POLÍTICA
10/09/2018 19:08 -03 | Atualizado 10/09/2018 19:10 -03

General Mourão: 'As Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, candidato a vice do PSL afirma que atentado contra Bolsonaro foi ato de 'covardia'.

Após declarações controversas, general Antônio Hamilton Mourão amenizou o tom.
Divulgaçã/Flickr/Inter-American Defense College
Após declarações controversas, general Antônio Hamilton Mourão amenizou o tom.

Entre a dúvida do príncipe Luiz Philippe de Orléans e Bragança e a recusa da advogada Janaína Paschoal, a cadeira da vice presidência na chapa de Jair Bolsonaro (PSL) foi ocupada pelo general Antônio Hamilton Mourão. E o vice nunca antes esteve sob tantos holofotes.

Defensor do discurso antipetista e afeito aos militares conhecidos por participar de casos de tortura, o general da reserva defende o papel das Forças Armadas em casos de anarquia no País. À GloboNews na última sexta-feira (7), ele admitiu a possibilidade de um "autogolpe" do presidente, com apoio do Exército, em um eventual cenário de caos político.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Mourão pediu ajuda de figuras de linguagem "civis" para esclarecer a declaração. "Quando o Titanic afundou, a orquestra ficou tocando, não fez nada. Então, as Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando. Aí fica a questão da interpretação da Constituição", disse.

No entanto, essa é uma "situação hipotética", segundo ele, uma vez que o País atualmente vive "turbulências", mas não anarquia.

A escolha de Mourão como vice pouco agrega à ampliação do eleitorado já conservador de Jair Bolsonaro — e ele sabe disso.

Com o líder do partido em recuperação após a violência sofrida, Mourão afasta qualquer possibilidade de representá-lo no corpo a corpo da política.

"O Bolsonaro é o homem das massas. E a massa quando vai à rua não quer ver a mim nem a mais ninguém. Eu faço o meu trabalho de formiguinha", explicou ao HuffPost.

Sobre o atentado, o general classificou como "ato de covardia" e culpou o PT pela violência. Chegou até a insinuar uma contra-resposta de mais força por parte da campanha: "Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós". Mas baixou o tom e garante que "ultrapassou" esse momento.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: O senhor disse que "se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós". O que o senhor quis dizer com isso? É uma apologia à violência?

General Mourão: Isso foi em um primeiro momento em que eu tive conhecimento da covarde agressão que o Bolsonaro tinha sofrido, mas já ultrapassamos esse momento.

Mas não foi a violência que levou ao esfaqueamento do Bolsonaro?

O que levou ao atentado do Bolsonaro foi uma facção que não quer perder o poder sob qualquer hipótese e que está jogando com todas as armas possíveis e imagináveis, até a covardia. Não há discurso de violência. As Forças Armadas não tem feito esse discurso; muito pelo contrário, a defesa é pela estabilização, repetidas vezes, em torno da legitimidade e da legalidade. A violência não vem das Forças Armadas.

Na ausência de Bolsonaro nas ruas, quem vai liderar a campanha presidencial do PSL: o senhor, o Gustavo Bebiano, presidente do partido, ou os filhos de Bolsonaro?

O lugar do Bolsonaro nas ruas é insubstituível, ele é o homem das massas. A massa quando vai à rua não quer ver a mim nem a mais ninguém. Então, esse capítulo de grandes manifestações com a presença dele, como vinha acontecendo, isso vai ficar para quando ele puder voltar para as ruas.

Vocês temem que isso impacte o ritmo da campanha?

A campanha continuará a ser tocada da forma como vinha sendo, por redes sociais, pequenas inserções que temos direito na rádio e na televisão, e o meu trabalho de formiguinha pelo Brasil inteiro.

Então o senhor espera ter um protagonismo maior na campanha enquanto o candidato se recupera? Como será sua agenda com os eleitores?

O protagonismo da campanha é dele. Eu não sou o candidato. Eu sou o vice, eu sou o apêndice. Então a gente tem que saber o tamanho da cadeira de cada um. A minha função é de fazer propaganda, de auxiliá-lo e de aconselhá-lo. De apresentar as ideias dele para grupos menores. E é isso que eu venho fazendo.

Existe um conflito de interesse no fato de o senhor ser político/candidato e assumir a posição de militar/membro do Exército?

Eu estou na reserva, eu não estou mais no Exército. Eu não estou assumindo mais nenhuma posição de militar, até porque eu não posso. Eu sou um militar da reserva e, se usar um linguajar civil, eu sou um aposentado. Não há conflito nenhum.

O protagonismo da campanha é dele. Eu não sou o candidato. Eu sou o vice, eu sou o apêndice.

Como seria esse "autogolpe" que o senhor disse que um presidente poderia dar com apoio das Forças Armadas?

Eu não falei isso. O Merval Pereira [jornalista da GloboNews] é que insistiu nisso. Nós discutimos uma situação hipotética de caos no País. Quando o Titanic afundou, a orquestra ficou tocando, não fez nada. Então, as Forças Armadas não podem ficar tocando e o Titanic afundando. Aí fica a questão da interpretação da Constituição.

Isso quer dizer que, se eleito, o presidente Jair Bolsonaro poderia entregar o comando do País às Forças Armadas?

Eu não tenho nada a mais para explicar sobre esse assunto.

O que o senhor achou da declaração do comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, de que a legitimidade do próximo governo pode ser questionada após atentado contra Bolsonaro, tanto no caso de ele ser derrotado quanto de ser eleito?

Eu não comento o que o nosso comandante falou, isso é uma questão de hierarquia e disciplina. O que ele diz é a opinião dele, então deixa para lá.

Se eleitos, temos que dialogar tanto com aqueles que vão nos apoiar, tanto com a parte mais furibunda da esquerda, que será nossa oposição.

Mas se Bolsonaro não for para o 2º turno ou não vencer a eleição, o senhor questionará a legitimidade do próximo governo?

O Bolsonaro não é um candidato ilegítimo. Nós só temos um camarada ilegítimo que não poderia ser eleito, que é contra a lei. E a candidatura dele já está barrada [registro de candidatura de Lula foi barrado pelo TSE no dia 31].

Com um país dividido como o Brasil, a ponto de despontarem nas pesquisas ícones da esquerda e da direita, Lula e Bolsonaro, como um governo Bolsonaro lidaria com os opositores?

Nós vamos dialogar com a esquerda como vamos dialogar com o Congresso, de forma ordeira, em torno do programa, apresentando as necessidades do País, porque não se tratam de necessidades do governo. O governo, o Executivo, simplesmente tem a responsabilidade de fazer cumprir o orçamento, executá-lo de forma correta, e apresentar projetos que corrijam os desvios que temos, os gargalos que nós temos nessa situação, seja econômica ou política. Mas nós temos que dialogar tanto com aqueles que vão nos apoiar, tanto com a parte mais furibunda da esquerda, que será nossa oposição.