ENTRETENIMENTO
09/09/2018 18:12 -03 | Atualizado 09/09/2018 18:55 -03

Os bastidores de 'Benzinho', o filme brasileiro mais afetuoso de 2018

Diretor Gustavo Pizzi fala sobre roteiro escrito a 4 mãos, cenas, curiosidades e distribuição da premiada comédia dramática que está na disputa pela indicação brasileira ao Oscar 2019.

Divulgação/Bianca Aun
"Atualmente, só assim a gente consegue fazer frente aos filmes com maiores orçamentos de distribuição: com cada espectador tornando-se um multiplicador."

Benzinho é dos filmes brasileiros mais bem-sucedidos no exterior em 2018.

Depois da estreia no prestigiado Festival de Sundance, nos EUA, o longa passou por outros 30 festivais. Em cartaz no Brasil e em mais 20 países, a produção acumula não só elogios da crítica, mas também prêmios. Para citar um exemplo, do Festival de Gramado, um dos mais importantes do País, ele saiu com os kikitos de Melhor Filme pelo júri da crítica e também pelo voto do júri popular, além de Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz.

Benzinho é também o filme nacional mais afetuoso de 2018.

Mas antes de entrarmos nos detalhes da trama, é importante que você saiba algumas curiosidades de bastidores. Esta é a primeira parceria da dupla Gustavo Pizzi e Karine Teles depois do premiado Riscado (2010). Ele é o diretor e roteirista do filme. Ela também assina o roteiro e brilha na pele da protagonista. Os dois foram casados por 12 anos, tiveram os gêmeos Francisco e Arthur – que também compõem o elenco do longa lado de Otávio Müller, Adriana Esteves e Konstantinos Sarris (ator grego em sua estreia no cinema).

Voltando ao afeto presente em Benzinho, a trama retrata a história de Irene (Karine Teles), que mora com o marido Klaus (Otávio Müller) e os quatro filhos no interior do Rio de Janeiro. Lá, ela termina os estudos ao mesmo tempo em que se desdobra para complementar a renda de casa com ajuda da irmã Sônia (Adriana Esteves) – que enfrenta problemas em sua casa. Certo dia, o filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), recebe um convite para jogar handebol na Alemanha. Irene tem então poucos dias para assimilar os sentimentos que vieram juntos com notícia da partida de seu benzinho.

Até aqui usamos o termo afetuoso para descrever Benzinho, mas o diretor do filme prefere um que sugere ainda mais profundidade. "Benzinho é um filme muito amoroso", afirma Gustavo Pizzi ao HuffPost Brasil. "Ele está muito perto da gente aqui no Brasil porque crescemos escutando frases que a Irene fala, independentemente da classe social", completa. A particular conexão do filme com o espectador brasileiro foi um dos assuntos abordados em entrevista por telefone. Para o diretor carioca, fora do Brasil as pessoas se conectam com o filme mais por conta da "relação com a mãe". "Todo mundo teve em algum momento da vida uma mãe ou tem filhos. Ou não tem filhos, mas vai sair de casa", teoriza.

Além de falar sobre questões de roteiro e de bastidores - como a inclusão dos filhos gêmeos no elenco, o retrato de um Rio de Janeiro sem praias e uma das cenas mais instigantes do filme -, Pizzi também analisou o cenário restrito e competitivo de distribuição de filmes no Brasil, que impede que filmes como Benzinho - um dos 22 que disputam a indicação brasileira ao Oscar 2019 - lotem salas de cinema de todo o País. "Acho que atualmente só assim a gente consegue fazer frente aos filmes com maiores orçamentos de distribuição: com cada espectador tornando-se um multiplicador. É quase um ato político hoje."

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Como foi a construção desse roteiro a 4 mãos?

Escrever em dupla é muito difícil e muito bom ao mesmo tempo. Eu e Karine não escrevemos juntos, os dois, um do lado do outro. Mas a gente conversa sobre o que quer falar. Um escreve o primeiro rascunho, passa para o outro, conversa... De maneira que, no final, é tudo de todo mundo. Não existe essa coisa de "a sequência ou fala que eu escrevi ou que Karine escreveu". Isso é bom e ruim porque, em um trabalho criativo, chega um dado momento que você se apega um pouco à ideia que teve, Mas ao mesmo tempo você a coloca em movimento. Você troca com a outra pessoa, descobre coisas novas, você se questiona. Nisso, o trabalho deixa de ser tão solitário. Porque escrever é um trabalho muito solitário. Poder dividir isso é bom. Claro, é bom dividir com as pessoas em quem você acredita e que são as melhores para fazer isso com você. Fizemos esse filme juntos e foi muito bom ter Karine no processo todo.

Divulgação/Bianca Aun
Gustavo Pizzi dirige Karine Teles em 'Benzinho'.

Em que momento vocês decidiram incluir os filhos de vocês no elenco do filme?

