07/09/2018 00:00 -03 | Atualizado 07/09/2018 00:00 -03

Tâmisa Caduda, a boleira carioca que usa afeto como ingrediente principal

Microempreendedora criou negócio há cinco anos e hoje defende que ver a cozinha como “arte do afeto” é uma forma de cuidar de si e do outro: "Entender que comida é energia, é respeitar o ingrediente e o tempo."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tâmisa Caduda é a 184ª entrevistada do Todo Dia Delas, projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

"Eu vou ficar descalça, tá? Estou em casa mesmo." É desta forma, bem à vontade, que uma doceira recebe quem chega em um aconchegante apartamento no alto de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Ali, com vista para a Cidade Maravilhosa, é onde Tâmisa Caduda, de 25 anos, criou e mantém a Bonde Bolos há cinco anos. Com uma carta de sabores variada, de brownie a caipirinha, a empreendedora defende que "cozinha é a arte do afeto" e que o processo de levar um bolo à mesa de uma comemoração é quase uma mágica.

"Ver o doce como afeto é uma forma de se cuidar, cuidar do outro. É um aconchego, um carinho. Eu reparo muito quando a pessoa dá a primeira mordida, quando eu estou presente, porque a expressão diz muito. É importante", explica.

As primeiras expressões incrédulas com o sabor do bolo de Tâmisa foram vistas no seu aniversário, há quase cinco anos. Mesmo com receita simples, a resposta dos amigos durante a festa foi tão positiva que ela nem pestanejou ao ouvir uma brincadeira que "deveria fazer para vender" e fez. Poucas semanas depois, a Bonde Bolos já existia e aceitava encomendas. O nome é uma homenagem a Santa Teresa, bairro em que ela nasceu e foi criada e é o único do Rio que é atendido pelo sistema de bondes, importante meio de transporte para quem mora ali. A pluralidade gastronômica do bairro está presente na vida de Tâmisa de forma intensa desde a infância. Levar a marca registrada do bairro ao nome do seu negócio foi como ela decidiu homenageá-lo, e tem dado sorte.

Senti que tinha chegado o momento de fazer o dinheiro circular para mim e cozinhar para pessoas próximas a mim.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu reparo muito quando a pessoa dá a primeira mordida, quando eu estou presente, porque a expressão diz muito."

No início da microempresa, os pedidos não eram suficientes para que Tâmisa deixasse de trabalhar em outros locais. Durante três anos ela conciliou a Bonde Bolos com trabalho em buffets de festa. A experiência foi um ótimo laboratório para fazer o negócio decolar.

"Percebi que muitos dos bolos em buffet eram de um cardápio muito limitado, e eu queria experimentar novos sabores. Alguns cardápios não tinha as opções de bolos que eu gostaria de comer, então um dia eu sentei no computador e pesquisei por horas uma carta de sabores", explica a doceira.

Passados três anos dividindo-se entre os buffets de festa e a Bonde Bolos, Tâmisa decidiu que era momento de ser sua própria patroa e focar no seu negócio. Como fazer os bolos é uma arte, segundo ela, o processo de criar para os outros não era mais agradável para o que ela acreditava.

"Eu trabalhava fazendo os bolos para o buffet e não podia assinar meus bolos. Eu tinha de fazer o bolo e o buffet dizia que era criação dele. Também senti que tinha chegado o momento de fazer o dinheiro circular para mim e cozinhar para pessoas próximas a mim", conta.

As pessoas não entendem que microempreendedor é empreendedor. Falam muito sobre desconto, precinho camarada.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje a carta é dividida em gourmet e clássicos, e o foco também foi algo aprendido com o tempo.

Mesmo grata pelos ensinamentos que recebeu em todos os buffets em que trabalhou, ela destaca que certa vez ouviu que "a Bonde Bolos não tinha maturidade para caminhar sozinha". "Então a Bonde Bolos vai criar maturidade para caminhar sozinha quando?", questiona Tâmisa. Só se aprende a andar, andando, então assim foi. Observar, aprender e conhecer o DNA da Bonde Bolos fez com que o negócio chegasse onde está hoje.

"A Tâmisa de hoje tem mais coragem. Eu tenho mais coragem para tentar fazer as coisas", ela afirma. E lembra como foi a evolução dos estudos para evitar que os bolos caíssem ou que os recheios derretessem, por exemplo. Tudo foi aprendido na prática, e graças a uma qualidade que ela também desenvolveu melhor no empreendedorismo: ouvir mais. A doceira não tem medo de tirar dúvidas com amigas mais experientes, ou de refazer uma receita que dá errada, revela à reportagem do HuffPost Brasil.

Entender que comida é energia, é saber respeitar o ingrediente e o tempo.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Durante três anos ela conciliou a Bonde Bolos com trabalho em buffets de festa.

No início, a carta de sabores, fruto da extensa pesquisa, era grande demais, coisa que logo depois a doceira viu que "não tinha necessidade". Hoje a carta é dividida em gourmet e clássicos, e o foco também foi algo aprendido com o tempo. Na linha gourmet há especiarias como queijo brie com damasco, e entre os clássicos está um bolo de cenoura com chocolate, que nas mãos de Tâmisa ganham um toque diferente. Há também os bolos feitos com massa de brownie e aqueles que levam caipirinha no recheio.

