ENTRETENIMENTO
14/09/2018 16:11 -03 | Atualizado 14/09/2018 16:15 -03

'Nasce Uma Estrela': Lady Gaga e Bradley Cooper brilham em musical eufórico

O filme de Cooper transcende seus antecessores e se torna uma crítica pertinente da fama e um romance de partir o coração.

Warner Bros

ATENÇÃO: este texto contém spoilers!

Quando vemos Lady Gaga pela primeira vez em Nasce uma Estrela, ela está em um cubículo de banheiro, terminando com seu namorado no meio de seu turno de trabalho. Ela desliga o telefone e sai gritando, jogando-se ao chão, angustiada, e berrando, enfurecida: "Merdas de homens!"

É claro que não é realmente Gaga quem faz isso. É Ally, uma garçonete que mora com seu pai briguento (Andrew Dice Clay) e aguenta as ordens de seu chefe exigente (Greg Grunberg). Ela tem os maneirismos e a voz contralto de Gaga, mas Ally é uma criação distinta: uma popstar em estado bruto que passa ao largo da bagagem que qualquer cantora pop já conhecida e do calibre de Lady Gaga levaria a um papel no cinema. Gaga, em sua estreia como atriz, é totalmente real, e não apenas porque ela aparece gritando e e se debatendo. Bradley Cooper, outra força inesperada, criou o filme – é seu primeiro trabalho como diretor e ele faz o papel do par romântico de Ally --, mas Nasce uma Estrela é um grande trabalho de Lady Gaga.

Hollywood dedica afeto especial a essa tragédia romântica desde o filme original em Technicolor, de 1937. Ao longo dos anos, seu comentário sobre as dificuldades da fama e as provações pelas quais as mulheres passam devido ao ego dos homens foi ficando cada vez mais incisivo, se bem que Nasce Uma Estrela seja muito mais do que apenas uma crítica às "merdas de homens". Ally é a versão mais recente de um papel que requer uma celebridade megarrenomada e megatalentosa, alguém que já conheça em primeira mão como é conviver com a curiosidade insaciável do público: Judy Garland como atriz no primeiro remake (1954), Barbra Streisando como a jovem roqueira no segundo remake (1976) e agora Lady Gaga como cantora de cabaré que começa nervosa demais para cantar suas próprias composições e aprende a aceitar o papel de diva pop sensual, com cabelo tingido de loiro alaranjado, outdoors gigantes e uma canção que pergunta "por que você fica tão gostosa nesse jeans? Por que você chega perto de mim com essa bunda?"

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Este filme não é um Nasce uma Estrela como outro qualquer. É uma crítica pertinente da máquina que converte talento em campanhas de marketing e do orgulho frágil que tornam os aplausos de uma plateia ao mesmo tempo condenatórios e viciantes. E mais, é um filme que vai agradar tremendamente ao público, um filme embasado em suas origens mas transcendente em sua execução – palavras que eu nunca imaginei que usaria para descrever a estreia como diretor do cara que protagonizou Sniper Americano.

Antes de vermos Ally berrar no banheiro, o filme começa com Jackson Maine (Cooper) engolindo comprimidos e tomando uísque num concerto ao ar livre onde milhares de fãs deliram com seu country rock envelhecido. A câmera acompanha Jackson de perto como se fosse seu par numa dança, perseguindo-o quando ele tropeça em direção ao microfone e arrasa num solo de guitarra. Quando ela se volta aos espectadores, ela adota uma dimensão de objetiva olho de peixe, mergulhando imediatamente na psiquê de Jackson para revelar um homem que mal registra o ambiente que o cerca. Para ele, a vida virou uma grande mancha indistinta.

Mas seu mundo se aguça mais tarde naquela noite, quando, louco por mais um drinque, ele entra cambaleando num bar gay e só começa a prestar atenção quando Ally sobe ao palco para cantar um cover de La Vie en Rose. Na nota final da canção ela se vira para ele, e por um breve segundo vemos os holofotes banhando o rosto dela com luz aveludada. Hipnotizado pela voz e o carisma dela, Jackson a convence a tomar um drinque com ele, e ali tem início a história dos amantes destinados a um fim infeliz, um deles em ascensão e o outro em queda.

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Quando Judy Garland e Barbra Streisand estrelaram Nasce Uma Estrela, seus respectivos relacionamentos com os homens que toparam com seu talento se desenvolveram em um ritmo que não dava espaço para nuances. Mas Bradley Cooper, que co-escreveu este roteiro com Eric Roth (Forrest Gump) e Will Fetters (Um Homem de Sorte), reserva mais tempo para Ally e Jackson amadurecerem como personagens. Jackson pode ter se rendido à beleza de Ally – algo que o filme destaca para contestar os homens que disseram a Ally que ela não é bonita o suficiente para ser famosa -, mas ele se rende igualmente a seu talento de compositora, sua história familiar e seu companheirismo.

