POLÍTICA
07/09/2018 16:07 -03 | Atualizado 08/09/2018 13:48 -03

Bolsonaro, Marielle e Lula: Por que a violência explodiu na política brasileira?

Candidato à Presidência pelo PSL, Bolsonaro foi esfaqueado em Juiz de Fora (MG) na tarde desta quinta (6).

Stringer . / Reuters
Para cientistas políticos, ataques a políticos refletem o crescimento da violência no discurso político do Brasil.

O atentado que o candidato à presidência do PSL, Jair Bolsonaro, sofreu na última quinta-feira (6), em evento de campanha realizado em Juiz de Fora (MG), se soma aos acontecimentos mais recentes ligados à violência e política neste ano.

O deputado foi atingido por uma faca na barriga durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG) nesta quinta-feira (6). O agressor, identificado como Adelio Bispo de Oliveira, de 40 anos, foi preso e disse que agiu por motivação pessoal e "a mando de Deus". Ele foi filiado ao PSol de 2007 a 2014. A Polícia Federal investiga a possibilidade de envolvimento de uma segunda pessoa.

Em março, a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) foi alvejada com tiros na cabeça no Rio de Janeiro. Também em março, a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi alvo de tiros no Paraná. Recentemente, uma funcionária de campanha de Guilherme Boulos (PSol) relatou ter sido ameaçada com uma arma por apoiadores de Bolsonaro em São Paulo. E um candidato a deputado estadual do PSL, partido de Bolsonaro, foi agredido no centro de Curitiba.

Nacho Doce / Reuters
"Quem matou Marielle e Anderson?": Manifestantes pedem resposta para crime que aconteceu em 14 de março deste ano e segue sem solução.

Para cientistas políticos, essas agressões refletem o crescimento da violência no discurso político do Brasil.

Pedro Fassoni Arruda, cientista político e professor da PUC-SP, analisa que, diferentemente dos outros anos, 2018 teve um crescimento generalizado do discurso de ódio, ultranacionalista e xenofóbico, cenário visto em 2016 nas eleições dos Estados Unidos, quando Donald Trump liderou a campanha para assumir a Casa Branca. "Existe um crescimento da extrema direita, e por estar em um período eleitoral [no Brasil], há maior polarização", disse.

Na visão de Rodrigo Augusto Prando, cientista político da Universidade Mackenzie, de São Paulo, o nível dos discursos dos candidatos está em um tom "acima do aceitável", com ataques pessoais e desrespeito aos adversários, desde 2014, quando Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB) nas eleições presidenciais. "Na guerra, há inimigos, que devem ser eliminados; na política, há adversários e, neste caso, há necessidade de convivência, do debate, do convencimento. O respeito deve prevalecer, pois, na democracia, o adversário hoje pode ser o aliado amanhã", afirma, em artigo enviado ao HuffPost Brasil.

Os professores ressaltam, contudo, que não se pode dizer que esta "onda" de violência é de hoje. "O Brasil tem um histórico gigantesco de violência causada pela desigualdade, como execuções sumárias de indígenas, de negros e pobres e de mulheres (feminicídio), mas existem episódios que chamam mais atenção, como de políticos", reiterou o professor da PUC-SP, Pedro Fassoni Arruda.

A organização internacional Human Rights Watch divulgou comunicado em que afirma condenar veementemente o ataque criminoso sofrido pelo candidato Jair Bolsonaro. "Diferenças políticas ou ideológicas devem ser resolvidas por meio de diálogo e nunca da violência. As autoridades brasileiras devem realizar uma investigação imediata, imparcial e completa sobre o ataque contra Bolsonaro, e garantir que o responsável ou os responsáveis respondam perante a lei", diz a nota.

Ataque 'orquestrado' a Bolsonaro

Paulo Whitaker / Reuters
Apoiadores de Bolsonaro fazem vigília na frente da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora (MG).

