12/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 12/09/2018 10:28 -03

Força, potência e delicadeza: As ilustrações feministas de Priscila Barbosa

Artista visual busca transformar padrões de beleza e de comportamento em seus desenhos: "A maneira como eu enxergo e respeito as mulheres ao meu redor mudou”.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Priscila Barbosa é a 189ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

É uma leveza que só. Um olhar daqueles que parecem sorrir para você, com uma delicadeza na fala. Um cuidado, na verdade. E que palavra importante em sua vida e em seu trabalho. A gentileza em olhar para o dia a dia, para si mesma, para as outras pessoas é refletida no que faz. E o resultado é algo suave, belo, feminino - e feminista. E forte. Os desenhos de Priscila Barbosa, 28 anos, são tudo isso. Parecem ter sido feitos sem esforço, de forma natural, como um sopro. E justamente por isso sabemos que por trás de cada traço há muito trabalho, tempo e pesquisa. E cuidado.

Na mesa de seu escritório, suas referências. Livro de botânica, livro de tatuagem, uma planta em um vidro de água. Tudo para que cada traço tenha sentido; para que cada gesto humano retratado tenha fluidez. Logo dá pra ver que apesar de toda a poesia das imagens, nada é aleatório. Tudo foi devidamente estudado – e muito pensado e sentido por ela – para então virar arte. "Sempre gostei de anatomia, me fascinava muito, entender os ossos, músculos, os lugares que tem gordura porque falamos de anatomia e pensamos no esqueleto, mas um corpo é composto por músculos, gorduras, diversas outras coisas... a pele, gosto muito da pele, gosto de explorar, observar isso nas pessoas, as cores, texturas, as variações em uma mesma pessoa, isso é muito interessante".

Precisei de tempo para amadurecer e colocar [minhas ideias] em uma ilustração porque acredito que é uma maneira de você se comunicar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Um dos trabalhos mais recentes de Priscila é inspirado na pelve feminina.

Assim ganham forma muitos retratos de mulheres, um dos focos do trabalho de Priscila. Elas estão ali, naturais. Com seus corpos, suas tatuagens expostas, em meio a plantas. Fazendo suas próprias coisas. Dando seu melhor para serem elas mesmas. Cuidando de si, como podem.

Esse trabalho autoral ganhou mais espaço na vida de Priscila há pouco mais de um ano, quando virou ilustradora freelancer. Além disso, é diretora de arte e co-criadora do Coletivo Júpiter, focado em trabalhos de design. Mas tudo começou de forma tímida, como ela mesma diz. "Comecei com as ilustrações digitais e curti, mas tinha muito medo de fazer, sempre achava que tinha que manjar do programa e que não estava nesse nível, mas comecei e vi que dava para ir, que era legal de explorar e virou o que virou agora, essa coisa mais suave, mais voltada para o mundo das mulheres, discussões dos nossos direitos. Eu comecei a mesclar o que acontecia na minha vida com o que eu queria fazer na ilustração".

Mulher desenhar sempre foi visto como um hobbie. Por isso temos mulheres hoje tentando trazer outro significado.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para trazer a relação das mulheres com a natureza, Priscila estuda formas e espécies que possam se encaixar em sua arte.

E isso aconteceu após anos atuando na área de design, afastada dos desenhos – que, na verdade, era com o que queria trabalhar desde criança. "Precisei de tempo para amadurecer e colocar [minhas ideias] em uma ilustração porque acredito que é uma maneira de você comunicar mesmo. Então só vou comunicar uma coisa que é real para mim". E nada mais real do que olhar para si mesma. Nada mais desafiador e corajoso do que olhar para si mesma. "Muitas das mulheres que desenho são baseadas em mim e quando comecei eu queria ver mulheres como eu representadas em uma ilustração, então são muitas mulheres com o mesmo biotipo, maiores, peitão, com um braço mais grosso. Acho que quando você vê alguém que nem você representada ajuda muito e quando você começa a se representar também é uma outra maneira de você tomar as rédeas do que você considera bonito", conta. "Como todas as mulheres eu tenho um problema com o meu corpo, então acabou sendo uma maneira de me olhar de uma maneira mais gentil, de uma maneira mais poética e começar a trazer uma leveza nos desenhos".

Nos desenhos e na vida. Mesmo que não seja fácil, é o que ela busca fazer. Olhar com carinho e expor a beleza das situações. Até mesmo as mais complexas. Quando Priscila tinha entre 13 e 14 anos, sua mãe precisou retirar a mama por causa de um câncer. Anos depois, Priscila quis retratar uma mulher com a cicatriz típica de quem passou por essa cirurgia. "Minha mãe morreu de câncer e essa ilustração para mim tinha um outro significado. Eu pensava em como fazer [um desenho] sobre algo que ainda é pesado de uma forma leve, porque não queria trazer um peso ou a figura da mulher guerreira porque nem sempre a gente tem que ficar mantendo isso porque também é uma pressão. Essa coisa de sempre ter que estar tranquila, ter que ser uma mulher forte. Eu não queria isso. Eu queria só uma mulher. Chamei de 'Manhã' e era ela tomando um café com um livro do lado, de calcinha, na casa dela. Quando terminei olhei e pensei 'acho que é isso'. É uma mulher, só."

