MULHERES
10/09/2018 18:01 -03 | Atualizado 10/09/2018 18:21 -03

Já houve ataques de fúria épicos no tênis. O de Serena Williams não foi um deles

A tenista lendária Billie Jean King está entre as vozes que concordam que Williams foi vítima de sexismo no US Open deste sábado (8).

Ataques de raiva de tenistas de primeira linha são tão comuns que muitas vezes são vistos como uma das coisas divertidas do esporte.
Anadolu Agency via Getty Images
Ataques de raiva de tenistas de primeira linha são tão comuns que muitas vezes são vistos como uma das coisas divertidas do esporte.

O mundo do tênis profissional já assistiu a alguns épicos ataques de fúria de seus jogadores.

No verão deste ano o tenista francês Benoit Paire destruiu várias raquetes durante partida do Citi Open, em Washington. O canadense Denis Shapovalov foi desqualificado de uma partida no ano passado depois de bater uma bola no olho de um árbitro, fraturando um osso dele.

André Agassi certa vez xingou um árbitro de "filho da puta" e cuspiu sobre a perna dele durante o torneio US Open de 1990. A carreira inteira de John McEnroe no esporte foi marcada – e muitas vezes maculada – por ataques de fúria na quadra dirigidas contra árbitros devido a decisões deles, alegadamente equivocadas, sobre a linha de base.

Ataques de raiva de tenistas de primeira linha são tão comuns que muitas vezes são vistos como uma das coisas divertidas do esporte.

A explosão de Serena Williams no sábado durante a final do US Open contra Naomi Osaka não foi um desses acessos raivosos. Mas foi tratado como tal graças à reação equivocada do árbitro e às manchetes da mídia após a partida.

Alguns dos grandes ataques de raiva acima mencionados geraram penalidades e desqualificações, mas Serena Williams observou no sábado – tanto falando ao juiz no calor do momento quanto após a partida, falando com jornalistas – que as autoridades do tênis têm um histórico de leniência maior em suas reações a manifestações de ira de homens nas quadras.

"Vocês sabem quantas outras coisas os homens fazem que são muito piores?" disse Williams às autoridades do US Open que vieram para a quadra enquanto a discussão do sábado esquentava.

"Isso não é justo."

A tenista legendária Billie Jean King, que foi a número 1 do mundo múltiplas vezes, concordou com ela.

"Quando uma mulher se rende à emoção, dizem que ela está 'histérica' e a castigam por isso", tuitou King após a partida. "Quando um homem faz a mesma coisa, ele é considerado 'franco' e não há repercussões."

(Várias coisas deram muito errado durante a final feminina do @usopen hoje. Contatos entre treinador e jogador sobre cada ponto não devem ser autorizados no tênis. Não são, e por essa razão uma jogadora foi penalizada pelos atos de seu treinador. Isso não deveria acontecer.)

(Quando uma mulher é emotiva, ela é vista como "histérica" e é penalizada por isso. Quando um homem faz a mesma coisa, ele é considerado "franco" e não há repercussões. Obrigada, @serenawilliams, por criticar esses 'dois pesos, duas medidas'. Precisamos de mais vozes para fazer o mesmo.)

Vamos reexaminar a partida.

A tensão já estava alta para as duas jogadoras antes do confronto entre Serena Williams e o árbitro Carlos Ramos. Williams buscava seu 24º título de Grand Slam, com o qual poderia igualar o recorde feminino da legendária Margaret Court. Osaka procurava seu primeiro Grand Slam e tornar-se a primeira tenista japonesa – homem ou mulher – a jamais conquistar esse título.

Mas, como revelam imagens da partida, mesmo sob essas condições que geravam uma verdadeira panela de pressão, Williams reagiu com relativa calma à primeira penalidade imposta por Ramos.

O árbitro afirmou que ela se comunicara ilegalmente com seu treinador, mas ela o negou educadamente e com firmeza.

"Entendo por que você pode ter pensado que aquilo era 'coaching', mas estou lhe dizendo que não foi", Williams lhe disse. "Eu não trapaceio para ganhar. Prefiriria perder."

Mais tarde, na lateral da quadra, Williams pôde ser vista falando com Ramos – calmamente, novamente --, destacando que não trapaceia. Ramos é ouvido dizendo "sei disso", ao que a tenista respondeu "muito obrigada".

A tensão cresceu quando Williams jogou sua raquete no chão depois de perder uma bola. A manifestação de frustração levou o árbitro a declarar outra violação – e essa segunda significou que uma penalidade de um ponto foi aplicada contra Williams.

Confusa com a situação, Williams pediu uma explicação. Quando Ramos falou da primeira violação que ele tinha marcado, ela começou a se defender.

Williams argumentou que a primeira violação deveria ter sido anulada e insistiu novamente que Ramos deveria pedir desculpas por ter decidido que ela tentara se comunicar com seu treinador. Ela chamou o árbitro de "mentiroso" e "ladrão" pena penalidade de um ponto. E disse que ele nunca voltaria a arbitrar uma partida com ela.

Ramos aplicou uma penalidade de um game contra Williams por suas palavras, levando-a a pedir uma consulta na quadra com outras autoridades do Open para que ela pudesse se defender mais.

