14/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 14/09/2018 00:00 -03

Bruna de Oliveira, a nutricionista que vê o cultivo de PANCs como revolução

Ela é especialista em plantas alimentícias não-convencionais e garante que é preciso uma revolução: “A gente é muito analfabeto ecológico mesmo, tem muita coisa pra aprender."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna de Oliveira é a 191ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Na sala do seu apartamento no centro de Brasília é possível ver que Bruna de Oliveira, 27 anos, não é uma nutricionista comum. O janelão tão característico dos prédios residenciais da capital federal está tomado pelo verde das plantas. Tem capuchinha, bertalha, physalis, batata doce, ora-pro-nóbis, major gomes, shaya, nirá, onze horas, saião e até uma jabuticabeira plantada em um vaso grande. O foco do trabalho da jovem gaúcha de sorriso largo está ali, na imensidão alimentar que a natureza nos oferece. Ela é especialista nas chamadas PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais).

Ela nasceu em Porto Alegre em um bairro periférico, em uma casa que priorizava a alimentação saudável e equilibrada. "Meus pais tiveram essa sensibilidade de ter coisas naturais, com muita variedade. O momento em que a gente comia um lanche fora era um 'evento' e a gente sabia que tinha comida de aniversário, por exemplo, que era só de vez em quando. Nunca fomos dos excessos e sempre foi uma coisa bem fluida". Além disso, sua família é cristã e ela conta que cresceu com a ideia muito forte de que existe um criador para cada coisa, mas que suas percepções foram mudando ao longo dos anos. "Na adolescência, comecei a questionar qual era meu papel no mundo, sabe? Eu ressignifiquei essa percepção e eu não me considero evangélica, me considero ecológica".

Se a gente viver de forma sistemática com a natureza também estamos em conexão com a nossa forma criadora.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
"Precisamos entender que é hora de ser menos humano e mais bicho. E não é uma luta fácil", afirma.

Na busca em descobrir sua função no mundo, Bruna explorava todas as oportunidades que surgiam, especialmente em trabalhos voluntários. "Na escola estava sempre envolvida nos rolês. É pra ajudar as crianças carentes? Tô dentro. É pelo meio ambiente? Tô dentro!", relembra. Até que ela decidiu que queria ser design de joias, mas a ideia não foi bem recebida quanto ela imaginava. Foi aí que sua mãe tentou conectá-la com outra área. "Por livre e espontânea pressão, minha mãe me levou para uma escola técnica que funcionava no hospital que ela trabalhava", brinca Bruna. "As opções eram administração hospitalar, radiologia, análises clínicas e nutrição. Como eu nem consigo fazer um hemograma que eu já passo mal, fiquei com menos pior". No caso, a nutrição.

No primeiro dia de aula ela anunciou: "meu nome é Bruna e estou aqui obrigada, na verdade. Eu quero mesmo é ser designer". Ela odiava a escola e muitas vezes matava as aulas. Como a mãe trabalhava perto, de vez em quando passava lá, abria porta e dizia pra professora que só queria ver se a filha estava ali. Mas, com o tempo, as coisas foram se acertando e uma professora de filosofia fez Bruna enxergar um outro lado da nutrição. "Eu fiz um trabalho sobre desigualdade social e meu tema era fome. Aquilo mudou a minha vida. Quando eu vi as realidades cinzentas, especialmente dos países africanos, aquilo me marcou profundamente. Aí eu pensei 'é com isso que eu quero trabalhar!'. Como eu sou muito intensa, cheguei pra minha mãe e disse: 'eu quero ir pra África'", relembra Bruna, que acabou convencida de que primeiro poderia tentar ajudar do lado de cá, para depois partir pra outro continente.

Comecei a ver a nutrição como uma potência enorme, como uma forma de ajudar outras pessoas.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O molho pesto feito de capuchinha é uma das especialidades de Bruna.

Ela resolveu seguir em frente e cursar nutrição, mas tinha expectativa de que fosse aprender a plantar e cultivar ou saber mais sobre os alimentos. "A formação do nutricionista está muito voltada para o tratamento de doenças e prescrição de dieta. No meio do curso eu já tava pensando 'não quero fazer isso, acho que vou trocar pra ciências sociais'. Aí aconteceu a segunda revolução da minha vida. Uma professora de alimentos e ambiente, em quatro horas, deu sentido para a minha formação", conta. Foi nessa aula que Bruna foi apresentada às plantas alimentícias não convencionais. "As coisas começaram a ficar um pouco mais claras pra mim. A questão da fome como uma doença social que faz com que as pessoas não tenham acesso aos alimentos e as PANCs como uma estratégia de transformação dentro desse conceito todo. A planta que tinha alguma funcionalidade alimentícia e é pouco utilizada ou desconhecida", aponta.

Existem mais de 350 espécies de plantas que a gente pode comer e não sabe.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Quando a reportagem chegou, a mesa estava posta: na foto, o pão de queijo de ora-pro-nóbis.