Não queria a figura da mulher guerreira porque nem sempre a gente tem que ficar mantendo isso. É também uma pressão.

Arquivo Pessoal/Priscila Barbosa
"Manhã": A ilustração que Priscila produziu para fazer uma homenagem - e porque não lembrar? - de sua mãe.

Esse olhar para o mundo feminino proporciona muita pauta para Priscila. Recentemente fez uma série autoral focada apenas na pelve. Pesquisou muito, conversou com pessoas da área de medicina para saber sobre a localização dos órgãos e dessa extensa pesquisa nasceram ilustrações – com detalhes que não são encontrados nem mesmo em livros de medicina. "Foi uma maneira de eu entender como as coisas funcionam. Eu pesquisei para isso, não é uma coisa que eu já sabia e tem muita coisa que a gente não sabe e não é culpa nossa, é social, cultural. Tem mulher que me pergunta 'o que é isso?' e eu explico com a maior paciência porque não é um problema, eu também não sabia. Nesse processo de desenhar eu descobri um monte de coisa que eu não sabia. A gente não tem muito isso, não é naturalizado falar dos órgãos".

Criou uma série de quatro desenhos da pelve feminina por diferentes ângulos. Com a mesma delicadeza de seus retratos e um outro elemento bem presente em seus trabalhos. As plantas. O livro de botânica não está em sua mesa para ajudar a cuidar das que tem em casa. Até tenta – e admite que mata muitas delas –, mas sempre está em busca de novos tipos e vê uma forte relação entre as plantas e as mulheres. "É muito ancestral, vejo isso pela minha família: acho que todo mundo tem aquela coisa do 'toma o chá de boldo', e minha família sempre foi dessas. Eu ia em benzedeira, então sou uma pessoa com uma ligação forte com isso e tento ao máximo me apegar a esses ensinamentos. E acho que colocar as plantas com as mulheres tem isso de ter essa relação com algo que é natural. Que é vivo e é tão visto como algo ornamental e não é".

Colocar as plantas com as mulheres tem isso de ter essa relação com algo que é natural. Que é vivo e é tão visto como algo ornamental... e não é.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Priscila passou anos atuando na área de design, afastada dos desenhos. Até encontrar sua forma de se comunicar, e se tornar autônoma.

Mulheres e plantas não servem para enfeitar, bem sabemos. Por mais que sejam belas. E Priscila gosta dessa combinação. Escolhe uma planta, um fruto para colocar em uma ilustração, sempre buscando algum sentido. Gosta da romã, por exemplo, símbolo de fertilidade. "Fertilidade criativa, de ideias, de criação porque também acho que a mulher tem o potencial criativo muito grande e foi o tempo todo diminuído. Mulher desenhar sempre foi visto como um hobbie. Aquela coisa 'do pinta, borda, toca piano'. Por isso temos mulheres hoje fazendo bordado e tentando trazer outro significado, tomando as rédeas de uma arte que sempre foi feminina e não tem que ser menosprezada por isso".

Nem um pouco. Priscila sabe como ninguém a potência que esse tipo de arte pode ter. "Acho que as ilustrações me mudaram completamente. Emocionalmente muitas coisas mal resolvidas tiveram que ser tocadas e percebi que não dava para deixar para lá. É louco como um trabalho artístico pode te tirar do eixo e ao mesmo tempo te colocar no eixo", exemplifica. Foi um grande encontro com ela mesma – e uma abertura para quem estava ao seu lado. "Uma coisa que mudou foi a maneira como eu enxergo e respeito as mulheres ao meu redor e a maneira que enxergo que existem pontos em comum".

Acho que as ilustrações me mudaram completamente. É louco como um trabalho artístico pode te tirar do eixo e ao mesmo tempo te colocar no eixo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"É louco como um trabalho artístico pode te tirar do eixo e ao mesmo tempo te colocar no eixo", exemplifica.

E existem os pontos que são só dela. As conquistas do dia a dia. Os dias ruins e difíceis, as pequenas vitórias. As grandes mudanças. Como poder viver de sua arte, de forma autônoma. E desfrutar pequenos luxos. "Foi importante eu começar a tomar café com calma e como eu trabalhava fora eu não fazia isso. E mudou muito a minha vida. Ter a oportunidade de sentar e tomar café. Foi uma mudança pequena, mas foi uma maneira de falar que eu tenho meu tempo, acordo com calma. Eu sonhava com isso, então é uma mega vitória".

Uma vitória pessoal.

Um cuidado com o seu tempo e com ela mesma pela manhã.

Ela, uma mulher. E só.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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