13/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 13/09/2018 14:35 -03

Maria Genu, a cabeleireira que se reencontrou na universidade após os 50

12 anos atrás, a assistente social e pedagoga de 62 anos não imaginou que chegaria tão longe: "Quando apareceu a chance de entrar na universidade, não pude ignorar”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Maria Genu é a 190ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Abrir o álbum de formatura, passar os dedos em cima das fotos e lembrar cada minuto daquela noite de festa. O gosto e as espuminhas do champanhe, o ritmo da música, o vestido e até o sapato novo apertado até hoje fazem a manauara, Maria das Dores Genú, de 62 anos, respirar mais forte, quase que ansiosa, como se estivesse revivendo o baile de formatura e a alegria de se formar em serviço social após completar 50 anos.

Casada e mãe de 2 filhos, a ex-cabeleireira conta que entrou na área de serviços de beleza por necessidade. Única mulher de 5 irmãos, Maria conta que tinha que ajudar os pais a criá-los e, por isso, precisou interromper os estudos no colegial para trabalhar e ajudar nas contas de casa. Ela já foi secretária de lojas de departamento em Manaus e trabalhou como empregada doméstica em casa de família. Até o momento em que, enxergou no ato mercado de beleza, uma oportunidade de ganhar estabilidade.

Ninguém acreditou que eu mudaria radicalmente de área. Afinal, eu trabalhei por quase 30 anos como cabeleireira.

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O cabelo rosa e os óculos em formato de borboleta: As tendências que Maria lançava em 1980.

Foi aos 25 anos que Maria começou tímida como cabeleireira, atendendo as amigas dentro do quartinho apertado da mãe. "Sempre fui vaidosa, gostava de me maquiar, andar bem vestida, com cabelo da moda. Tinha que encontrar algo que me fizesse ter renda e uma amiga me estimulou a trabalhar com serviços de beleza", lembra, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ela diz que aprendeu a fazer cortes de cabelo "copiando". A atualmente assistente social e pedagoga comprava revistas para observar os cortes, penteados e tentava reproduzir o que achava bonito e interessante nas amigas que viraram suas cobaias.

"Alguns cortes davam certo, outros não. Era desafiador. Mas acabou dando certo. Com o tempo consegui juntar dinheiro para alugar uma casa maior. Foi quando consegui montar o salão na garagem com um espelho, uma bancada, uma cadeira e um lavatório. Ali estava eu sendo autônoma", explica.

De certa forma isso mudava algo dentro delas e mudava, aos poucos, em mim também.

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Casada e mãe de dois filhos, a ex-cabeleireira conta que entrou na área de serviços de beleza por necessidade.

Mesmo sem curso profissionalizante na área de beleza, Maria cresceu tanto trabalhando como cabeleireira em Manaus que se tornou referência no ramo. Ela chegou a oferecer cursos e não só era procurada por causa das técnicas exclusivas de cortes e escova, como também pela empatia. Muitas clientes chegavam ao salão em busca da beleza -- não só física. "Eram mulheres com problemas diferentes [entre eles relacionamentos abusivos e violentos] mais com um ponto em comum: não saber, exatamente, quem eram e o que buscavam", conta.

A bancada do "Salão de Beleza Mary Genu" era vista como um divã enquanto Maria, pacientemente, aparava, pintava ou escovava os cabelos das clientes. "Eu ouvia atentamente cada uma e sabia que não era um corte de cabelo que iria mudá-las. Elas teriam que tomar uma decisão. A mudança não viria de fora pra dentro. Quando eu terminava de atender era gratificante vê-las indo embora mais bonitas e, principalmente, mais leves."

A cada mulher que Maria ouvia no salão, um gatilho se destravava. Ela conta que percebeu que, quanto mais as clientes se importavam com os problemas, mais se tornava difícil entender o papel de cada uma na família, na a sociedade e no cuidado com si mesmas. "Eu comecei a ficar sufocada e me enxergar com parte do problema delas. Não sabia o que estava acontecendo comigo. No auge dos meus quarenta e poucos anos em me vi em conflito."

Eu precisava me transformar como mulher e não podia esperar o tempo certo, pois esse tempo já tinha passado pra mim.

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Há 12 anos, Maria Genu entrou na universidade -- e está longe de sair de dentro dela.

E, então, aos 48 anos, Maria decidiu voltar a estudar. O primeiro passo? Concluir o ensino médio. Assim, ela entrou no supletivo e voltou à rotina de estudos. Mas o processo ficou longe de ser fácil. "A cabeça não é mesma. Você não memoriza mais, não aprende como antes. Senti dificuldade em cada módulo, de matemática, então... Ôh disciplina difícil. Mas permaneci na fé e me dediquei ao máximo", lembra.

Maria conta que o marido e os filhos a apoiaram, mas nem imaginavam que aquele era só o começo de sua vida acadêmica. "Cheguei aos 50 em 2006. Minha filha estava com 17 anos se preparando para o vestibular. Prestamos o vestibular juntas e em 2007, eu e ela, entramos na universidade. Que felicidade e orgulho senti naquele dia. Parecia que eu nunca mais iria sentir algo tão prazeroso como aquele momento de conquista. Eu estava vivendo um sonho".

Eu só queria mostrar que era capaz, pra mim mesmo. Eu sabia que ia conseguir. Só precisava persistir.

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Depois da graduação em Serviço Social, Maria se formou em pedagogia.

Felizmente, a jornada de Maria na primeira graduação foi melhor do que ela pensava. A maioria dos alunos do curso de serviço social a recebeu como uma "mãezona". "Eu sentava na frente. Sempre gostei de perguntar muito, questionar e sentar na frente facilitava as coisas. Os professores gostavam de mim também. Diziam que participava. Eu amei cada minuto em sala. Me reencontrei. Nos debates pude defender minhas opiniões sobre empoderamento. Levantei discussões e fiz algumas colegas se enxergarem como mulheres essenciais."

Depois da graduação em serviço social, Maria se formou em pedagogia. Ambas, pela mesma instituição, a Universidade Nilton Lins, em Manaus. Após a graduação, ela concluiu duas especializações: gerontologia e psicopedagogia. Atualmente, Maria cursa mestrado em educação pela Fundação Universitária Iberoamericana (FUNIBER). Ela tem o sonho de montar uma escola regular para crianças com transtornos de aprendizagem, além de formar profissionais habilitados para atuar na área.

Após 12 anos, tenho muitas histórias pra compartilhar e para viver dentro do mundo acadêmico.

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Atualmente ela se prepara para montar um Centro de Reforço Integrado voltado para crianças com transtornos de aprendizagem.

Hoje, com a vida acadêmica, Maria deixou o salão de beleza de lado. A academia ocupou tanto tempo que foi difícil continuar no ramo. A meta é ir cada vez mais longe. Lecionar para crianças se tornou um novo sonho que ela ainda busca realizar: "Quero continuar até meu corpo e minha mente permitirem. Os estudos me fizeram renascer, me transformei", conta.

Se depender da persistência e ousadia, com certeza, Maria vai continuar compartilhando, vivendo e fazendo história.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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