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06/09/2018 10:38 -03 | Atualizado 06/09/2018 10:38 -03

Número de estudantes de museologia quadriplica em 10 anos

Museóloga do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP destaca que a tragédia no Museu Nacional aconteceu em um momento de expansão da área.

MAURO PIMENTEL via Getty Images

Foram mais de 200 anos de história queimando da noite de domingo (2) para segunda-feira (3) no Museu Nacional no Rio de Janeiro. Mesmo com o fogo controlado, não há estimativas sobre o tamanho do prejuízo. Um acervo que virou cinzas, uma instituição de ensino que deixou órfãos em um momento de expansão da área.

Dados levantados pelo HuffPost Brasil de acordo com a Sinopse Estatística da Educação Superior mostram que entre 2006 e 20016 o número de instituições que oferece o curso de Museologia foi de 4 para 13. A quantidade de matrículas mais que quadruplicou no mesmo período, foi de 448 para 1.905 alunos, um crescimento de 435%.

Neste momento, este é o cenário que a museóloga do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Cristina Bruno destaca. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ela ressalta a necessidade de "explicar que há um outro contexto no País que evidencia muitas ações no campo de políticas públicas para museus, com muitas iniciativas que merecem a divulgação".

"Há um movimento muito bem articulado e em expansão no que se refere aos cursos de graduação e programas de pós-graduação em Museologia, às redes de profissionais que se articulam em prol dos mais variados temas, à implantação de planos museológicos para a gestão das instituições, apenas para citar alguns movimentos que evidenciam um grande maturidade dos profissionais que atuam em museus", disse.

Embora apresente esse crescimento, a área ainda é negligenciada. Dados do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), obtidos pelo HuffPost Brasil, mostram que há 3.789 museus no Brasil. Desse total, 261 estão fechados. Na nota em que lamenta a tragédia no Museu Nacional, o Ibram pede para que o incêndio se torne um motivo de "sensibilização das autoridades deste País para o quanto as instituições museológicas precisam ser levadas a sério".

De acordo com a instituição, o caso deve servir de exemplo para que os museus "não sejam sistematicamente constrangidas com as reduções orçamentárias e com a impossibilidade de manutenção de quadros estáveis de profissionais especializados, entre outros abandonos, como temos testemunhado ao longo de décadas".

Ao HuffPost Brasil, Cristina Bruno acrescenta: "Sem verbas compatíveis com as nossas responsabilidades, sem equipes especializadas estáveis, sem infraestrutura qualificada etc... é impossível realizar um bom trabalho que a sociedade brasileira merece".

DANIEL RAMALHO via Getty Images

Leia a entrevista.

HuffPost Brasil: Na sua opinião, o que a destruição do Museu Nacional reflete?

Maria Cristina Oliveira Bruno:Essa tragédia é mais uma evidência do descaso, há décadas, das autoridades em relação às instituições de pesquisa e cultura deste país. Há uma enorme dificuldade de compreensão sobre a necessidade de trabalhos técnicos especializados e sistemáticos para a manutenção de instituições que realizam pesquisa e salvaguardam acervos. Para além das necessidades de instalações, infraestrutura qualificada e recursos humanos especializados para os trabalhos de pesquisa, há também a mesma necessidade para as responsabilidades de limpeza, segurança, atendimento ao público, conservação, exposição, oficinas e ateliers para atendimento do publico infanto-juvenil, entre muitos outros. No caso do Museu Nacional, ainda emergem as necessidades de ensino, por ser um museu universitário. Os seja, os museus são instituições que têm enormes responsabilidades públicas em função de suas especificidades, nomeadamente a salvaguarda de acervos.

Então o desastre no Museu Nacional é um alerta para nós?

É um trágico alerta. Dramático mesmo, pois os seus profissionais e estudantes têm se empenhado muito e clamado por apoio há muito tempo.

Há mais de 3 mil museus no Brasil, desses 261 estão fechados. Há outros museus em situação semelhante ao Nacional?

Os museus brasileiros estão vinculados a distintas tutelas administrativas e diversos modelos de gestão. Estão vinculados ao governo federal em diferentes ministérios, aos governos estaduais e municipais, às instituições privadas, entre muitas outras instâncias. Apesar de todos os esforços, o País apresenta um cenário com expressiva diversidade. Temos instituições de excelência em todas as questões acima mencionadas e outras, lamentavelmente, enfrentando enormes dificuldades.

Mas neste momento é fundamental também explicar que há um outro contexto no País que evidencia muitas ações no campo de políticas públicas para museus, com muitas iniciativas que merecem a divulgação. Há um movimento muito bem articulado e em expansão no que se refere aos cursos de graduação e programas de pós-graduação em Museologia, às redes de profissionais que se articulam em prol dos mais variados temas, à implantação de planos museológicos para a gestão das instituições, apenas para citar alguns movimentos que evidenciam um grande maturidade dos profissionais que atuam em museus.

A ação do Instituto Brasileiro de Museus e de diversos organismos semelhantes nos estados e municípios têm demonstrado muitos avanços para a nossa área. Entretanto, a falta de apoio e seriedade daqueles que estão acima dessas instituições ainda é muito expressiva.

Há também, é bom que se diga, uma certa negligência de diversas camadas da sociedade em não valorizarem o nosso patrimônio cultural e científico. Há um desconhecimento sobre o enorme trabalho que estas instituições realizam.

Em uma entrevista ao Brasil de Fato, a senhora fala em repensar a existência do museu. Alguns cientistas também estão falando que não dá para contabilizar o buraco que a destruição do acervo acarreta na formação dos pesquisadores. Nós vamos retroagir?

Penso que não haverá retrocesso, mas sim um esforço dobrado para a recuperação de tudo que se perdeu. Com certeza, o Museu Nacional terá que ser repensado, mas os seus profissionais e estudantes são extremamente capazes para essa dolorosa tarefa e, com certeza, contarão com apoio de todos.

Como museóloga, o que você acha gestões dos museus hoje no Brasil? Há algum outro modelo que poderíamos nos inspirar?

É um cenário muito diverso, com expliquei. Conhecemos os modelos internacionais e em muitos casos já têm sido aplicados aqui.

Gostaria de sublinhar que hoje os profissionais dos museus, em grande escala, têm pleno conhecimento do que é necessário para essas instituições. Precisamos, com certeza, de respeito profissional para que possamos realizar de forma adequada a governança interna das instituições.

Sem verbas compatíveis com as nossas responsabilidades, sem equipes especializadas estáveis, sem infraestrutura qualificada etc... é impossível realizar um bom trabalho que a sociedade brasileira merece.