Os meninos não foram nossa primeira escolha. Primeiro, porque são nossos filhos. É difícil colocar assim no seu próprio trabalho. Mas foi um processo que foi acontecendo. Nós estávamos a procura do ator para fazer esse personagem, que a princípio era um só e mais novo que eles. Certo dia um dos dois ficou com febrinha, não podia ir para a escola e acabou participando das improvisações com uma outra criança que estava fazendo testes. Todo mundo gostou. Numa outra vez, aconteceu a mesma coisa o outro. Ficou também com febre, foi ao teste e todo mundo achou muito bom. Isso foi crescendo até que chegou o momento em que eles se mostraram interessados em participar do filme. Sentamos com eles e conversamos muito.

Eles continuaram então participando das improvisações sem saber que eram testes. Isso ocorreu até o momento que a gente considerou que eles eram realmente a melhor coisa para o filme, mesmo que isso fosse muito mais difícil para todo mundo. Porque quando você tem criança no set, você tem horário restrito - o que é ótimo para não existir nenhum abuso. Além disso, há sempre os pais da criança no local normalmente. Cortou [a cena], você entrega a criança para os respectivos responsáveis. No nosso caso, eles ficavam com a gente, e nós continuávamos trabalhando. Esse ponto foi muito difícil: trabalhar com eles sempre juntos. Mas ao mesmo tempo foi a melhor coisa para o filme e pra nós também. Poder estar com eles durante o processo todo, descobrir coisas com eles: isso foi muito bonito. Foi um processo que acabou sendo muito acertado.

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Francisco e Arthur, filhos de Karine e Pizzi, em cena de 'Benzinho'.

O filme estreou nos EUA, continua sendo exibido no exterior, mas é nítida uma maior proximidade dele com espectador brasileiro. Você tem essa percepção?

Benzinho é um filme muito amoroso. Ele está muito perto da gente aqui no Brasil porque crescemos escutando frases que a Irene fala, independentemente da classe social. Principalmente nas cidades do interior. Você tem as grandes capitais, mas a maior parte da população brasileira está no interior. Isso conecta a gente de um jeito muito especial. Tivemos recentemente uma sessão em Petrópolis, que é a cidade onde o filme foi rodado, e foi uma loucura. Porque as pessoas entendem cada frase que é dita. Fora do Brasil, isso existe também, mas de um outro jeito. As pessoas se conectam por conta da relação com a mãe. Todo mundo teve em algum momento da vida uma mãe ou tem filhos. Ou não tem filhos, mas vai sair de casa. Elas se conectam com as questões sociais do filme.

Mas aqui [no Brasil] você tem essa alegria que a gente entende bem. É de um lugar de amor que é muito perto da gente e que é difícil de explicar. Vendo o filme você percebe aquela mãe que também trabalha, que também tem que levar a casa à frente. Mesmo que a gente não racionalize todas as coisas, a gente entende quase que pelos poros porque as nossas mães, as nossas tias... A maior parte da população do Brasil é formada por essas mulheres. Mesmo que você não seja mulher, você foi criado por uma como ela [Irene] ou parecida com ela. A gente se conecta de um jeito quase que sensorial com o filme. Fora no Brasil, acredito que as pessoas racionalizam um pouco mais.

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Karine Teles e o ator Konstantinos Sarris (em sua estreia no cinema).

Benzinho tem como pano de fundo um interior do Rio de Janeiro chuvoso, longe das praias. De onde partiu a decisão de mostrar esse outro Rio menos explorado no cinema?

A gente tem Petrópolis e Araruama, que tem aquela lagoa que aparece no filme, onde a família tem uma segunda casa. Esse é um Rio que a gente não costuma ver. Nessa sessão que fizemos em Petrópolis, as pessoas falaram "ah, mas você não mostrou os pontos turísticos da cidade". Falei "olha, os pontos turísticos a gente está cansado de ver". A gente quer ver a cidade em que as pessoas vivem, a cidade em que elas andam pelas ruas, vão trabalhar, fazem compras no mercado, resolvem seus problemas cotidianos. Isso eu acho que vale muito para qualquer cidade - do grande centro ao interior. Todos nós vamos aos pontos turísticos de vez em quando. Eu moro no Rio de Janeiro há 20 anos e visitei o Cristo Redentor apenas uma vez, assim como no Pão de Açúcar. A cidade que a gente vive não é da praia todo dia. A cidade que as pessoas vivem [nessas regiões mais turísticas] é outra. Você tem um centro histórico, mas você vive uma outra realidade. Quando falamos dessa família que passa por todas essas questões, dessas mulheres que batalham, que têm um dia a dia duro... São famílias que resolvem tudo com e pelo amor. E olham para a sua cidade, para o seu entorno, de uma maneira diferente do turista.

Li entrevistas em que você fala que é um diretor muito perfeccionista e que gosta de acompanhar todos os processos do filme. Queria que você falasse sobre a direção de fotografia, que é um aspecto que também chama a atenção em Benzinho.

