15/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:39 -03

Marie Marques, a mulher que enfrenta a transfobia do universo da tatuagem

Aos 29 anos, ela montou o próprio estúdio por não conseguir trabalhar em outros lugares: “Tenho que ser julgada pela qualidade do que eu faço", afirma, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marie Marques é a 192ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Foi na adolescência que Marie Marques, 29 anos, teve seu primeiro encontro com a arte. Escondida da mãe, por medo da reação, inscreveu-se para concorrer a uma bolsa em um curso de teatro. Mas o problema veio quando a resposta foi positiva e precisou explicar à sua mãe que, a partir de agora, precisava estudar. O medo não teve vez. Rodeada do amor, que tem até hoje, Marie fez a inscrição e começou a estudar e viver nos palcos. No teatro, viveu apenas a primeira das pequenas revoluções que viveria ao longo de 29 anos de vida. A menina, antes tímida, mostrou-se ao mundo e hoje é uma tatuadora. Problema nenhum, se junto com o encontro da sua identidade como mulher e da sua profissão não viesse o combate diário, e por vezes exaustivo, contra a transfobia.

Foi no teatro que começou a perceber que "não era o que era". "Eu não conseguiria estar aqui e falar com você, eu era reservada além da conta", conta à reportagem do HuffPost Brasil. Hoje uma mulher extrovertida, ela credita a reclusão da adolescência ao fato de ser uma mulher em um corpo que não a pertencia. Aos 22 anos, a sua arte passou dos palcos para as agulhas e começou a aprender a tatuar. Começaria, assim, mais uma pequena-grande revolução: uma tatuadora transgênero no ambiente machista, como ela define, tinha muito a enfrentar.

Elogiavam meu trabalho, mas quando eu falava que sou uma mulher trans, nunca mais entravam em contato comigo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 22 anos, a sua arte passou dos palcos para as agulhas e começou a aprender a tatuar.

"Pelas técnicas que tenho, se eu tivesse alguém disposto a me ajudar, iria tatuar muito melhor. Só que eu nunca tive a ajuda de ninguém. Procurava trabalho nos estúdios e ninguém queria me empregar. Eles elogiavam meu trabalho, mas quando eu falava que sou uma mulher trans, nunca mais entravam em contato comigo", afirma a tatuadora.

Antes de se enveredar pelo mundo da tatuagem, Marie vendeu empadas, trabalhou como divulgadora de campanhas políticas nas ruas, fez bijuterias e tudo o mais que pôde para se sustentar. Cogitou a prostituição, mas desistiu porque não "fazia parte de quem ela é". Apesar disso, não julga outras colegas trans que trabalham como prostitutas: "Para o homem, a mulher trans só serve para transar. Na hora de deitar e gozar, somos maravilhosas. Quando ele vai embora, não fala nem um 'oi', então não acho errado cobrar por sexo".

Na tatuagem, tentou um emprego por muitas vezes, até que percebeu que não conseguiria trabalhar em um estúdio. Decidiu investir no seu próprio estúdio de tatuagem e piercing, para fugir da transfobia dos patrões e conseguir juntar mais dinheiro para completar seu processo de transição de gênero. A transfobia que a afastou de bons estúdios, aliás, nunca foi compreendida por ela em um meio que já é visto com maus olhos pela sociedade.

"No meio da tatuagem a transfobia é ainda mais absurda. A tatuagem já é vista como coisa de marginal, dizem que não é profissão. Como essas pessoas que são oprimidas, vistas como marginais todos os dias, querem oprimir uma outra?", indaga Marie.

Eu tenho a tatuagem como válvula de escape, por mais que a cada dia esteja mais difícil.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marie cogitou a prostituição, mas desistiu porque não "fazia parte de quem ela é".