Parlamentares próximos a Jair Bolsonaro, acusam a esquerda de ter orquestrado o ato contra o presidenciável e alimentar o discurso de ódio.

Ao HuffPost Brasil, um dos coordenadores de campanha, o deputado Delegado Francischini (PSL-PR), afirmou que entrará com representação na Polícia Federal para que seja investigado "crime político". Ele explicou que, no primeiro momento, a preocupação era com a saúde de Bolsonaro.

"A partir do momento em que o quadro ficou estável, passamos para a fase seguinte, que é acionar a Polícia Federal. Do nada aparece um militante de esquerda na manifestação e tenta matar o candidato do outro lado. A PF tem que investigar isso", afirma. "O método da esquerda de discursos é bonito, mas na prática são desse jeito [violento]. É só olhar outros países, Venezuela e Cuba", completa.

Também aliado de Bolsonaro, o deputado Alberto Fraga (DEM-DF) engrossa o discurso de Francischini. "Foi um crime premeditado, um atentado à democracia. É uma vergonha, ainda mais vindo de um partido que sempre pregou a tolerância. Essa intolerância por parte do fanatismo que tem que acabar", disse, acusando o PT de estar ligado ao caso. Até então, Bolsonaro era um dos principais acusados de fortalecer essa narrativa de polarização e ódio. Os aliados, entretanto, negam.

O ataque a Bolsonaro, porém, é visto pelo professor da PUC como um caso isolado, não como um crime político, uma vez que até então não foi comprovado nenhum grupo ou tendência por trás do crime ocorrido em Juiz de Fora, Minas Gerais. "O que se sabe até agora é que ele agiu por conta própria, não está envolvido em grupo", reitera. "Temos que separar as coisas. Marielle era feminista e criticava o capitalismo, mas isso não significa que todos que pensavam diferente dela participaram de seu assassinato."

A campanha pós-atentado

O que deve mudar depois do ataque é o discurso dos candidatos no período eleitoral. Para Rodrigo Augusto Prando, da Universidade Mackenzie, o ataque será explorado pela campanha de Bolsonaro e pelos adversários, mas o real impacto em sua intenção de voto ou em sua rejeição só será possível verificar, apenas, em nova rodada de pesquisa eleitoral.

"O tom da campanha de Bolsonaro é, sem dúvida, assentado em determinada agressividade discursiva. Poucos dias atrás, ele afirmou, em evento, publicamente, que deveriam 'metralhar a petralhada'. Tal afirmação, infeliz, deve ser combatida e não há argumento que sirva de explicação", disse Prando.

Com a retirada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da corrida presidencial, Bolsonaro lidera as pesquisas. Ele tem 22% de intenções de voto, de acordo com sondagem do Ibope, divulgada na quarta-feira (5).

Há um empate técnico triplo no 2º lugar: Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) têm 12%, Geraldo Alckmin (PSDB), 9%. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Arruda acredita que a tendência, a partir de agora, é que a segurança pública seja tema central do discurso dos presidenciáveis, ganhando muito mais espaço do que outras questões importantes, como saúde e educação, principalmente na campanha do candidato do PSL.

É difícil dizer se o episódio fortaleceria o candidato do PSL. "É importante esperar a poeira baixar e acompanhar os desdobramentos das investigações", lembrou o cientista político da PUC.

Assim como a eleição em outubro, os cientistas políticos concordam que é improvável prever o tom dos candidatos e da população os próximos meses, mas esclarecem que, acima de tudo, o ódio não pode prevalecer sobre a razão, sobre o interesse público.

"Os democratas devem, sempre, condenar a violência verbal e, sobretudo, a violência física, em todos os seus graus. Sobra violência e falta debate, faltam ideias, falta respeito e tolerância", disse Prando. Ele acrescenta:

Nossa política, sabemos, não é das melhores, nossa representatividade padece de qualidade, mas essa política, a que temos, é melhor que a ausência da política. O fim da política e dos políticos significa a mudança da força do argumento pelo argumento da força.