Quando ele se apaixona por uma balada que ela compôs chamada Shallow, Jackson a pressiona a cantar a balada no show dele. Ally inicialmente se nega, mas então, quando o ouve dedilhar os acordes iniciais, ela se força a subir ao palco. Quando ela pega o microfone na mão, vemos novamente o mesmo brilho vermelho que destacou o rosto dela durante La Vie en Rose. O mundo em volta desaparece e Ally vive o momento pelo qual todos ansiamos: aquele instante repentino em que as constelações se alinham e o universo se abre. Finalmente o paraíso pelo qual ela tinha desistido de esperar a encontrou.

Para Ally, esse paraíso lhe rende um contrato com a gravadora Interscope Records. Jackson queria promover o talento dela, mas será que aguenta concorrer com ela? Desse momento em diante, Nasce uma Estrela vira um cabo de guerra entre a devoção comovente e a realidade amarga. Enquanto o produtor de Ali (Rafi Gavron) a molda para virar estrela, a fama dela não para de crescer. Enquanto isso Jackson é relegado ao segundo plano, e os ciclos de dependência química e depressão que o assombram há anos tornam-se impossíveis de suprimir, ao mesmo tempo em que ele faz tudo que está ao seu alcance para honrar seu compromisso com Ally.

Se você já viu outra versão de Nasce Uma Estrela, já sabe como se desenrola o resto da história. O que talvez o surpreenda é o banquete emocional e estético que Bradley Cooper preparou.

Lady Gaga confere um naturalismo incrível ao papel, acentuando a garra proletária de Ally ao mesmo tempo em que aponta o lugar natural dela nos palcos brilhantes do mundo. Os olhos de Gaga são tomados de fervor, de uma maneira que não podiam em American Horror Story: Hotel. Ela absorve tudo que a cerca, como se estivesse vivenciando tudo isso pela primeira vez. Enquanto Jackson mergulha cada vez mais fundo em seus vícios, ela ostenta a cautela no rosto, como uma máscara que não consegue esconder. Suas falas comunicam tão bem que é chocante: ela constantemente procura as palavras mais adequadas, ou explode com o grau exato de impulsividade ou então se deleita com os holofotes com a dose perfeita de espanto. Gaga também tem uma relação perfeita com os atores coadjuvantes do filme, incluindo Andrew Dice Clay, Anthony Ramos (que faz seu melhor amigo, sempre pronto para lhe dar apoio), um excelente Sam Elliott (o empresário de Jackson) e Dave Chappelle (um amigo de Jackson). A cada novo encontro o espectador a percebe adaptando-se ao cenário em tempo real, quer esteja gostando dele ou lamentando-o.

E Bradley Cooper. Oh, Bradley Cooper. Raramente até hoje eu o valorizei como ator. Agora estou me perguntando como pude me enganar tanto por todo esse tempo. Quer esteja falando ou cantando, ele mergulha em seu registro mais baixo para produzir uma modulação rouca que anuncia a vida de pressões e sofrimentos de Jackson. Em outra vida, Cooper poderia ter sido roqueiro. Ele certamente tem a postura necessária para tal. Em suas mãos, Nasce Uma Estrela vira muito mais que uma narrativa desgastada sobre um homem que promove a carreira de uma mulher – é um tête-à-tête cheio de paixão sobre os impulsos gêmeos de ambição e afeição, que nem sempre se mesclam bem.

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Cooper foi sagaz quando contratou como diretor de fotografia o talentoso Matthew Libatique, cuja iluminação suave e câmera ambulante tornaram tão dinâmicos os filmes de Darren Aronofsky Cisne Negro e Mãe!. Libatique mescla as sombras vermelhas com tons de azul e verde que formam o pulso da história, ressaltando perfeitamente a alegria principal do filme: a música. Composta por Lady Gala e o roqueiro Lukas Nelson (filho de Willie), a trilha sonora – melhor ainda que a versão estrelada por Streisand – é o que confirma a verve do par central. Ela torna Ally e Jackson ainda mais apaixonantes, porque torcemos não apenas por eles, mas por seu talento.

Em alguns momentos Nasce Uma Estrela destaca a perspectiva de Jackson em um momento que a de Ally seria mais interessante. E o filme revela o paradoxo do protagonista, um astro do cinema. Como é quem Jackson, alcoólatra há anos e aparentemente indiferente à boa forma física, consegue ser tão escultural? E será que devemos realmente acreditar que Gaga, mesmo em seus momentos quase sem maquiagem, não é uma Vênus quase perfeita? Mas é claro que vamos tolerar os excessos inevitáveis de Hollywood quando eles resultam em algo tão belo, tão comovente, tão resplandecente. Não esqueça de levar lenços ao cinema – haverá lágrimas.

"Você não está cansado de tentar preencher esse vazio?", canta Ally. A pergunta representa o espaço ocupado por este filme no cânone atual de Hollywood, em que os estúdios fogem de projetos que não tenham super-heróis ou gags histriônicas. É isso o que tão frequentemente fica faltando no nosso cenário cinematográfico moderno: filmes artísticos com personagens dimensionais e que também oferecem entretenimento exuberante. Nasce Uma Estrela preenche o vazio e muito mais. Temos sorte de contar com ele.

Nasce uma Estrela chega aos cinemas em 11 de outubro.

Assista ao trailer abaixo: