11/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:44 -03

Agda Oliver, a mecânica que mostra qual é o lugar da mulher na oficina

Após experiências infelizes e preconceituosas, ela montou uma oficina voltada só para o público feminino e dá aulas de mecânica para outras mulheres: "É uma reeducação que precisa ser feita."

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Agda Oliver é a 188ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Há dez anos, Agda Oliver, 37 anos, tinha acabado de comprar o primeiro carro e percebeu que não entendia nada dele, não sabia que aquele meio de transporte tão sonhado precisava de manutenção ou cuidados com frequência. "Eu só colocava gasolina e era feliz. Simples assim", relembra. Um amigo do trabalho sugeriu que ela fizesse uma revisão. Um dia, no horário do almoço, ela foi pra oficina. "Cheguei lá e me fizeram entender que se eu não fizesse alguma coisa meu carro ia explodir na rua. Descobri depois que paguei por serviços e peças que sequer existiam no carro. E que mulher não podia estar numa oficina, aquele era um lugar do homem", conta. Foi a partir daquele episódio que a vida dela tomou novos rumos. Era preciso mudar esse cenário.

Agda começou a pesquisar sobre o próprio carro. "Fui para a internet, peguei o manual do carro e li todo. E descobri que não existia oficina em Brasília ou no DF voltada para o público feminino. Na época, já tinha vontade de empreender e montar meu negócio, então este fato me ajudou ter a ideia". Ela resolveu montar uma oficina voltada só para mulheres, que fosse um lugar onde elas pudessem confiar nos serviços prestados, que fossem tratadas com respeito e de forma igualitária. Mas não foi um caminho fácil. Quando foi compartilhar a novidade com os amigos e a família, era desencorajada. Foi no Sebrae e ganhou o incentivo que precisava: o negócio era viável. Durante dois anos, ela fez pesquisa de mercado, escreveu um plano de negócios, fez curso de gestão empresarial, e principalmente, de mecânica. Afinal, ela seria a grande entendedora do assunto a partir de agora.

Eles diziam que eu estava louca e que não tinha chance de dar certo, mas fui atrás e fiz acontecer.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Quando foi compartilhar a novidade com os amigos e a família, Agda era desencorajada.

Em 2012, conseguiu comprar uma oficina mecânica já pronta na Ceilândia, cidade satélite do DF, que estava há algum tempo sem clientes. "Quando eu entrei era um lugar totalmente masculino, fiquei com receio de mudar e colocar logo uma coisa mais feminina, então fui fazendo aos poucos. Fiz um banco de dados e comecei a fidelizar os clientes". Ela manteve também o nome fantasia "Meu Mecânico", porque acredita que é "uma expressão que tá na boca do povo". Mas toda a identidade visual é padronizada com uma identidade feminina. Na recepção, esmaltes e maquiagens estão à venda, e se misturam com embalagens de óleo e outras ferramentas para carros nas prateleiras. Sofás, inclusive uma poltrona em formato de salto alto, e banheiro cheiroso garantem o conforto pra clientela, que atualmente é composta em mais de 70% por mulheres.

Qualidade de atendimento é a mulher poder falar sobre o um barulho do carro dela sem achar que tá fazendo uma pergunta boba.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil

Hoje em dia Agda cuida da parte administrativa da oficina, mas quando o assunto é injeção eletrônica ela ainda coloca a mão na massa. Ela emprega quatro mulheres na sua equipe, uma delas é mecânica, e trabalha também com o irmão e o marido. Mas diz que sente dificuldade de encontrar mulheres que façam serviços no carro. "A minha vontade é que a equipe fosse toda feminina, só não é porque a gente não encontra pessoas qualificadas. E eu sei também que as mulheres não se especializam porque não tem lugar de trabalho, é muito mais fácil fazer um curso de cabeleireira e manicure porque tem mercado", aponta.

As mulheres estão abrindo seus negócios e se colocando em lugares tipicamente masculinos e isso ajuda outras mulheres a saírem da caixa do medo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Em 2013, ela ganhou um concurso no Sebrae e o prêmio foi uma viagem para a Alemanha.

Não é fácil quebrar a cultura de que mulher não entende de carro e que seu lugar não é na oficina. Segundo, Agda, as próprias mulheres ficam inseguras, mandam orçamento pros maridos conferirem, ou se recusam a serem atendidas por uma mulher. "É triste, mas acontece sim. Estamos mostrando nosso trabalho, a confiança é um processo devagar mesmo. É uma reeducação que precisa ser feita. E eu tenho total respeito pelos meus clientes. A gente que vende serviços precisa entender que existe uma relação a ser construída", diz.

Agda também promove palestras e workshops de mecânica básica para mulheres, o que para ela é uma forma de conquistar um novo público, além de tentar mudar toda uma cultura em relação aos cuidados com o carro. Informação é a chave, de acordo com a empresária. "Sempre peço para darem atenção ao manual que é algo que a gente não tira do porta-luvas, às vezes a gente até consegue pagar menos nas revisões e nos serviços porque entendemos e estamos bem informadas. Entender que algumas coisas no carro precisam ser preventivas, como a troca de óleo, e outras não, como a troca da pastilha do freio, que é só se estiver gasta mesmo", ela dá a dica.

Gosto muito de ensinar e mostrar para as mulheres o que o carro está dizendo.

Tatiana Reis/Especial para o HuffPost Brasil
Não é fácil quebrar a cultura de que mulher não entende de carro e que seu lugar não é na oficina.

O modelo de uma oficina mecânica para mulheres deu tão certo, que em 2013, ela ganhou um concurso no Sebrae e o prêmio foi uma viagem para a Alemanha onde conheceu oficinas e lojas de venda de carros voltadas para o público feminino. Agda, que no momento faz duas pós-graduações (uma em marketing e outra em inteligência competitiva) agora pensa em expandir os negócios e criar uma rede de oficinas. "Quero muito que meu negócio cresça e que eu consiga ter outros pontos, em outros lugares. Também quero dar aulas de alguma forma, seja na parte empresarial ou de mecânica mesmo", conta. Pra isso continua a acreditar no seu potencial e capacidade de empreender, algo que ela deseja para outras mulheres. "Não adianta uma mulher se empoderar, se ela não acreditar nela mesma. As coisas estão difíceis pra todo mundo. A gente precisa se arriscar mais".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini

Imagem: Tatiana Reis

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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