09/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 19/09/2018 12:43 -03

Líbera Costabeber, a mulher que desbravou os Sertões sobre duas rodas

Ela foi uma das três mulheres a disputar o Rally dos Sertões 2018 em uma motocicleta - sem perder o foco e a coragem jamais: "Descobri uma outra Líbera que me surpreendeu."

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Líbera Costabeber é a 186ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

O maior adversário de Líbera Costabeber ao longo dos 3.600 quilômetros percorridos sobre uma moto no Rally dos Sertões não foi nenhum dos 64 pilotos homens, tampouco alguma das duas pilotos mulheres que compartilharam as trilhas com ela.

A rival a ser superada era ela mesma.

"Descobri uma outra Líbera que me surpreendeu", conta ela, uma das únicas três mulheres que disputaram a prova este ano (as outras foram Moara Sacilotti e Janaína Souza). Foram oito dias sobre uma 230 cilindradas, em uma jornada que revelou à gaúcha de 31 anos um Brasil que ela não imaginava - da beleza das paisagens ao carinho da gente simples do sertão - e uma Líbera que ela não conhecia.

Por mais que tenha outros competidores, tu és os teus limites. A prova é tu contra as tuas limitações.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Ela conquistou a 39ª colocação na classificação geral dos 67 pilotos.

O Rally, entre Goiânia e Fortaleza, disputado de 18 a 25 de agosto, foi a primeira prova de velocidade da carreira de Líbera, acostumada desde os 14 anos às duas rodas. Subiu em uma moto pela primeira vez, na cidade natal de Santa Maria, depois de muito insistir para acompanhar o pai, Fernando, nas trilhas off road. "Nas primeiras vezes, ele me levava desde que eu não atrapalhasse", recorda. Hoje, são parceiros de passeios, quando a agenda permite. Atualmente, Líbera mora em Porto Alegre, onde trabalha em uma agência de marketing digital.

Minha independência é meu reboquinho com minha moto em cima.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
#deixaelaacelerar é hashtag que usou para resumir tudo isso ao narrar a saga pelos Sertões.

Conquistou a 39ª colocação na classificação geral dos 67 pilotos, e a sexta na categoria dela (motos nacionais). "Tenho paixão por lugares difíceis onde eu preciso me superar. Quando fiz 30 anos, decidi: até os 40, vou correr esse Rally. Mas não imaginava que o convite viria tão cedo".

Já teve gente apostando que eu não ia terminar uma prova de enduro. De 100, eu estava entre os 40 que completaram.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
O "treinamento emocional" funcionou, e impediu que ela desistisse no momento mais difícil, quando tinha de cruzar 180 quilômetros em dunas de areia.

Ele veio em junho. Líbera teve apenas três meses para se preparar para a prova e desenvolver resistência para encarar jornadas de 12 horas sobre uma moto, comendo quase nada. Foi muito crossfit, musculação e uma dieta rígida, sem álcool, açúcar, glúten e lactose. "O rally começou ali. Sempre tive problemas com a balança, não achei que ia conseguir", lembra. E teve treinamento para a cabeça também, com meditação e aulas de balé.

Balé?

"Eu precisava me conectar com o lado feminino. No ano passado, depois de me preparar e correr uma prova de quatro dias, me senti muito masculina, estava até falando mais palavrão, parecia que estava no corpo errado. Fiquei frustrada e decidi que precisava cuidar disso", explica ela, que não se importa nem um pouco com a imagem que os cabelos e pele bem cuidados passam. "Quando chegou a loirinha, era a patricinha oficial da prova. Acharam que eu estava lá só pra tirar foto. Mas fiz o melhor tempo entre as mulheres em quatro de sete dias".

Quando chegou a loirinha, era a patricinha oficial da prova. Acharam que eu estava lá só pra tirar foto. Pode dizer que sou a patricinha do rally, mas diz também que patricinha acelera legal.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
Foram oito dias sobre uma 230 cilindradas, em uma jornada que revelou à gaúcha de 31 anos um Brasil que ela não imaginava.

O "treinamento emocional" funcionou, e impediu que ela desistisse no momento mais difícil, quando tinha de cruzar 180 quilômetros em dunas de areia. Em determinado ponto, a moto chicoteou e jogou Líbera de encontro a uma cerca. Bateu com as costas na madeira e, sem conseguir respirar direito, sabia que tinha trincado uma costela, pois não era a primeira vez. Ficou ali alguns minutos, então levantou, pegou a moto e foi até um ponto. Não chamou resgate de helicóptero, nem aceitou atendimento médico, pois tanto o transporte aéreo quando um raio-x a tirariam da prova.

Naquele mesmo dia, sob o sol do oeste baiano, Líbera teria outro problema: uma pane inexplicável na moto. Empurrou o veículo sobre as dunas por seis quilômetros até conseguir chamar ajuda da equipe; cuja caminhonete ainda atolou na areia e teve um pneu rasgado no caminho para a cidade, onde descobriria, depois de desmontar a moto toda, que o problema fora combustível adulterado.

É um tobogã de sentimentos, dá tudo errado e tudo certo no mesmo dia, coloquei todas as limitações e emoções à prova.

Caroline Bicocchi/Especial para o HuffPost Brasil
"Descobri uma outra Líbera que me surpreendeu."

Mas não é tanto pelos percalços que a localidade de Pilão Arcado ficou impressa na memória da piloto, mas sim pelo carinho dos agricultores naquele vilarejo de seis casinhas de barro, há cem dias sem chuva, que acolheram "a galega" com "sorrisos gigantes"durante aquelas horas de apuros. "Foi um presente de vida. É um turbilhão de emoções, dá tudo errado e tudo certo no mesmo dia, coloquei todas as limitações e emoções à prova".

Acostumada a ser a única mulher entre bandos de homens, tanto nas trilhas de diversão quanto nas competições (em 2017, ficou em terceiro lugar no campeonato Sul-Brasileiro, superando quase uma centena de pilotos na sua categoria), Líbera afirma que não houve nenhuma diferenciação entre pilotos homens e mulheres no Sertões. Mas isso não é o padrão em todos os ambientes onde se acelera sobre duas rodas. "Acham que tens de ser meio masculina, se não, é piranha, só está ali por causa dos homens". Defende que haja categorias femininas para que elas, além de incentivadas, "se sintam abraçadas, possam encontrar pessoas que passam pelas mesmas coisas".

#deixaelaacelerar é hashtag que usou para resumir tudo isso ao narrar a saga pelos Sertões no Instagram: "Deixa a Líbera ser feliz, ser ela mesma, no que faz a sua essência".

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Isabel Marchezan

Imagem: Caroline Bicocchi

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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