ENTRETENIMENTO
06/09/2018 11:58 -03 | Atualizado 06/09/2018 12:04 -03

Katherine Heigl. A sombra após 'Grey’s Anatomy'. E o retorno aos holofotes

A estrela caída de 'Grey's Anatomy' voltou à TV como membro regular do elenco de 'Suits'. Será que o público vai abrir os braços para ela?

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost Photos: Getty/Alamy

Um pouco mais de dez anos atrás, Katherine Heigl estava no auge de sua carreira. A atriz, então com 28 anos, tinha acabado de estrelar a comédia Ligeiramente Grávidos, de Judd Apatow, e recebera um Emmy pelo papel da Dra. Izzie Stevens em Grey's Anatomy, criado por Shonda Rhimes, quando foi chamada para fazer o papel principal em Vestida para Casar.

Ela era uma legítima estrela de Hollywood, capaz de atrair não apenas espectadores, mas salários superiores a US$ 6 milhões.

Até que a jogamos para o escanteio.

Por que seu índice de aprovação pública caiu vertiginosamente? Era amplamente previsto que Heigl ganharia outra indicação ao Emmy em 2008. Mas ela tirou seu nome de consideração, explicando, em comunicado amplamente divulgado pela mídia, que não achava que seu papel na quarta temporada de Grey's Anatomy justificava os elogios recebidos.

"Sinto que não recebi nesta temporada um material que justifique uma indicação ao Emmy. Com o intuito de conservar a integridade da organização da academia, tirei meu nome da competição", ela confessou. "Além disso, eu não quis potencialmente tirar uma oportunidade de uma atriz a quem tivessem sido dados esses materiais [merecedores de consideração]."

A declaração desencadeou furor entre os fãs de Grey's Anatomy e também entre o elenco e equipe técnica da série, que a interpretaram como um insulto a Shonda Rhimes, que já se transformara na matriarca do horário nobre da TV americana. A própria Rhimes ficou espantada, e em 2012, dois anos depois de Heigl ter deixado Grey's dizendo que queria se dedicar à sua família, ela deu a entender que a atitude revelada na declaração dada por Heigl sobre o Emmy foi parcialmente responsável por sua saída da série.

"Em algum nível isso me ofendeu e em algum nível não me surpreendeu", Rhimes disse a Oprah Winfrey, falando da declaração de Katherine Heigl em 2008. "Quando as pessoas te mostram quem elas são, acredite nelas. Carrego esse mantra comigo sempre. Ele tem me servido bem."

Rhimes continuou a mencionar a atriz ao longo dos anos, dizendo ao Hollywood Reporter em 2014, por exemplo, que "não há Katherine Heigls" no set de Scandal.

Falando de sua política de "nada de cretinos" em matéria de contratações para sua produtora Shondaland, ela comentou: "Não tolero conversa mole nem pessoas desagradáveis. Não tenho tempo para isso."

Heigl continuou a sofrer as consequências negativas de seu gesto.

Alguns meses antes de Shonda Rhimes ter feito sua declaração "nada de Heigls", a TV Guide publicou um artigo intitulado "Katherine Heigl: Minha Carreira me Traiu". A primeira linha do texto resumiu o sentimento da cultura popular em relação à estrela caída: "Katherine Heigl continua com sua campanha para reconquistar nosso apoio, tentando nos fazer ficar com pena dela".

O título da reportagem foi uma ligeira manipulação de um comentário feito por Heigl em entrevista à revista Marie Claire:

″Essa coisa que durante muito tempo foi minha melhor amiga de repente se voltou contra mim", ela disse, aludindo à notória máquina de Hollywood. "E eu não esperava por isso. Fui pega de surpresa e fiquei irada com ela por ter me traído."

Entre as outras manchetes estavam "De 'Ligeiramente Grávidos' a anúncios de Nyquil, será que a TV pode salvar a carreira de Katherine Heigl?", "Executivos de Hollywood dizem que Katherine Heigl é 'difícil de se lidar' e que 'não vale a pena' trabalhar com ela. Maior celebridade metida a besta?", "O retorno de Katherine Heigl será um sucesso (e queremos que seja?)?".

Nesse ponto, a carreira de Heigl estava diferente. Apesar de ter trabalhado em um punhado de filmes entre 2010 e 2014, nenhum deles decolou como ela esperava. A atriz voltou à TV com a série State of Affairs, cancelada pela NBC em 2015 após 13 episódios, e tentou novamente em 2017 com Doubt, da CBS, mas não demorou a ficar sem trabalho novamente. O thriller dramático Paixão Obsessiva ("Unforgettable"), de 2017, a ajudou um pouco, com seu papel de ex-esposa ciumenta e assassina (papel que talvez tenha capitalizado um pouco sobre a disposição do público de vê-la como vilã). Mas nada chegou ao nível da fama que Heigl desfrutava em 2008.

No início do verão, procurei a equipe de Heigl para conversar sobre o retorno dela à televisão, agora como parte do elenco regular da oitava temporada de Suits (Homens de Terno), da USA Network. A iniciativa tem todas as características de uma tentativa de dar a volta por cima.

Mas a representante da atriz encarou minha solicitação com "ceticismo", e sua empresária não respondeu a meus pedidos de entrevista. Se elas estavam preocupadas com minhas intenções, talvez a cautela fosse justificada.