Cada etapa do processo de criação de um único bolo ganha um toque diferente, aliás. Mesmo com a carta de sabores, ela sempre está disposta a ouvir os clientes e adaptar o que for possível ao desejo dele. O cuidado também está nos ingredientes. As frutas que vão no recheio ou na massa são todas frescas. As flores que decoram o topo dos bolos são compradas no mesmo dia, em feiras da cidade. E não são quaisquer flores: vai de acordo com a paleta de cores escolhida pelo cliente.

Eu não posso fazer um brownie quinta-feira e vender no domingo. É falta de respeito com o paladar do cliente.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Além de bolos, Tâmisa quer se especializar em cupcakes e docinhos de festa.

Na trajetória do seu empreendimento, Tâmisa, claro, não encontrou clientes que merecessem tanto. Algumas atitudes, aliás, até impedem que negócios sejam fechados. Hoje, ela não atende mais pessoas que não valorizam o microempreendedor.

"As pessoas não entendem que microempreendedor é empreendedor. Falam muito sobre desconto, precinho camarada, sendo que não entram em uma grande perfumaria e falam 'nossa, tem como me dar 30% de desconto nesse perfume?', ou em um restaurante e falam 'gostei muito da sua proposta, posso pagar só 50% e divulgar a sua página?'. Antigamente eu pegava qualquer tipo de trabalho, que não ia me dar nada de lucro. Hoje em dia eu prezo muito pela minha paz, e por quem valoriza meu trabalho", afirma.

A seriedade implicou no sucesso das vendas, e agora o projeto é expandir: além de bolos, Tâmisa quer se especializar em cupcakes e docinhos de festa. A ideia é que a Bonde Bolos cresça cada vez mais. Os brownies, receita antiga, já são vendidos separadamente. Estudante de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela vende toda quinta-feira brownies no prédio em que estuda. No momento em que decidiu vender os doces para colegas, ela lembrou que o "espírito de vendas" é algo que faz parte dela desde a infância, quando vendia brigadeiros pelo bairro. A empreendedora, claro, tem suas técnicas para fazer dar certo.

Hoje em dia eu prezo muito pela minha paz, e por quem valoriza meu trabalho.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Entender que comida é energia, é saber respeitar o ingrediente e o tempo."

"Não vale a pena vender doces todos os dias. Se eu colocar todos os dias, as pessoas não vão comprar hoje pensando que podem comprar amanhã. Mas se eu vender em um dia só, a pessoa vai lembrar que só tem o brownie naquele dia e tem mais chances de comprar. Eu me preocupo também com a qualidade. Eu não posso fazer um brownie quinta-feira e vender no domingo. É falta de respeito com o paladar do cliente", explica a estratégia.

O respeito com o que irá para a mesa de seus clientes é o que rege a Bonde Bolos. Tâmisa também acredita que a energia que ela deposita em cada uma das etapas é fundamental para que a receita tenha êxito.

"Eu comecei a perceber que bolo é energia quando comecei a perceber que alguns bolos estavam dando errado, em um momento ruim da minha vida. Entender que comida é energia, é saber respeitar o ingrediente e o tempo. Não adianta: se você não tem tempo, não cozinha. Se o tempo do brigadeiro é uma hora mexendo, eu não vou colocar farinha para ele endurecer mais rápido. Isso também é um tipo de violência com o seu paladar", ressalta.

O que faz os olhos da doceira brilharem é relatar o processo de transformar ingredientes em comida, e essa comida saciar a alma e o estômago de quem possa prová-la. "Cozinha é alquimia pura. É matemática, é proporção, mas é alquimia e magia. Você não olha para uma galinha e fala "quero comer essa galinha", mas você consegue transformar aquela galinha em um prato apetitoso. É magia, etapa por etapa, que faz essa transformação", opina.

Ver o doce como afeto é uma forma de se cuidar, cuidar do outro.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O respeito com o que irá para a mesa de seus clientes é o que rege a Bonde Bolos.

E em um dia que a energia boa não consegue chegar até os bolos? Não tem como fugir: adaptações têm de ser feitas para que a encomenda seja entregue. E isso ela aprendeu com a mãe, Ângela, conhecida nas ladeiras de Santa Teresa por vender o acarajé mais famoso do bairro. Certa vez, uma receita não ficava boa de forma alguma. Foi quando Ângela aconselhou a filha sobre a necessidade de entender como as coisas a afetavam e não deixar que isso a impedisse de trabalhar.

"Eu preciso entender que também estou dentro de uma estrutura capitalista, que tem datas e prazos. Não posso falar para a cliente que não vou entregar um bolo porque minha energia não está legal. Então eu tenho que resolver: limpo a casa, acendo incensos e faço de novo. Tem que dar certo, tem que tentar de novo até dar certo", finaliza.

E se depender do cheiro de chocolate que ganha a varanda, para a sorte dos vizinhos, e do sorriso com que Tâmisa conduz a missão, não há como a Bonde Bolos dar errado.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.