O envolvimento e o estudo com as PANCs fez Bruna questionar uma série de sistemas, desde o da agricultura quanto o da comercialização destas plantas na cidade. "Comer é um ato político. As PANCs, em algum momento de escassez no campo, pode ser o único movimento alimentar de uma família. Na cidade, uma planta que seja PANC agora é cult, é sustentável. Tem toda uma gama de jargões para reafirmar esse consumo, sem considerar essas diferentes dimensões, em diferentes lugares. Então, existem muitos sentidos e significados por atrás de um conceito". Seu estudo de mestrado a fez questionar esses dois aspectos. "Como pode algo ser tão paradoxal que pode trazer sofrimento pra uma pessoa e glamour pra outras? Estou tendo essa percepção agora porque me coloquei para olhar essa bandeira que levantei por tantos anos em outra perspectiva", conta.

Enquanto cursava nutrição, Bruna vivia no apartamento da mãe. Mas alugou seu quarto e com o dinheiro do aluguel comprava ovos, pão, trigo e outros alimentos básicos. E, para complementar, saía na rua e coletava tudo o que poderia ser consumido. As plantas que estão espalhadas na cidade, no entanto, hoje em dia, ganharam status e muitas vezes quando vendidas nos mercadinhos gourmet nas capitais brasileiras o preço não é nada amigável. "Eu era a louca das PANCs, acho que ainda sou. Eu só falava disso, queria fazer oficina, ensinar. Achava que ia salvar o mundo com as PANCs e talvez ainda acredite nisso. Mas é preciso respeitar os lugares e não vir com uma fórmula pronta. Você não é um ser iluminado porque sabe reconhecer uma capuchinha ou porque consome farinha de ora-pro-nóbis, ainda mais se paga 92 reais pelo quilo sendo que você pode encontrar de graça na rua".

A natureza é abundante e ela é generosa, mas a gente transforma tudo em mercadoria, até algo mais basilar na nossa existência, que é a nossa comida.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Bruna continua a tentar viver em harmonia com a natureza e segue forte no seu propósito, ainda que os desafios se mostrem no caminho.

Em 2015, ela chegou em Brasília para trabalhar na Fiocruz no observatório brasileiro de hábitos alimentares. Para ela, as plantas "dão certo porque uma tomam conta uma da outra". E foi assim na capital federal. Ela encontrou o apoio necessário para crescer, ainda que o florescer tenha sido bem difícil e desafiador. "Eu tinha uma visão de que queria ter uma casa em que eu me sentisse bem e que eu pudesse receber pessoas. Achei um apartamento que divido com outras pessoas e eles acolhem a minha loucura e as minhas pancs", brinca. No dia da nossa conversa, ela recebeu a reportagem do HuffPost com café passado na hora e quitutes feitos com PANCs: pão de queijo de ora-pro-nóbis, geleia de hibisco, pesto de capuchinha, coração de bananeira refogado e suco de camapu.

Com o sorriso largo no rosto, as histórias de Bruna parecem não ter fim. Ela conta empolgada sobre quando ia se formar: em determinado momento, ela encontrou em uma horta algo que parecia uma árvore de natal. "Perguntei: moço, que planta linda é essa? Era alface roxa. Eu nunca tinha visto um pé ou flor de alface! A gente é muito analfabeto ecológico mesmo, tem muita coisa pra aprender", conta. Ela também faz parte do coletivo "Porquenão?" com um canal no Youtube que fala sobre iniciativas sustentáveis, agricultura urbana e, claro, PANCs.

A gente pode emancipar as pessoas através do alimento. Na minha vida isso foi transformador e pode ser pra outras pessoas também.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Em seu apartamento tem capuchinha, bertalha, physalis, batata doce, ora-pro-nóbis, major gomes, shaya, nirá, onze horas, saião e até uma jabuticabeira plantada em um vaso grande.

No meio da correria e do cinza em terras brasilienses, Bruna conta que desejava mais cores. Então, criou um site. No Crioula, ela mostra seus projetos. "Lá está a síntese de toda essa loucura que eu vivo desde a adolescência. Eu estou povoando o meu cotidiano com coisas que eu acredito e pratico, e como a alimentação é revolucionária", conta. Mas o ativismo dela vai além da alimentação. "Tudo isso junto com o reconhecimento de ser uma mulher negra. Eu olhei para as minhas questões, valorizando as mulheres negras da minha família, colocando a minha mãe num reconhecimento muito maior do que aquele clichê, mas como mulher que precisou se endurecer porque sofreu muito com o racismo. Comecei a entender porque eu me impactei com cenários de fome africanos, porque a vida me levou a trabalhar com comunidades quilombolas, etc. Eu tinha cores pra colorir, eu só precisava vê-las".

A natureza é a centralidade da minha vida. Tento ter a vida mais harmônica possível com o meio ambiente.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
O janelão tão característico dos prédios residenciais da capital federal está tomado pelo verde das plantas.

O sonho de ir pra África não ficou para trás. "Agora meu trabalho lá não vai ser nem como messiânica ou como ativista urbana. Mas sim como alguém que quer compartilhar saberes e aprendizado", afirma. Bruna continua a tentar viver em harmonia com a natureza e segue forte no seu propósito, ainda que os desafios se mostrem no caminho.

"Eu ainda coleto coisas na rua, tento comprar roupas em brechó sempre que possível, uso copo reutilizável, participo de horta comunitária, ajudei a implementar uma horta no trabalho, tenho minhocário. Precisamos entender que é hora de ser menos humano e mais bicho. E não é uma luta fácil. Tem dias que eu fico triste e chateada; às vezes eu tenho medo, às vezes eu não acredito em mim. Aí eu venho pra sala com as minhas plantinhas e penso que vai ficar tudo bem. A vida é impermanência".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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