Heigl já foi convidada inúmeras vezes a explicar sua indiscrição passada. Em sucessivas entrevistas, a atriz negou que tenha se comportado como diva.

"Não sou uma pessoa mal-educada", ela disse a Meredith Vieira em 2014. "Eu nunca magoaria alguém intencionalmente, nunca tentaria fazer alguém se sentir mal ou incomodado, nunca deixaria de ser profissional, de fazer meu trabalho. Gosto do meu trabalho. Mas vou continuar a me defender e nunca vou deixar de defender meu direito de ser ouvida, meu direito de ser tratada respeitosa e profissionalmente, meu direito de traçar limites. Sou um mulher forte. Não vou pedir desculpas por isso."

Mas ela pediu desculpas. Em entrevista dada a Howard Stern em 2016, Heigl recordou um "mea culpa" que fez a Shonda Rhimes pouco tempo tempo depois de sua declaração sobre o Emmy.

"Fui lá porque estava realmente sem jeito. Então fui lá falar com Shonda e disse a ela: 'Sinto muitíssimo. Aquilo não foi bacana. Eu não deveria ter dito aquilo.' E eu não deveria ter dito nada em público. Mas na época, não pensei que alguém fosse notar. Eu simplesmente não quis ceder sem falar nada, e aí o assunto repercutiu e eu me senti na obrigação de dar minha declaração. Eu deveria simplesmente ter dito 'cale a boca, Katie'."

Hoje, enquanto fãs do entretenimento aplaudem as mulheres que lideram o movimento Time's Up e as discussões sobre a disparidade salarial gritante em Hollywood, o legado de Heigl ainda está no limbo. Os fãs continuam a enxergá-la com desconfiança, mesmo agora que Ellen Pompeo, com quem ela contracenou em Grey's Anatomy, continua a receber tapinhas nas costas por sua luta elogiável para receber salário de US$20 milhões.

O paralelo – entre a luta aberta de Pompeo para ser muito bem remunerada e o desejo altamente difundido de Heigl por um papel mais substancial – não é perfeito. Mas há semelhanças entre as duas campanhas abertas; tanto Pompeo quanto Heigl queriam e ousaram pedir mais.

Heigl compartilhou outra opinião desfavorável em 2008. Quem se lembra?

"Foi um pouco sexista", ela disse à Vanity Fair, aludindo a Ligeiramente Grávidos, de Judd Apatow. "O filme mostra as mulheres como megeras, sem o menor senso de humor, supertensas, e os homens como caras divertidos, engraçados, fáceis de se gostar. Os personagens eram exagerados, e em alguns dias eu tive dificuldade de lidar com isso. Minha personagem é tão chata; por que ela é tão estraga-prazeres? Por que é assim que retratamos as mulheres? 98% do tempo foi uma experiência fantástica, mas foi difícil para mim gostar do filme."

Uma leitura generosa desse comentário feita em 2018 posiciona Heigl à frente de seu tempo, uma atriz que está pedindo a Hollywood que mostre mulheres como sendo outra coisa além de chatas, vadias, mamães ou ingênuas. Uma mulher no mundo do entretenimento lutando por roteiros melhores? Isso mesmo.

Em 2013 o blog Grantland especulou que um retorno de Katherine Heigl às telas assumiria uma forma específica: "uma participação convidada numa sitcom, com algumas entrevistas bem posicionadas dizendo que foi uma 'boa experiência' para todos". Em Suits, Heigl preenche o vazio deixado pela saída da atriz Meghan Markle, hoje a Duquesa de Sussex, representando a advogada Samantha Wheeler, que segundo Heigl, se enquadra perfeitamente com o resto da firma fictícia do criador Aaron Korsh.

"Elas são confiantes, se sentem bem na própria pele", disse Heigl à TVLine. "Elas têm falhas e inseguranças, é claro, mas não têm medo de inovar. Não têm medo de resistir."

O interessante foi como ela conseguiu o trabalho: pedindo. Heigl, que hoje tem 39 anos e três filhos e que trocou Los Angeles por uma vida num rancho no Utah, teria procurado Korsh para perguntar sobre possibilidades gerais de colaboração, para então perguntar diretamente se ele precisava de uma "loira alta" para a oitava temporada de Suits. E pronto, ela entrou para a série.

O pedido trai uma situação privilegiada (afinal, é raro Hollywood não estar interessada em uma "loira alta". Será que Mo'Nique, por exemplo, teria encontrado uma oportunidade tão feliz se tivesse pedido diretamente um papel?). Mas também revela um orgulho admirável.

Comentários e quesitos profissionais podem ser descritos de vários modos para se encaixar em narrativas convenientes que contam apenas uma parte da história. A sequência de trabalhos sem brilho de Heigl na TV e em comédias românticas, somada à seu suposto status de alguém que "não faz parte do time", ou pode indicar um profissionalismo e uma qualidade como atriz abaixo do esperado, ou pode refletir os materiais de baixa qualidade que lhe foram oferecidos – até ela pedir algo melhor. Ou a verdade pode estar em algum lugar no meio dessas duas hipóteses.

Seja como for, Katherine Heigl está voltando. Você vai recebê-la de braços abertos?