"Você sabe quantos homens fazem coisas muito piores que isso? Isto não é justo", a tenista disse às autoridades. "Há um monte de homens aí fora que já disseram um monte de coisa, e, porque são homens, não acontece nada com eles."

Em momento algum Serena Williams xingou Ramos ou as outras autoridades, nem jogou uma bola contra eles, gritou para o público ou gritou com sua adversária – comportamentos que já fizeram parte de outras explosões notáveis no tênis.

Mesmo assim, muitos relatos da mídia a descreveram como uma mulher furiosa e excessivamente emotiva. A manchete do britânico Telegraph disse que Serena Williams "lançou uma diatribe furiosa contra o árbitro". Outras reportagens mencionam um "derretimento", "Williams irada", "esportista que não sabe perder" e "discurso descabido".

("gritos do alto da montanha" À MERDA COM ESSAS MANCHETES. DIRETO PARA O LIXO)

Serena Williams (que é presidente do conselho de assessores da Oath, a empresa mãe do HuffPost) e Billie Jean King têm razão. Tenistas profissionais homens já fizeram muito pior nas quadras. Williams realmente violou as regras da quadra ao destruir sua raquete, mas compilações de partidas de tênis ao longo das décadas feitas no YouTube comprovam que essa não é uma reação incomum de jogadoresespecialmente homens.

A colunista do Washington Post Sally Jenkins foi uma das vozes que questionaram Carlos Ramos pelo modo como se deu seu confronto com Williams.

Ela escreveu que o árbitro "pegou algo que começou como uma infração pequena e o converteu em uma das controvérsias mais emocionais e agressivas da história do tênis, tudo porque ele não suportou que uma mulher chamasse sua atenção".

A ativista e organizadora comunitária Brittany Packnett atribuiu a cobrança intensificada que Serena Williams enfrenta como sendo decorrente de ela ser uma mulher negra que não tem medo de expressar seus sentimentos na quadra.

"O mundo acaba de sentir o gosto da feminilidade negra", Packnett tuitou. "Não pode ganhar sem sombra de dúvida. Não pode perder sem sombra de dúvida. Não pode ficar por cima ao mesmo tempo. Não pode mostrar suas emoções em público."

"Vocês também testemunharam o que acontece quando mulheres negras ousam se defender – sim, mulheres NEGRAS", ela acrescentou. "Serena se defendeu justificadamente, mas já estão dizendo que ela 'explodiu'. "

(O mundo acaba de sentir o gosto pleno da feminilidade negra. Não pode ganhar sem sombra de dúvida. Não pode perder sem sombra de dúvida. Não pode ficar por cima ao mesmo tempo. Naomi e Serena são rainhas, as duas, e a gente entende. #USOpen)

(Vocês também testemunharam o que acontece quando mulheres negras – sim, NEGRAS- ousam se defender. Fiquem de olho nas manchetes. Serena se DEFENDEU justificadamente, mas já estão dizendo que ela "explodiu".)

(Simplesmente digam que vocês odeiam Serena porque mulheres negras dominantes metem medo em vocês. Vão ser infelizes em outro lugar.)

Em meio à confusão e o tumulto que marcaram os minutos finais da partida, Serena Williams fez questão de abraçar Osaka depois que um saque irretornável garantiu o troféu do Open à tenista de 20 anos. E as duas mulheres mostraram uma fachada unida.

Durante a cerimônia de entrega do troféu, o público manifestou seu desagrado intenso com as decisões do árbitro com vaias fortes. Mas Williams, 36 anos, colocou o braço em volta de Osaka, que estava chorando, e silenciou a multidão.

"Ela jogou bem e este é o primeiro Grand Slam dela", falou Williams aos torcedores. "Vamos fazer deste o melhor momento possível, vamos passar por cima disto. Vamos dar crédito a todo o mundo que merece. Não vamos mais vaiar. Vamos passar por cima disto. Vamos continuar positivos. Parabéns, Naomi. Chega de vaias!"

Na coletiva de imprensa após a partida, os jornalistas encheram Osaka de perguntas sobre o confronto entre Williams e Ramos, mas a jovem tenista não disse nada sobre isso, insistindo que não conseguiu ver ou ouvir o que aconteceu.

Em vez disso, Osaka elogiou seu ídolo.

"Não sei o que aconteceu na quadra, então, para mim, sempre vou me lembrar da Serena que eu amo", falou Osaka. "Isso não muda nada para mim. Ela foi realmente gentil comigo na rede e no pódio, então não vejo nada que pudesse me fazer mudar de opinião."

Em sua coletiva de imprensa, Williams elogiou a habilidade de Osaka e defendeu sua escolha de reafirmar sua posição durante a partida.

"Já vi outros homens chamando árbitros de várias coisas", ela disse a jornalistas. "Estou aqui lutando pelos direitos das mulheres e a igualdade das mulheres ... e o fato de eu ter dito 'ladrão' e ele ter me tirado um game, isso me fez sentir que foi uma reação sexista."

"O fato de eu ter tido que passar por isso é apenas um exemplo para a próxima pessoa que tiver emoções e quiser se exprimir e quiser ser uma mulher forte. Talvez deixem que ela o faça, graças ao que aconteceu hoje", prosseguiu a tenista. "Talvez não tenha funcionado para mim, mas funcione para a próxima pessoa."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.