano, Denise lança dois livros sobre seu trabalho, é uma das artistas convidadas da 33a Bienal de São Paulo e apresenta uma exposição individual na galeria Lume. Além disso, há quase dez anos desenvolve um projeto de arte educação com crianças e adolescentes na comunidade de Heliópolis. Tudo com a pedra como protagonista.

Estou trabalhando com uma nova percepção daquilo que todo mundo conhece e não viu.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Neste ano, Denise lança dois livros sobre seu trabalho, é uma das artistas convidadas da 33a Bienal de São Paulo e apresenta uma exposição individual na galeria Lume.

Em sua casa, são muitas. Chega descalça para receber a reportagem, contato direto com a pedra do chão de sua sala. Como deve ser. Ela e o que está no subsolo. Ela e toda essa pedra. Próximo a janela, um livro de meditação repousa entre outras amostras que têm, quase como se estivesse protegido e energizado por elas. No estúdio quem tem em casa, também quem domina são as pedras. E é justamente isso que Denise quer. "Estou trabalhando com uma nova percepção daquilo que todo mundo conhece e não viu. A pedra sempre foi um objeto e aqui [no meu trabalho] entra como protagonista. Ao possibilitar trazer sua narrativa e contar o processo de criação no qual está envolvida, ela deixa de ser um objeto de decoração para virar um portador de história, um portador de narrativa e quando percebemos que as narrativas antecedem a nossa própria existência a gente percebe que faz parte de uma narrativa mais antiga, um trajeto maior, uma criação maior".

Foi o que percebeu há 30 anos quando iniciou seu trabalho com pedras. De lá para cá foram muitas exposições, trabalhos e estudos aprofundados sobre a origem e a formação das pedras. Coisa científica mesmo. O contato profissional com a pedra se deu meio que ao acaso. Após fazer uma exposição que se chamava Luzes, falaram para ela que o cristal era um grande condutor de luz e foi quando recebeu uma amostra dessa pedra. Novos universos começaram a ser vistos. Mais uma vez. Com mais clareza. "A formação era tão perfeita que eu falei ´o que eu posso fazer? Já está formado'. [Assim], há 30 anos eu trabalho encontrando pedras que tenham narrativas poéticas e artísticas porque vejo como ela nasce, os embates que teve que enfrentar, os conflitos que a potencializam para virar preciosa, o que esses conflitos fazem com que a nossa força evoque, qual a analogia com o que a gente enfrenta e o que são os ensinamentos que a gente pode captar disso porque se elas sobreviveram aos colossais ataque subterrâneos e chegaram até aqui é porque elas tiveram estruturas muito fortes".

Há 30 anos eu trabalho encontrando pedras que tenham narrativas poéticas e artísticas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para ela é isso. Não só decifrar a história do que vê, mas conseguir encontrar o que tem uma história para contar.

Denise conta tudo que conseguiu absorver das pedras. Seus nomes, seus caminhos, os motivos para suas formações. Mostra alguns exemplos e fala entusiasmada sobre os desafios encontrados por cada uma dela até chegar ali, daquele jeito. Destaca a curiosidade que cada uma apresenta, com detalhes. Tudo o que ela vê e pode decodificar e entender. "Meu papel é identificar e deixar que elas sejam protagonistas daquilo que já está na evidência delas. A natureza me precede e simplesmente dou sustentação ao que a pedra fala, vamos escutar".

Depois de muitos anos com o seu trabalho artístico - Denise participou de exposições nos principais museus de São Paulo, além de ter realizado diversas apresentações de seus trabalhos fora do país - ela iniciou um trabalho de arte-educação. Após criar e dirigir a Ópera das Pedras, levou essa inspiração para seu projeto na comunidade de Heliópolis com a criação do Espetáculo da Terra, cortejo anual sobre a integração do homem com a terra e a natureza. "As crianças são muito mais abertas e têm menos resistência do que nós, que já somos cristalizados. A criança não, e aquilo foi crescendo. Eu acredito que se a pedra evolui o homem também evolui. Os ensinamentos da pedra são etapas de evolução".

A natureza me precede e simplesmente dou sustentação ao que a pedra fala.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"A natureza me precede e simplesmente dou sustentação ao que a pedra fala, vamos escutar".

O projeto de arte-educação dura quatro meses do ano e são feitos workshops e laboratórios sempre com o estudo e o olhar para as pedras como pano de fundo. Ao fim, os jovens produzem um espetáculo apresentado na comunidade. "Vamos trabalhando com os personagens da pedra, eles constroem as alegorias do imaginário da pedra e passam daí a personificar o nascimento da pedra, mas estão personificando suas próprias batalhas e conflitos e trazendo a tona. São portadores das suas vozes, [podemos] mostrar que o tesouro é a potencialização do imaginário dessas crianças. A partir do momento em que a imaginação pode refletir o sol e a estrela de cada um, você está dinamizando a sociedade, está criando e possibilitando uma evolução social".

Em seus trabalhos, Denise sempre busca mostrar e fazer analogias da história de criação das pedras com a vida das pessoas e o processo de transformação de cada um. "Eu decodifiquei o nascimento da pedra e quero mostrar como isso tem a ver com a nossa condição humana. Como a gente protege nosso sonho, como realizar nosso sonho, como possibilita que esse sonho seja precioso para a humanidade". Além disso, após todos esses anos de observação e de escuta da pedra, identificou o que é precioso para ela. "Para mim é poder verificar que esse aprendizado possa ser transmitido porque eu tive a oportunidade de aprender com as pedras. A arte é um meio de transmitir esse conhecimento através da protagonização das pedras. A revelação e os tesouros vem a tona e estão aqui para serem escutados e decifrados por muito mais pessoas".

Eu acredito que se a pedra evolui o homem também evolui. Os ensinamentos da pedra são etapas de evolução.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Além disso, após todos esses anos de observação e de escuta da pedra, identificou o que é precioso para ela.

A decodificação já está feita. Cabe agora observar com atenção. Escutar com cuidado. É o que ela faz todo dia. Não é por acaso que seu livro de meditação está guardado entre (e por) pedras. "Não deixo de contemplar a pedra em nenhum momento porque ela está sempre me informando. Eu acredito que as pedras falam. E não falam?"

Ela escuta. E vê todo esse universo em sua frente.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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