POLÍTICA
09/09/2018 01:10 -03 | Atualizado 09/09/2018 01:16 -03

O Brasil não é para amadores

Dois anos após um impeachment, com o País governado por um presidente que bate recorde de impopularidade, o cenário político é completamente imprevisível.

Bolsonaro ferido, Lula preso, Temer combalido: este é o Brasil a um mês da eleição.
Montagem/AFP/Getty Images
Bolsonaro ferido, Lula preso, Temer combalido: este é o Brasil a um mês da eleição.

Imprevisível. Esta é a palavra que melhor descreve a política brasileira, especialmente nos últimos anos. A menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, um atentado ao candidato que recém havia assumido a liderança nas pesquisas deu um componente trágico que muda os rumos de uma campanha — que já não tinha um trajeto esperado.

O fato de Jair Bolsonaro, candidato do PSL, considerado ultraconservador, ter sido esfaqueado em um ato de campanha na última quinta-feira (6) por um "militante de esquerda" acirra a polarização entre direita e esquerda no País.

Cinco dias antes do atentado, era o candidato da esquerda quem despontava na corrida presidencial. Preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva brigava para conseguir o direito de concorrer à Presidência do País. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), entretanto, barrou sua candidatura e deu 10 dias para que o partido indicasse outro nome.

Ueslei Marcelino / Reuters
Líder nas pesquisas eleitorais sem Lula, Bolsonaro costumava ser ovacionado em atos de campanha.

Sem Lula na disputa, Bolsonaro aparecia em primeiro lugar nas pesquisas, mas também perdia em todos os cenários do segundo turno, com exceção de quando o cenário era contra o petista substituto de Lula, Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo.

As apostam, até então, se davam sobre quem iria com Bolsonaro para o segundo turno. Isto porque sem os principais representantes da polarização - que também são os que ostentam os maiores índices de rejeição - , há 3 candidatos empatados em terceiro lugar, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB).

Além de tentarem mudar a cabeça dos eleitores do PT e de Bolsonaro, os 3 miravam no voto dos indecisos, que somam 28% do eleitorado. Com Lula barrado e o atentado a Bolsonaro, as campanhas quebram a cabeça para traçar uma nova estratégia.

O candidato do PSL era principal alvo de Alckmin, que trazia peças eleitorais na quais apontava o discurso de Bolsonaro favorável ao armamento da população e ao tratamento machista em relação às mulheres. "Não é no tiro que se resolve", dizia uma das peças do tucano.

NurPhoto via Getty Images
Assim como Bolsonaro, Lula também carrega uma legião de simpatizantes. Já com a prisão decretada, em abril deste ano, foi ovacionado em seu último discurso ato público.

Polarização

O discurso de ódio, ao qual Bolsonaro flerta, e o discurso de medo, que foi base na campanha de reeleição do PT em 2014, estão sendo considerados por especialistas os principais fatores para explicar a imprevisibilidade dos capítulos da política brasileira.

Em artigo enviado ao HuffPost Brasil, o cientista político da Universidade Mackenzie, de São Paulo, Rodrigo Augusto Prando, destaca o nível dos discursos dos candidatos brasileiros, considerados um tom "acima do aceitável", com ataques pessoais e desrespeito aos adversários, desde 2014, quando Dilma Rouseff venceu Aécio Neves (PSDB).

"Na guerra, há inimigos, que devem ser eliminados; na política, há adversários e, neste caso, há necessidade de convivência, do debate, do convencimento. O respeito deve prevalecer, pois, na democracia, o adversário hoje pode ser o aliado amanhã", escreveu.

Esse entendimento sobre política não tem prevalecido. Quando Dilma deixou o comando do País, assumiu Michel Temer (MDB), vice da petista, mas aliado a parlamentares de oposição e insatisfeitos com a gestão que estava em andamento.

Naquele cenário de manifestações políticas e crescimento de movimentos de direita, Temer não foi capaz de promover diálogo no País. Dedicou a maior parte de seu governo a se defender de acusações, apesar de o desejo de se promover como um governo reformista.

Seu governo foi tão alvejado, engrossando a lista de episódios surpreendentes da política brasileira, que até a Netflix, no auge do sucesso de House of Cards, reconheceu que o Brasil não é para amadores e que é difícil competir com os roteiristas da política brasileira.

É como quem espera a nova temporada de uma série que estão os brasileiros. Atentos ao desenrolar do que vem pela frente dois anos depois de a então presidente do País sofrer um impeachment, em um processo ainda questionado, com o País governado por um presidente que bate recorde de impopularidade, e em um cenário em que o principal candidato foi impugnado, o outro sofreu um atentado e ninguém sabe quais serão as cicatrizes desse trauma.