Além dos colegas tatuadores, Marie passou três anos sofrendo transfobia no local em que montou o primeiro estúdio: vizinhos, clientes e transeuntes não se furtavam em ofendê-la. Decidiu sair do local e procurar uma outra loja para o seu negócio. Mudou-se para um sobrado onde, hoje, "sente-se livre". Ali, criou um casulo para não deixar-se abater por tantas ofensas gratuitas, e já as inclui no cotidiano como quem conta uma velha novidade: "hoje sofri um ataque".

"A melhor coisa que eu fiz foi morar no alto, porque aqui em cima ninguém vai me atingir, ninguém vai me ofender, me atacar. Eu ainda sofro transfobia tatuando, me chamam pelo pronome masculino. Mas aqui dentro eu sou feliz: minhas emoções, minhas descobertas, minhas criações, amigos queridos", conta.

A necessidade de criar mecanismos para poder ser quem se é intriga a tatuadora. "Eu não entendo como você ser você influencia na vida dos outros. Não entendo o motivo de não não gostar de um LGBT. Qual a diferença na gente? Eu sinceramente não acho que tenha solução, acho que o País vai ser eternamente transfóbico", analisa.

Tempos atrás, ela foi torturada em uma rua da zona norte do Rio de Janeiro. Ao tentar pegar um trem, descobriu que as composições já tinham parado de circular. Decidiu buscar um ônibus, quando um grupo de homens a cercou. Marie conseguiu correr, mas foi encurralada poucos metros depois. Ali, a esfaquearam incontáveis vezes. Ela conta que o sangue jorrou como chafariz, e em algum momento ela conseguiu cravar uma faca em um dos agressores para se defender. Nada mais se lembra, até o momento em que acordou e foi amparada. Para ajudar a contar a história, mostra a marca da facada mais profunda no braço esquerdo, o mesmo que hoje não tem o movimento dos dedos.

Eu sinceramente não acho que tenha solução, acho que o País vai ser eternamente transfóbico.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Na tatuagem, tentou um emprego por muitas vezes, até que percebeu que não conseguiria trabalhar em um estúdio.

"Eu tomei uma voadora, tive que beber lama, tive que falar coisas horríveis. Eu senti, passei e vi coisas horríveis, que nunca tive ou terei coragem de contar. Não desejo para ninguém o que passei naquele momento, porque foram coisas que um ser humano não precisa passar", conta ela, emocionada.

Dar queixa à polícia? Nem pensar. A estigmatização e a transfobia afastam a ideia de que o sistema judiciário e criminal encontrariam a justiça necessária para ela. "Vou falar que fui espancada na zona norte, em um ponto de ônibus? Quando saísse numa matéria, iriam dizer que uma travesti estava se prostituindo e foi espancada. Ninguém vai falar que eu estava só esperando um ônibus. Eu sou uma pessoa trans, ninguém vai pensar o básico."

Falar da tortura que sofreu no País que mais mata transgêneros é necessário para deixar bem nítido que reclamar não é vitimização: "Dizem que é vitimismo, mas não pode dizer que é vitimismo uma coisa que não se vive na pele".

O preconceito contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais matou uma pessoa a cada 19 horas no Brasil em 2017. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, o número de mortes motivados pela LGBTfobia chegou a 445 no ano passado, um aumento de 30% em relação a 2016. Também no ano passado, o Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), recebeu 1.720 denúncias de violações contra LGBTs.

De acordo com pesquisa contínua feita pela ONG Transgender Europe, o Brasil tem o maior número absoluto de assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso. Levantamento mais recente, de outubro de 2015 a setembro de 2016, mostra 123 homicídios desse tipo no País, bem acima do México, que fica em segundo lugar, com 52 mortes.

Já o relatório Violência Contra Pessoas LGBTI de 2015 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), revela que a média da expectativa de vida de mulheres trans varia de 30 a 35 anos de idade.

O Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017, divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), por sua vez, mostrou a cada 48h uma pessoa trans é assassinada no Brasil e a idade média das vítimas é de 27,7 anos. Segundo o levantamento, 80% das vítimas eram negras ou pardas e 67,9% tinham entre 16 e 29 anos. 70% eram profissionais do sexo.