De fato, eu sou muito detalhista. Trabalho muito próximo de todos os departamentos. Desenvolvo em cada um o caminho para a gente chegar onde a gente precisa chegar. Sobre a fotografia, tenho uma relação com os fotógrafos com quem trabalho: acredito que o enquadramento é um trabalho do diretor. Já a luz e a textura são trabalhos da direção de fotografia. E eu acho extremamente bonito, complicado e fascinante o trabalho da fotografia nessa busca pela textura perfeita para uma história. Eu trabalhei com o Pedro Faerstein, que é o fotografo do filme. Apesar de a gente ter uma história super realista, super detalhada no cotidiano, a gente queria ir para o oposto disso.

A ideia era construir a luz e os interiores de uma maneira bem detalhada. Você vai ver [em Benzinho] um pedaço iluminado da cozinha à noite e vai perceber também zonas escuras. Existe um clima quase de suspense. Há uma sensação de que alguma coisa vai acontecer. Isso traz também uma questão sobre o roteiro que estamos acostumados a ver: "vai dar algum problema em determinado momento". Existe essa tensão. Isso acaba levando o espectador a um outro lugar. Ele se conecta com a personagem de uma outra maneira. Ele vai se apaixonando e passa a torcer pelo bem dela, em vez de apenas esperar que alguma coisa trágica aconteça.

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Adriana Esteves e Karine Teles: dupla de atrizes foi premiada no Festival de Gramado por 'Benzinho'.

Preciso falar sobre outro ponto alto do filme que é a cena em que Irene canta Esôfago, da cantora Karina Bhur. Como você chegou a essa música e como foi a construção dessa cena?

Houve uma construção muito delicada de cada momento do filme. Um trabalho com o técnico de som no set para captação da maior variedade de sons possíveis. A ideia era poder trabalhar na pós-produção com o som que estava acontecendo no set: as crianças brincando, os ruídos todos. Depois queríamos encaixar a trilha sonora dentro disso. A gente ensaiou muito a cena com a música da Karina Buhr. A questão é que não tínhamos a música nos ensaios até 3 dias antes de rodar a cena. Na véspera, a gente conseguiu liberá-la com a Karina porque eu passei uma folga inteira caçando músicas e pensando em possibilidades. Cheguei nessa [Esôfago], e foi bacana. É uma música que eu gosto muito e casa muito com aquele momento. Porque a Irene tem esse lugar de estar quase explodindo. Ela está bem no limite, segurando a onda o tempo todo, fazendo de tudo para que as coisas não extrapolem. Se ela ultrapassar esse limite e perder a linha, a família toda vai junto com ela. Ela tem consciência disso.

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"'Benzinho' é um filme muito amoroso", acredita o diretor do longa, Gustavo Pizzi.

Falamos sobre a conexão que a trama de Benzinho tem com o espectador brasileiro e também sobre o sucesso do filme no exterior. Ele é um dos 22 títulos que disputam a indicação brasileira ao Oscar 2019, mas ao mesmo tempo compete no circuito com blockbusters americanos que o impedem de atingir um público expressivo no País. Que avaliação você faz desse cenário?

Estreamos Benzinho em Sundance [Festival americano e cinema], na abertura do festival. Foi uma honra muito grande pra gente e abriu muitas portas para o filme. Ele já foi vendido para 22 países e continua sendo vendido. Estamos simultaneamente em cartaz em 6 países. Inclusive, na Espanha o filme começou sendo exibido em 46 salas. Para um país do tamanho da Espanha, esse foi um número bem significativo. O filme tem ido muito bem no exterior. No México também, na Bélgica, na Holanda. E aqui no Brasil a gente tem esse gargalo da distribuição. Nós traçamos uma estratégia. A nossa distribuidora, a Vitrine Filmes, é muito boa com estratégias para filmes que têm chance de crescer dentro do circuito. Porque hoje você compete com filmes muito grandes, com blockbusters que vêm com orçamento de marketing maior que a grande maioria dos filmes brasileiros.

Para um filme do tamanho do Benzinho, nós também contamos com o boca a boca. E isso vem acontecendo. Da primeira para a segunda semana, a gente ampliou o número de salas. Em muitos lugares o filme foi o mais visto no complexo local. Temos recebido um retorno muito grande de pessoas que assistiram e que fazem campanha. Atualmente, só assim a gente consegue fazer frente aos filmes com maiores orçamentos de distribuição: com cada espectador tornando-se um multiplicador. É quase um ato político hoje. Porque muita gente assistiria a esse filme e muitos outros, mas elas acabam não tendo chance. Quando você entra em contato, a chance de gostar de um filme como Benzinho é grande. E de outros também, já que a recente produção brasileira tem sido muito potente. A questão é que a gente não esmorece. Queremos que as pessoas voltem às salas. E acreditamos que tudo pode ajudar o filme. Você citou a questão do Oscar, claro, estamos nessa lista. Acreditamos muito no nosso trabalho e no filme. Isso é algo que realmente muda a carreira de uma produção e acreditamos muito nessa possibilidade. Estamos torcendo muito.

Assista ao trailer de Benzinho:

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