Após o episódio, familiares — "mas não meus pais ou irmãos" — afirmaram que a agressão não teria acontecido caso Marie não "se vestisse de mulher". Conselho errado.

"Se Deus me quisesse homem, teria me transformado em homem depois de tudo, mas eu só ganhei forças. Não abaixo a cabeça para ninguém, nunca vou abaixar a cabeça para ninguém. Eu não estou aqui para abaixar a cabeça para ninguém. Por que vou deixar de ser quem eu sou para agradar os outros? Eu sou uma pessoa trans porque sei que sou uma mulher", ressalta.

Dizem que é vitimismo, mas não pode dizer que é vitimismo uma coisa que não vive na pele.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Antes de se enveredar pelo mundo da tatuagem, Marie vendeu empadas e trabalhou até como divulgadora de campanhas políticas.

Neste ano, sem esquecer dos seus traumas e seguindo a vida, candidatou-se a Miss Tattoo em um evento do Rio de Janeiro. Ganhou a faixa, e de brinde a rejeição de colegas. Não esperava. Mais uma pequena-revolução de Marie, que exibe com orgulho a prova de que foi a primeira mulher trans a ganhar um título almejado por muitas mulheres cis, mas ressalta como o episódio foi mais uma prova da transfobia na tatuagem.

"As concorrentes do concurso estavam sendo legais comigo enquanto achavam que eu iria perder. Uma até me disse: 'não sabia que você podia estar aqui porque aqui é para mulher, não para trans'. Quando eu ganhei, nenhuma delas me parabenizou ou abraçou. Eu estava sozinha", conta Marie. E completa: "Lá eu tive rejeição total. Pessoalmente, foi bom: vim do nordeste, sou periférica e pobre, vim de uma família de nordestinos e minha mãe cansou de ficar sem comer para nos alimentar. Eu me tornar uma miss trans é bom. Esse título vai ser sempre meu".

Mas profissionalmente Marie ainda não viu os resultados: "Quando a gente ganha concurso, ganha prêmios e patrocínios. Eu não ganhei nada, fui totalmente excluída", conta. Ainda assim, ela espera que, mesmo em um meio transfóbico, consiga alcançar um dia o respeito mínimo para exercer seu trabalho.

"Meu estúdio não precisa estar cheio, só quero o respeito necessário. Tenho que ser julgada pela qualidade do que eu faço, porque quando entra alguém aqui, não sou homem nem mulher, sou uma pessoa que tatua e vou tratar bem", afirma.

Meu estúdio não precisa estar cheio, só quero o respeito necessário.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marie exibe a faixa de vencedora do "Miss Tattoo".

E é no momento em que está marcando para sempre a vida e a pele de um cliente que Marie relembra o motivo que a fez atravessar tantos anos de pequenas revoluções grandiosas.

"Na tatuagem, eu saio de mim. Quando eu estou tatuando, é como se fosse um pacto, eu tenho que pensar em coisas positivas, coisas boas, para passar para quem estou tatuando. A pessoa não merece levar energias pesadas. Eu tenho a tatuagem como válvula de escape, por mais que a cada dia esteja mais difícil ser uma tatuadora por causa do preconceito, que é grande."

Por que vou deixar de ser quem eu sou para agradar os outros?

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Por que vou deixar de ser quem eu sou para agradar os outros? Eu sou uma pessoa trans porque sei que sou uma mulher", afirma.

Por destino ou necessidade, Marie não sabe de onde tira forças para continuar. Mas continua, apesar das violências de um mundo transfóbico. Sorte a dos seus clientes, e de quem mais cruza o seu caminho: "Não sou uma pessoa totalmente feliz, mas sou realizada como pessoa. Se você não achar que tenho passabilidade [de mulher cis], não vai me afetar. Eu sei que sou uma mulher maravilhosa, e não vou deixar me afetarem", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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